Missão |
Ana Paula Cruz, grupo Grão, PAR e Serviço Jesuíta aos Refugiados
“Somos uns dos outros”
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Ana Paula Cruz nasceu a 13 de março de 1992 e cresceu em Celorico de Basto. É licenciada em Medicina, pelo Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, no Porto. Já esteve em missão com o grupo Grão, com a PAR- Plataforma de Apoio aos Refugiados e com o Serviço Jesuíta aos Refugiados.

 

A missão em Moçambique

Durante a faculdade, sentiu a necessidade de “cuidar das pessoas” e isso levou-a a “integrar alguns projetos de voluntariado local e a conhecer o Grão, associado ao CREU – Centro de Reflexão e Encontro Universitário Inácio de Loyola, o primeiro projeto que me levou a preparar o coração, pôr uma mochila às costas e partir.” Em 2015 esteve em Moçambique com o Grupo Grão e conta-nos: “Foi nas férias de Verão que parti com uma comunidade muito especial de quatro missionárias para Fonte Boa, uma comunidade pequenina e esquecida em Moçambique, pertinho da fronteira com o Malawi. Durante estes dois meses vivemos a graça só de fazer o bem, só de ser amor. Levámos imensas projetos pensados, imensa vontade de fazer coisas, mas deparámo-nos com uma necessidade muito maior: não de fazer, mas de estar, de ser. De estar ali para eles, de olhá-los, abraçá-los, de projetar neles o nosso desejo de bem. Essa é a missão à volta da qual tudo acontece e tudo se desenrola. Recebemos deles uma alegria que assusta por ser tão simples, por questionar todas as coisas materiais em que colocamos as nossas seguranças, por ser tão pura e genuína, assusta muito no início, depois devolve-nos ao essencial e por fim liberta-nos. Devo-lhes essa liberdade e a maneira como souberam ensinar-nos tão bem. Voltámos de Fonte Boa com esta certeza boa no coração de que nos pertencemos mutuamente, de que somos uns dos outros. E o Grão tem esta coisa bonita de nos mostrar o caminho: o caminho é o outro, é encontrá-lo, onde quer que ele esteja, quem quer que ele seja, e é estar atento, cuidá-lo e amá-lo, todos os dias” e diz-nos que, no regresso a Portugal, “depois de tanto tempo sem telemóveis ou televisão onde pudéssemos saber do que ia acontecendo no resto do mundo, que percebemos que havia toda uma crise de refugiados a chegar à Europa, a dar-nos a oportunidade de acolher, de cuidar. E perante isto a decisão não podia não ser ir, partir, ir ao encontro.”

 

“A missão é ser casa”

Em Novembro de 2016 partiu com a PAR- Plataforma de Apoio aos Refugiados para Lesbos (na Grécia) onde permaneceu até ao final do ano. “Quando chegamos a um campo de refugiados o que assusta mais são os muros: as redes, o arame farpado a toda a volta, a vedação, a dor de estar fechado, de não ser bem-vindo. É isso que me assusta todos os dias: que esta seja a maneira com que a minha Europa – e, portanto, eu também – acolhe pessoas já tão magoadas, perpetuando um ciclo de dor que já dura há tempo de mais. Primeiro a dor do conflito, a dor da guerra, a dor do que perderam, do que viram, do que lhes morreu; depois a dor da travessia, o escuro do deserto, o medo do mar; e depois nós, fechados em nós próprios, a deixá-los esquecidos em campos sem condições nenhumas, onde chove, onde faz frio, onde se morre todos os dias um bocadinho mais. E é por isto tudo que somos mesmo necessários nestes sítios do mundo e a PAR faz um trabalho incrível de acolher, de ser casa. A missão, em conjunto com as tantas atividades que desenvolvemos com crianças e adolescentes diariamente, a missão é ser casa, é dizer a alguém que é bem-vindo aqui quando o mundo o faz fugir há meses, é falar do que dói e ajudar a que cure, é dar as mãos e fazê-los nossos. É só isso que eles precisam: que deixemos de lhes chamar refugiados e que lhes saibamos o nome, que deixemos de lhes chamar outros e os façamos nossos. Voltei a Portugal com o coração ainda muito lá e em mil outros sítios do mundo. E ao longo do ano foi-se tornando muito concreto este desejo de partir novamente”, partilha.

 

“O que doía mais era quão esquecidos eles estavam”

Em Outubro de 2017, voltou a partir, desta vez para Dundo (Angola), na fronteira com a República Democrática do Congo, com o Serviço Jesuíta aos Refugiados. E partilha, na primeira pessoa, esta experiência: “Os campos de refugiados e todos os congoleses, muitos deles acabados de chegar, foram a minha casa durante os três meses que se seguiram. Encontrei neles feridas – as que conseguíamos ver e as que guardavam só para eles – muito específicas e o que doía mais não era só o facto de o conflito ser tão arrastado na RDC mas ao mesmo tempo com este pico de violência que fez 40 mil pessoas atravessar a fronteira em tão poucos meses; nem era só a carga pessoal que tem um conflito étnico ou as condições tão precárias dos campos; o que doía mais era quão esquecidos eles estavam, esquecidos do mundo, esquecidos de todos. E sem dúvida que muito mais do que todos os cuidados médicos que podemos levar-lhes, o que os cura é esta esperança de que o mundo os vê, de que as feridas deles não nos assustam, mas nos doem e de que vamos fazer de tudo para que doa menos. Estas missões com pessoas tantas vezes tão magoadas ensinam-nos muito sobre quão importante é assumir as feridas dos outros e quão importante é sermos bons, só bons. E depois ensinam-nos imenso sobre a resiliência desde corações que continuam a acreditar depois de tudo que viram, que continuam a amar depois de tudo que os magoou. São eles que nos inspiram-nos, todos os dias, e também são eles que nos curam, todos os dias.” No regresso, diz que “voltamos destes sítios com o coração muito agradecido pela graça que é poder estar lá, mas também muito magoado, em processo de cicatrização por uma dor necessária, urgente, que também de ser nossa. Voltamos destes sítios com a responsabilidade de cada um desses nomes, dessas histórias de vida, desses corações que nos tocaram. Voltamos com a missão de ser voz, de fazer com o mundo os veja. E voltamos com a certeza de que vai haver momentos em que o nosso coração vai ser chamado a ser casa em sítios muito longe dos sítios onde nascemos e que quando assim for a missão vai ser sempre partir porque sabemos dentro de nós que ficar não é uma opção enquanto houver sítios no mundo onde dói demasiado.”

texto por Catarina António, FEC | Fundação Fé e Cooperação
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