Missão |
Inês Figueiredo, Juventude Mariana Vicentina
“Os meus medos e incertezas dissiparam-se logo no primeiro dia”
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Inês Figueiredo nasceu a 11 de maio de 1988, em Viseu, e viveu até 2011 na paróquia de Orgens. É membro da Juventude Mariana Vicentina e esteve em missão durante onze semanas em Moçambique.

 

Cresceu no seio de uma família católica e manteve-se sempre muito ligada às atividades da Igreja. Frequentou a catequese e, após receber o sacramento do Crisma, tornou-se catequista. “A ida para a universidade não foi um obstáculo, já que fazia questão de vir todos os fins-de-semana a casa para garantir que podia participar na catequese e nas outras atividades”, partilha. Em 2006 entrou na Universidade e partilha: “Ingressei no curso de Anatomia Patológica, Citológica e Tanatológica na Escola Superior de Tecnologia e Saúde do Instituto Politécnico do Porto (hoje Escola Superior de Saúde). Medicina tinha sido a minha primeira opção, mas, como não consegui entrar, o curso do ‘CSI’, como era conhecido na altura, acabou por chamar a minha atenção. Cedo me apercebi que, afinal, medicina não teria sido a melhor opção para mim e que este curso me daria também a oportunidade de tentar salvar e/ ou melhorar a vida de muitas pessoas. Investigação tornou-se o meu objetivo e no final do curso, depois de um processo de seleção elaborado, fui selecionada para receber uma bolsa Leonardo da Vinci. A bolsa tinha que ser aplicada no estrangeiro por isso, a 8 de Janeiro de 2011 parti para a, até então, maior aventura da minha vida e mudei-me para Londres, inicialmente apenas por cinco meses. Nesse tempo fiz estágio na secção de histologia da equipa Cancer Biomarkers no Institute of Cancer Research liderado pelo professor Johann de Bono, uma experiência que me fez crescer muito pessoalmente. A decisão de mudar de país não foi fácil, deixei a família e amigos para trás, mudei-me para um país em que não conhecia uma única pessoa e com uma língua diferente. Tive fé que tudo ia correr da forma que Deus queria que corresse e n’Ele confiei. Quase oito anos depois, ainda me encontro a trabalhar no mesmo laboratório com uma bagagem de conhecimentos muito maior do que quando cheguei. As pessoas desconhecidas agora são amigos e em parte família, a língua já não é obstáculo, a fé de que tudo vai continuar a correr bem ainda permanece e posso dizer que o meu trabalho salva (ou melhora) a condição das pessoas afetadas por esta doença que estudo, o cancro. O meu dia-a-dia é passado a tentar descodificar e a perceber melhor como a doença se desenvolve e consequentemente encontrar novas formas de a combater.”

 

“A investigação podia esperar”

A determinada altura do seu percurso sentiu que era chamada “noutra direção”. Desde pequena que conhecia a Juventude Mariana Vicentina (JMV) “porque há um grupo bastante dinâmico na minha paróquia, mas nunca me cheguei a juntar ao movimento”. “Em 2016, porém, o projeto Renascer pra Esperança chegou aos meus ouvidos. Primeiro, por ser conversa no meu seio familiar e por também conhecer a Alice, uma das voluntárias que iniciou o projeto e, mais tarde, porque havia sempre um vídeo ou uma fotografia, um apelo ou a partilha de um post no Facebook que me chamava sempre a atenção. Aquele sonho que eu tinha desde os meus 9 ou 10 anos, de poder fazer voluntariado em África mas, por motivos profissionais e por ainda não ter encontrado o projeto que o meu coração achava ser certo para mim, estava prestes a concretizar-se. Questionei se seria possível, perguntei-me vezes sem conta se queria pôr o meu emprego e carreira em risco, se a minha família iria apoiar, se seria eu capaz de fazer o trabalho que era necessário? O mundo da investigação é extremamente competitivo, mas Deus achou por bem dar-me um chefe que passou pelas mesmas dúvidas e experiências que eu iria passar em breve (no seu caso no Quénia) e que, no momento em que lhe falei em ir em missão, me apoiou imediatamente e consequentemente criou as condições para que eu pudesse partir em missão por onze semanas em Moçambique. A investigação podia esperar, outros problemas precisavam do meu apoio e eu precisava de o poder fazer”, partilha.

 

“A minha missão continua agora à distância”

Deu, então, o passo seguinte: tratou dos papéis necessários, contou à família e amigos (que a apoiaram totalmente), angariou algum dinheiro “para ser doado à missão” e diz que “nesse aspeto as pessoas em Londres foram extremamente generosas”. Depois de “meses de preparação e de um voo cancelado” no dia 29 de Março aterrou em Maputo onde se juntou “à Patrícia Coelho que já estava em missão desde o início do ano”. Sobre a sua missão, diz que ainda é difícil descrever em palavras tudo o que viveu “num país tão bonito, mas infelizmente tão cheio de desigualdades e num projeto de amor e entrega ao próximo como este”. “Já tinha visitado África antes, como turista, mas desta vez pude viver entre as pessoas, conhecê-las e aprender com elas e com a realidade em que elas vivem. Chegar ao centro Renascer pra Esperança, em Chinhacanine, e passar os meus dias com 70 crianças foi melhor do que alguma vez imaginei. Os meus medos e incertezas dissiparam-se logo no primeiro dia. O sonho agora era realidade e eu podia finalmente fazer a diferença na vida daquelas crianças. Os dias eram bastante preenchidos, havia sempre alguma coisa para fazer. O forno (que tinha sido construído pouco tempo antes de eu chegar) ganhou vida e, todas as semanas, fazíamos pão para consumo no centro, visitas ao centro de saúde porque as crianças apanhavam malária ou precisavam de testes médicos de rastreio. Para além de ter que gerir, comprar a comida e preparar as atividades no centro, colaborávamos também com o centro de dia das Irmãs Vicentinas de Manjangue que acolhe crianças com HIV e a Escola Rural e Familiar da Congregação da Missão onde dávamos aulas de formação moral e cívica. As coisas pequenas, como uma criança dizer uma palavra em português (a única língua oficial de Moçambique, mas que elas infelizmente não falavam muito), o lavar as mãos depois de ir a casa de banho, tornaram-se grandes vitórias para mim. A barragem linguística e cultural entre nós afinal não existia. O dia que mais temi eventualmente chegou, dizer adeus foi ainda mais difícil do que antecipei. Hoje, restam as chamadas de vídeo para matar saudades. A ausência das crianças deixa uma sensação de vazio dentro de mim, mas voltei tão mais preenchida como nunca julguei ser possível. Nunca, dar o que tenho de melhor em mim, me fez sentir tão feliz. Fica a esperança de que tenha feito aquelas crianças e as pessoas com que me cruzei tão felizes como me fizeram a mim. Quem sabe um dia não tenho a oportunidade de poder dar mais um pouco de mim… mas, por enquanto, a minha missão continua agora à distância só que, em vez de os carregar nos meus braços, carrego-os agora a todos no meu coração.”

Termina, dizendo: “A JMV irá para sempre ficar no meu coração e à qual irei sempre estar grata por esta oportunidade, OBRIGADA a todas as pessoas que tornaram a minha missão realidade e claro, à JMV!”

texto por Catarina António, FEC | Fundação Fé e Cooperação
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