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Relatório da Fundação AIS sobre a Liberdade Religiosa no Mundo
O mundo em lágrimas
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Mais violência. Mais perseguição. Mais hostilidade. Menos liberdade. A religião parece um campo de batalha sem fim. Os Cristãos continuam a ser a comunidade mais perseguida. A Fundação AIS acaba de publicar mais um Relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo e é assustador o que se lê. E, por muito que custe, é mesmo verdade…


São centenas de páginas, milhares de casos estudados e uma conclusão principal: há uma guerra não declarada no mundo. É uma guerra ditada pelo extremismo religioso, pelo fanatismo e pela ignorância. Mas é uma guerra concreta que faz vítimas todos os dias. E a maioria dos que morrem, dos que são violentados e perseguidos, são cristãos. São pessoas como nós. Mina Habib tem apenas 11 anos. Em Maio do ano passado ela viajava com os pais num autocarro que se dirigia para o mosteiro de São Samuel, em pleno deserto, na província egípcia de Minya, quando um grupo de homens armados fez parar o veículo. Eram militantes islamitas. Estavam à caça de cristãos. As suas palavras estão escritas, com letra de sangue, no relatório da Fundação AIS. “Eles pediram a identificação ao meu pai e depois disseram-lhe para recitar a profissão de fé muçulmana. Ele recusou-se, dizendo que era cristão. Eles mataram-no a tiro e fizeram o mesmo com todos os outros que estavam connosco…” Eles eram soldados jihadistas do auto-proclamado Estado Islâmico.

 

Nigéria e Espanha

Abril de 2018. Igreja de Santo Inácio, em Ukpor-Mbalon, na Nigéria. A Missa está a decorrer quando, de súbito, a igreja é invadida por um grupo de pastores fulani, nómadas, mas que são simultaneamente militantes islamitas. O que se segue é indescritível. Morrem 19 pessoas. Dois são sacerdotes. Diz o Padre Alexander Yeyock, pároco na Igreja de São João, em Asso, também na Nigéria: “O ataque tem duas dimensões. A primeira é islamizar a comunidade cristã. A segunda é que os pastores fulani querem confiscar a nossa terra arável para a transformar em pastagens…”

Espanha. Agosto de 2017. As Ramblas de Barcelona estavam, como sempre, cheias de pessoas, de turistas. Younes Abouyaaqoub atirou literalmente uma carrinha, a alta velocidade, contra a multidão. Quinze pessoas morrem no ataque. Mais de uma centena ficaram feridas. O marroquino, um militante islamita, conduziu a carrinha aos ziguezagues para atingir propositadamente o maior número de pessoas.  Entre os mortos deste ataque motivado pelo ódio religioso, estão duas portuguesas. Avó e neta.

 

O país mais perigoso

Setembro de 2016. Muitas pessoas estão desconsoladas, em lágrimas, na Igreja de Nossa Senhora da Assunção, em Paso Blanco, no estado de Veracruz, no México. Está a decorrer o funeral do Padre Jose Alfredo Suarez de la Cruz. Dias antes, Suarez foi encontrado na berma de uma estrada, com as mãos atadas atrás das costas e com o corpo crivado de balas. Nos últimos cinco anos, milhares de mexicanos, entre eles 23 sacerdotes, foram mortos por gangues, organizações criminosas. Os cartéis da droga mantêm o país numa espécie de guerra civil não-declarada, onde é necessário dar sinais de que têm mais poder do que as autoridades. Como diz o Padre Sergio Omar, numa declaração transcrita no Relatório da Fundação AIS, “matar um padre… simboliza uma demonstração de poder por parte das organizações criminosas”. O resultado desta violência, que se traduz todos os dias em raptos, tiroteios, espancamentos, esfaqueamentos e até ataques à bomba, coloca o México no país mais perigoso da América Latina para os sacerdotes.

 

Trabalho minucioso

O Relatório da Fundação AIS – referente ao período correspondente de Junho de 2016 a Junho de 2018 e divulgado esta semana em simultâneo nas principais capitais da Europa, Estados Unidos, Canadá e Austrália –, traça um retrato exaustivo do que se passa no mundo relacionado com os conflitos que têm origem na questão da Liberdade Religiosa.  Este relatório é muito importante, pois a liberdade religiosa – ou a falta dela – diz bastante sobre o estado actual do mundo e reflecte os avanços e recuos no desenvolvimento civilizacional da humanidade. O relatório, publicado de dois em dois anos, é um trabalho meticuloso sobre esta matéria, resultado do esforço de uma extensa equipa que monitoriza a informação publicada nos Media, documentos constitucionais e legislação dos diversos países, assim como dados obtidos directamente através da Igreja e de outras instituições presentes no terreno nos diversos continentes. Ao todo, foram analisados 197 países.

 

Violência sem fim

Conclusões? O Relatório da Fundação AIS é um alerta para a situação em que se encontram milhares de pessoas em todo o mundo vítimas da intolerância, fanatismo religioso e terrorismo, mas também da violência exercida por grupos radicais, actores estatais e regimes autoritários. De facto, o documento conclui que a situação das minorias religiosas se deteriorou em quase metade dos países onde há violações significativas das liberdades, e constata-se, em comparação com o relatório anterior – referente ao período de Junho de 2014 a Junho de 2016 –, que há mais países a sofrerem abusos sistemáticos quanto à prática de culto. Isto traduz-se, na prática, na degradação das condições de vida, por vezes até ao intolerável, para as populações que pertencem a minorias religiosas. Durante os dois anos em análise no relatório da AIS foi possível detectar também um aumento de casos de abuso sexual contra mulheres, por grupos e militantes extremistas em África e no Médio Oriente, assim como em parte do subcontinente indiano. Da mesma forma, há sinais do aumento de islamofobia no Ocidente e de casos de anti-semitismo.

 

Rumo da humanidade

A liberdade religiosa é a mais íntima das liberdades. Está na consciência das pessoas. Quando ela é violada, sobrará o quê? De facto, a liberdade religiosa é um dos principais barómetros – senão mesmo o principal – que nos permite compreender conflitos, ataques, ideologias, guerras que decorrem nos nossos dias. A liberdade religiosa será, seguramente, um dos principais barómetros para compreendermos o rumo da humanidade. O artigo 18º da Declaração Universal dos Direitos do Homem, redigido há 70 anos, é taxativo: Todas as pessoas têm direito “à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos”. O caso recente de Asia Bibi, a mulher cristã, mãe de cinco filhos, condenada à morte por blasfémia por ter bebido um copo de água de um poço, e recentemente ilibada de todas as acusações por um acórdão do Supremo Tribunal de Justiça do Paquistão – mas, mesmo assim, vítima da intolerância de sectores radicais deste país que exigem o seu enforcamento –, ilustra bem como o fanatismo, o nacionalismo agressivo e o hiper-extremismo podem condicionar a vida das minorias religiosas, tornando-as reféns de uma violência inaceitável.

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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