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P. Duarte da Cunha
O desejo de paz

Asia Bibi, uma cristã paquistanesa, foi acusada de blasfémia em 2009 e condenada à morte por enforcamento. Depois de muitos recursos e de grande pressão internacional, o caso foi revisto pelo supremo tribunal do Paquistão e, no passado dia 31, foi declarada inocente, por falta de provas contra ela. É um caso que tem feito muita gente perceber como no nosso tempo ainda há perseguições por causa da fé. Especialmente contra cristãos!

Esta jovem mulher foi acusada por algumas colegas de trabalho – que parece terem contra ela algumas questões de tipo laboral – de ter dito coisas ofensivas contra Maomé e sem piedade pedem que seja condenada à morte. Ficamos contentes que o tribunal tenha retirado a pena injusta. Mas ficamos preocupados que, mesmo depois de o tribunal a considerar inocente, ela não possa ainda sair da prisão, porque se teme que seja linchada e morta pelas multidões enfurecidas que gritam para que ela seja morta. Como gritavam para que Jesus fosse crucificado! Em contraste, vemos esta mulher que não quer o mal dos outros e que só pede para que a deixem em paz, mas que prefere morrer a abandonar Jesus Cristo.

Podemos compreender, e até concordar que haja leis contra a blasfémia. É gravíssimo ofender Deus e insultar ou gozar com a fé de quem quer que seja. Mas não percebo nem aceito a raiva e a condenação à morte.

Durante o processo terá sido, por diversas vezes, dito a Asia Bibi que deveria tornar-se muçulmana para salvar a vida. Mas ela – como tantos cristãos perseguidos no Médio Oriente – deu um verdadeiro testemunho de fé fazendo ver que a fé em Jesus Cristo é uma vida verdadeira e que ninguém lhe pode tirar ou obrigar a abandonar. Voltamos a viver tempos de martírio, como aconteceu no tempo dos romanos ou no tempo do comunismo do século passado. E todos estes mártires testemunhos de uma fé profunda, fazem-nos perguntar como é que nós vivemos a nossa fé. No meio de tantas facilidades, estamos tão certos da fé como eles?

Se quisermos entrar um pouco mais no que se passa, percebemos que as tensões sobre a religião nestes países do Médio Oriente acontecem porque são sociedades onde a religião é algo de constitutivo da vida social e não é uma decoração. Os que acusam e a que é acusada consideram a fé como algo de tal maneira importante e valioso que nem a vida pode pagar. Mas não vemos que a solução seja a violência.

Não pensemos, porém, que a nossa sociedade que não condena à morte por blasfémia tem razão em tudo! A laicização da sociedade e das leis vigentes na Europa e no Mundo ocidental considera a fé como uma questão irrelevante, e, por isso, até pensa que se pode ofender a Deus e a fé dos outros. Nisto não podemos, de modo algum, estar de acordo. Aliás, os cristãos na Europa sabem bem que há tantas situações onde Jesus Cristo, Nossa Senhora, a Eucaristia, os lugares santos e os cemitérios são objeto de vandalismo, de troça e de ofensa. Basta ver o que tem saído no Observatório da Descriminação e Intolerância contra os Cristãos na Europa (www.intoleranceagainstchristians.eu) para vermos que crescem os ataques e que é urgente pará-los.

Contudo, os cristãos não defendem que quem faz estas coisas deva ser condenado à morte. Queremos, como os outros, ser radicais na nossa fé, mas não julgamos que as coisas se devam tratar de modo violento. Os mais santos dos cristãos, aqueles para quem a fé está profundamente enraizada no coração, não defendem a condenação à morte de ninguém! Isto não quer dizer que para nós seja menos grave ofender a Deus, ou que sejamos menos devotos, mas, olhando para Jesus Cristo na cruz, percebemos que o nosso método é mesmo diferente. Devemos fazer todo o possível para que os ataques à fé parem. Achamos que as leis devem proteger o Direito à liberdade religiosa de tal modo que cada um sinta a sua fé reconhecida e não ofendida. Contudo, deve ser o amor e não o ódio contra o outro a vencer o coração de quem diz mal da nossa fé. Nunca nos esquecemos do que Jesus diz do alto da cruz: “Pai perdoa-lhes”.

Somos chamados hoje a defender a fé com coragem. Antes de mais procurando vivê-la melhor. Mas também lutando, com a oração, com as leis e com pressão internacional, contra quem goza com a fé, ou despreza e persegue os cristãos. Se não defendermos a nossa fé parecerá que ela é irrelevante. O caso da Asia Bibi preocupa-nos, mas a solução não é a guerra, tal como também não pode ser a laicização. A proposta cristã é Jesus Cristo, que amamos e anunciamos sem medo.