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Padre Ángel Pizarro correu Maratona de Lisboa
A Maratona, uma alegoria sobre a vida
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No passado dia 14 de outubro, completei a Maratona de Lisboa, num tempo de 5h e 12min. A experiência deixou-me muito contente e recebi muitas mensagens de parabéns pelo objetivo alcançado. No entanto, um comentário do meu pai fez-me pensar sobre este feito.

Disse-me ele: “Filho, espero que esta experiência te tenha servido para alguma coisa…” Este comentário fez-me refletir. E, num momento de inspiração, comecei a fazer uma comparação entre a vida do homem sobre a terra e uma carreira de longa distância, tendo por base a experiência da corrida. Assim, poderia dizer que os primeiros quilómetros correspondem ao início da nossa vida, nos quais temos a força e o vigor da juventude, com projetos e ilusões que desejamos concretizar... Eu avançava muito bem, cómodo, fresco, sentia-me contente, forte, sentia que estava preparado, que tinha treinado bem, e pensava para mim: “Se aguentar este ritmo até ao fim, em 4 horas e meia chegarei à meta”.

Chegaram os 20 km, e o cansaço começou a acumular-se aos poucos. Pensava nesta fase do percurso como o atingir a maturidade. Esgota-se o ímpeto da juventude, mas ainda te encontras bem. Corresponde, se quisermos, à etapa da vida em que completamos a nossa formação, assumimos um estado de vida definido: casamos (ou no meu caso sou ordenado sacerdote), exercemos a nossa profissão, começamos a constituir família... A nossa vida atinge outro nível, os projetos e ilusões da juventude aos poucos foram-se desvanecendo..., e entramos na realidade, em que temos que assumir com responsabilidade o peso da vida, implicarmo-nos ativamente na vida social. Muitas das coisas que fazias na juventude já não são possíveis porque agora tens de dar um pouco a vida pelos teus e não gozas de tanta liberdade.

Chegaram os 27 km e, de repente, encontrei-me com um muro: o momento em que num instante as forças te falham, parece que já não podes seguir, e tens a forte tentação de abandonar porque continuar implica sofrer. Eu associo este momento ao tempo da reforma, quando termina a vida laboral, e as forças já não são as mesmas. Não podemos fazer o que fazíamos antes com tanta diligência e com a eficácia de outrora. É o tempo em que já criaste os teus filhos, cumpriste com as tuas obrigações, e começa uma fase da vida um tanto diferente. Aparece alguma doença, uma hérnia que tens que operar, algum problema de próstata, um cancro..., que são uma ajuda para nos fazer tomar consciência de que a corrida está a avançar, e no deterioro do nosso corpo vemos alguns avisos de que a nossa vida não é para este mundo. Mas há algo que te faz querer continuar, o facto de pensar que a meta está agora mais próxima do que no princípio. É então que te aparece o teu Anjo da guarda que te ajuda, aparecem pessoas que te animam, que te sustentam no meio do sofrimento: os teus próprios filhos, as pessoas que gostam de ti, que te encorajam para continuar, porque a meta está próxima, porque a morte se aproxima... e é importante saber morrer, porque há um destino eterno à nossa espera e o que fazemos neste mundo tem consequências no final da vida. E Deus convida-te a perseverar, a continuar a avançar, porque o fim está próximo, esse fim que é um Novo começo. Neste momento da corrida foi quando peguei no terço, pedindo à Virgem Maria que me ajudasse a seguir e rezando ainda por tanta gente que sofre e que tem problemas muito maiores do que acabar uma Maratona... e enquanto rezava, apesar do sofrimento, esquecendo-me de mim e pensando nos outros, a corrida ia-se fazendo um pouco mais leve. Quando terminei o primeiro mistério gozoso (o anuncio do Anjo a Nossa Senhora), apareceu-me um Anjo da Guarda. “O quê!?,” estarás pensando... Vou-me explicar. Veio ter comigo um amigo que, sabendo que eu passaria por ali, andava à minha procura e, quando me encontrou, colocou-se ao meu lado e disse-me: “Coragem, vim ter contigo para te ajudar a terminar a corrida.” Não tinha sido nada combinado, e por isso fiquei realmente emocionado com este gesto. Deus confiou-nos um Anjo da Guarda, para que não desistamos de lutar, para que não percamos a fé, para nos ajudar a ir para o Céu. Para isso serve o nosso Anjo da Guarda. E esse “anjo da guarda”, que neste caso foi o António, foi-me acompanhando, foi-me ajudando a apanhar a água e a fruta nos abastecimentos – que poderíamos também comparar com os sacramentos, o alimento para o Caminho que Deus deixou na sua Igreja, (sobretudo a Eucaristia) para que vivamos neste mundo sem perder a esperança e as forças para chegar à meta: ao Paraíso –, mas sobretudo manteve-se ao meu lado, puxando por mim todo o tempo, colocando-se completamente ao meu serviço.

E, finalmente, a chegada à meta, o quilómetro 42. É impressionante quando, ao chegar, encontras tanta gente que te anima, pessoas amigas que também estão à tua espera e que dão o último empurrão para chegares ao fim. Estas são as pessoas que já morreram e que estão no céu de braços abertos à nossa espera e empurram-te para que possas passar essa porta: a Porta da Glória! Entrar na Meta foi das sensações mais emocionantes que já tive na minha vida, sobretudo depois de ter sofrido tanto. Disse S. Paulo que “nem olho viu, nem ouvido ouviu, nem criatura alguma pode imaginar o que Deus tem preparado para aqueles que o Amam” (cf.1Cor 2,9), que esperam na sua Misericórdia: a Glória Eterna! Esta sensação e esta experiência foi uma “glória do mundo”, especial em certa medida, por ter conseguido completar um desafio de tanta envergadura depois de tanto sofrimento. Dava-me vontade de chorar de alegria. E pensava para mim: “Se esta alegria do mundo me deu tanta satisfação, imagina o que poderá ser entrar no Céu. Tem de ser algo completamente extraordinário, indescritível e inimaginável: a Glória Eterna!”. Quando parece que já não há esperança, que está tudo terminado, quando quase que te arrastas por esta vida, depois da doença, da velhice, quando já não podes mais, quando te sentes completamente inútil... de repente abre-se uma Porta, e entras na Glória, que Deus preparou para os seus filhos, para que o homem viva a Felicidade Plena.  

Portanto, a conclusão a que chego à pergunta do meu pai é esta: “Se me serviu para alguma coisa? Sim pai, serviu-me para reparar que à minha volta tenho muita gente que gosta de mim e um anjo da guarda que vela pela minha alma. E que na corrida da vida, a verdadeira glória a que devo aspirar é à Glória Eterna”.

Obrigado pai por me ajudar a pôr as coisas no lugar.


texto pelo Pe. Ángel Cárceles Pizarro, diretor espiritual do Seminário ‘Redemptoris Mater’ e vigário paroquial da Paróquia de São Pedro de Caneças

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