Missão |
João José Pereira da Silva Antunes, do Grupo Missionário Ondjoyetu
“Deixamos lá o nosso coração”
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João José Pereira da Silva Antunes nasceu a 1 de outubro de 1946. É natural de Mourã, no Concelho de Leiria e Diocese de Leiria-Fátima. É casado e tem quatro filhos. Em 2016, integrou o Grupo Missionário Ondjoyetu e, em 2017, partiu em missão por seis meses para Angola.

 

O João tem o curso Geral de Comércio, 9º ano, “mais tarde equiparado a curso profissional e ainda a Secção Preparatória para o Instituto Comercial”. Depois de terminar o ensino primário, tentou entrar no Seminário da Sociedade Missionária Portuguesa. “Em casa recebia-se uma revista ou jornal desta Ordem Religiosa que veio a incutir-me o gosto pelas missões. Porque sofria de asma, a minha admissão não seria aceite. Prossegui então os estudos na Escola Industrial e Comercial de Leiria.” Ao terminar os seus estudos, começou a trabalhar no Hospital D. Manuel de Aguiar, da Santa Casa da Misericórdia de Leiria. “Iniciei como Escriturário de 2.ª em 1964. Fiz o meu percurso profissional com promoções sucessivas até que em janeiro de 1974 alcancei o lugar de Responsável Financeiro. Com a nacionalização dos Hospitais em dezembro de 1974 passei a ser considerado funcionário público. Podia ter continuado como beneficiário da Previdência, mas fiz esta opção. Em Junho de 2001, porque a lei o permitia, pedi a aposentação tendo quase 37 anos de serviço”, partilha. Casou com 25 anos de idade, com a sua primeira e única namorada e deste casamento nasceram 4 filhos: o João Miguel, a Ana Catarina, a Maria Inês e a Paula Sofia. Em 1975 passou a fazer parte da Cáritas Diocesana de Leiria em várias funções onde se manteve até ao final de 2005.

 

O livro “Estórias de um Missionário”

“Em 2006 parti para uma missão como leigo voluntário para Moçambique durante um ano, integrado na ALVD (Associação de Leigos Voluntários Dehonianos). Nesta missão dediquei-me a dar formação de Contabilidade e de informática, formação que permitiu que alguns alunos conseguissem obter o seu posto de trabalho numa zona onde o desemprego é à volta de 80%. Em 2010, pela mesma ALVD, fui de novo fazer uma missão também em Moçambique, e com a mesma temática”, partilha. Tirou o Curso de Cristandade e foi convidado para Ministro Extraordinário da Comunhão. Durante alguns anos fez parte da Comissão da Igreja, “sendo o responsável pela elaboração e apresentação de contas”. “Em 2015, tendo tido conhecimento que os cofres da Conferência de São Vicente de Paulo, da Paróquia dos Marrazes, estavam vazios pensei que uma forma de os ajudar seria a publicação de um livro. Parti do pensamento para a prática. Dei conhecimento desta intenção à Junta de Freguesia que prontamente decidiu apoiar. Como a Junta de Freguesia, pelo que ali me disseram, não podia apoiar diretamente em dinheiro a Conferência, deliberou pagar integralmente as duas edições do livro que escrevi sob o nome ‘ESTÓRIAS DE UM MISSIONÁRIO’ e que prontamente esgotaram. Toda a receita foi entregue à Conferência já que a Junta de Freguesia suportou as despesas do livro e eu suportei as das deslocações para apresentação do mesmo”, partilha.

 

A Missão em Angola

Em 2016 integrou o Grupo Missionário Ondjoyetu. “De imediato comecei a fazer a contabilidade deste grupo. Entretanto fiz alguma formação na FEC. Em Outubro de 2017 parti para uma missão de seis meses na Diocese do Sumbe, na zona administrativa do Gungo, na missão da Donga onde as pessoas estão privadas de tudo, desde água, eletricidade, vias de acesso, rede telefónica, televisão e internet mas onde o que conta mais são as pessoas. Aqui se pode viver, conviver, divertir, educar, formar e ensinar pois há sempre tempo para isso. Aqui onde não há médico, nalgumas localidades ainda há um enfermeiro (?), onde não há medicamentos, a missão vai procurando pequenos milagres na cura de algumas enfermidades num País onde a esperança média de vida não chega aos 60 anos. A saúde e a formação profissional são dois pilares fundamentais da missão. Pedreiros, serralheiros, construtores de BTC (Blocos de Terra Comprimida) para que as casas em vez de 3 ou 4 anos possam durar 40 ou 50 são outras tantas habilitações que a Missão presta à população. O Ensino escolar, que não é da nossa responsabilidade, também nos preocupa pelo que ensinamos e ajudamos nos trabalhos de casa. Na missão, onde vivemos as condições descritas, estamos mais ou menos 3 semanas, descendo à cidade para que nos possamos abastecer e comunicar com as nossas famílias e onde nos preparamos nestes 3, 4 ou 5 dias para uma nova etapa de missão. Na missão, também fruto da minha formação profissional, organizei a parte administrativa e contabilística que continuo a apoiar mesmo depois de ter regressado em abril do corrente ano. Fazemos a nossa lavra neste período, o período das chuvas, semeando milho, feijão e ginjuba (amendoim). Fazemos a nossa horta procurando criar algumas coisas que possamos também comer na missão, como alface, couve, tomate, alho francês, espinafre, batata, batata doce, abóbora, etc., pois a nossa alimentação é á base do que compramos na cidade e nas coisas que a terra nos dá. Não havendo luz, senão o indispensável para a iluminação com um painel solar, o carregamento de um computador ou de um telemóvel, não há a possibilidade de conservar nada em frigorífico quanto mais em arca congeladora. De vez em quando, acabada a reserva na cidade, aqui fazemos a matança do porco pois nos é permitido conservar a carne em arca congeladora. A minha partida para a missão tinha como lema, fazer o que for preciso e onde for preciso e o que eu não pudesse fazer Deus podia. E assim aconteceu. Para grandes males, grandes remédios. Pois num encerramento de galinhas, que também ali possuíamos, estando a correr para as cercar, com o chão enlameado e escorregadio, dei uma queda aparatosa que me deixou com uma rotura no braço, rotura que tratei depois de regressar. Esta situação, dada a minha manifesta incapacidade, pude dedicar-me mais à organização de que já falei. Sempre me pautei mais por escutar, aprender e colaborar nunca me antecipando ao que os locais tão bem sabem fazer. Claro que lhes transmitia também o que sabia e procurava incutir as melhores práticas naquilo que se fazia. Outra vertente da minha missão eram as reuniões com as pessoas de cada centro onde nos deslocávamos, partilhando a minha experiência e tentando que em muitos aspetos as pessoas pudessem melhor fazer a sua caminhada na fé. Num determinado mês o Superior da Missão veio a Portugal. Fiquei a substituí-lo nas celebrações da palavra e distribuição da comunhão que ficou consagrada antes da ausência do Padre David Nogueira. A vivência da fé é enorme. Pela Páscoa estiveram nas celebrações bem perto de mil pessoas tendo sido distribuídas cerce de 400 comunhões, imensos batismos e casamentos. Nestas missões aprendemos a ser mais humildes, mais compreensivos, mais solidários e regressamos de coração cheio, ou talvez não, pois deixamos lá o nosso coração Não coloco fora de parte um novo regresso à Missão, assim Deus me vá dando vontade, cabeça a funcionar e alguma saúde”, partilha.

texto por Catarina António, FEC | Fundação Fé e Cooperação
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