Entrevistas |
Padre Fernando Sampaio, diretor da Pastoral da Saúde de Lisboa
“Esquecer os doentes é esquecer a Igreja”
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O novo diretor da Pastoral da Saúde do Patriarcado de Lisboa aponta como objetivo “pôr os doentes no centro” da dinâmica das comunidades paroquiais. Em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, o padre Fernando Sampaio defende uma consciencialização, entre os cristãos, do “direito” da assistência religiosa nos hospitais e do “dever” de a pedir.

 

Recentemente, foi nomeado diretor do Departamento da Pastoral da Saúde. Quais os desafios que se colocam?

Os desafios são grandes. Em primeiro lugar, é necessário organizar o departamento, ligá-lo aos diferentes sectores que, na Igreja, estão ligados à área da saúde. Também é necessário investir muito na tentativa de que as paróquias organizem a Pastoral da Saúde, tendo em conta os seus doentes – que, naturalmente, têm –, mas no sentido de criar um pensamento comum. Ao mesmo tempo, o departamento tem a função de promover a saúde integral da pessoa, apresentando, por exemplo, alguns temas de reflexão para as comunidades paroquiais locais, sobretudo ao nível da saúde mental, como por exemplo, ajudar as pessoas a refletirem sobre o luto, sobre o sentido da vida e do sofrimento e no modo como podem melhorar a sua prática no acompanhamento dos doentes.

É necessário um maior envolvimento da comunidade em tudo o que é Pastoral da Saúde. Não podemos esquecer os doentes. Esquecer os doentes é esquecer a Igreja. Um quinto dos evangelhos tem a ver com doentes. Temos que pôr os doentes no centro. Hoje, as nossas sociedades são muito insensíveis à fragilidade e à vulnerabilidade. Acontece uma catástrofe e as pessoas são generosíssimas. Então, temos que ligar essa generosidade, que está ligada à vivência da compaixão e da misericórdia na caridade, a este sector. Nesse sentido, e apesar de já existir muito trabalho feito, há um trabalho enorme a fazer.

 

Qual o papel dos leigos na assistência religiosa?

O papel dos leigos é o papel de dar rosto à caridade. O Departamento da Pastoral da Saúde, em colaboração com os párocos, tem a função de ajudar os leigos nesse trabalho. Naturalmente, tem que existir uma ligação aos médicos, enfermeiros, no fundo, a todos os profissionais – não apenas católicos – e, ao nível da formação, a todas as zonas pastorais da diocese. Espera-nos, por isso, muito trabalho.

 

Além do Departamento da Pastoral da Saúde, é também capelão do Hospital de Santa Maria desde 1995. Atualmente, quantos voluntários tem a capelania deste hospital?

Temos cerca de uma dúzia de pessoas, mas gostava de ter mais. Prestam uma importante ajuda, sobretudo, ao Domingo. Era importante ter mais gente que nos ajudasse, em particular, durante a semana.

Aproveito para esclarecer uma coisa. Há dois tipos de voluntariado: o voluntariado social, ligado à Liga dos Amigos do Hospital – um voluntariado aberto a toda a gente e caracterizado por ser areligioso e apolítico; e o voluntariado na capelania – um voluntariado pastoral, que está ligado a uma associação, chamada ‘Mateus 25’, para estar integrado e ser uma ajuda para os capelães. Os voluntários, neste caso, estão devidamente identificados como sendo ‘voluntariado pastoral católico’.

 

No início deste mês, enquanto presidente da Coordenação Nacional das Capelanias Hospitalares (CNCH), organizou, em Fátima, o Seminário ‘Do direito à assistência espiritual à responsabilidade da comunidade’. Qual o balanço desta iniciativa?

O balanço é positivo. Estiveram presentes mais de 100 pessoas. Era bom que estivessem mais, também mais capelães, mas ajudou-nos a refletir sobre esta realidade da assistência espiritual aos doentes e, com a presença de pessoas de diferentes áreas, que nos foram falar, sensibilizou-nos para a importância da assistência espiritual religiosa ser realizada não de uma forma qualquer, ou com base numa boa-vontade. É necessário que ela seja realizada com boas práticas. Os doentes estão fragilizados e não importa que eu vá ao encontro do doente e lhe proponha apenas ‘coisas’ de natureza espiritual e religiosa. É muito mais importante que eu vá ao encontro do doente e das suas necessidades porque o doente tem necessidades específicas, de natureza espiritual, tem anseios, tem dúvidas, tem conflitos. É necessário que eu vá ao encontro dessas necessidades para que a espiritualidade, que pode ser uma causa de angústia, se possa transformar numa âncora e crie um fator de bem estar, num dinamismo interior que ajude a fazer face ao sofrimento. Para acontecer isso, não basta ir lá e oferecer ‘coisas’: confissão, sacramentos... Temos que ter esta preparação, para termos técnicas para ajudar os doentes.

 

Como é que essas boas práticas se podem aplicar, no concreto?

Em primeiro lugar, temos que vencer alguns problemas de base. Nesse sentido, temos um trabalho imenso a fazer a nível diocesano, que é o de tornar os doentes conscientes da importância da espiritualidade, da importância da vivência da fé na doença. Em segundo lugar, ajudar as pessoas doentes e todos os cristãos a ultrapassarem preconceitos relacionados com o sofrimento ou com a doença. Muitas vezes, pensam que é Deus quem dá as doenças e, por isso, ‘aqui-d’el-rei’ quando o padre vem porque isso é sinal que alguém vai morrer... Nós continuamos com estes preconceitos que impedem os doentes de beneficiar deste dom maravilhoso que é o de terem comunhão com Deus, sentir essa força interior que vem da fé, para enfrentar os seus próprios sofrimentos. Há que tornar os cristãos conscientes dos seus direitos ao nível espiritual. A assistência espiritual religiosa é um direito de cada pessoa, é um direito interior, inalienável, faz parte dos direitos humanos. Nesse sentido, é necessário que as pessoas, consciencializando-se do direito à assistência espiritual religiosa, promovam este mesmo direito, pedindo-o. Os cristãos, se têm o direito, também têm o dever. O doente deve chamar e não ficar à espera que passe por lá o padre. Esta é a forma mais concreta de manifestar a própria fé, porque se há alguma coisa que tem de ser muito livre é a espiritualidade. É a nossa própria interioridade que está em causa.

 

Estamos em tempo de Advento, de preparação para o Natal. Para muitos doentes, o hospital será o local da consoada. Existe alguma iniciativa específica para assinalar esta festa cristã?

Cada hospital organiza-se como pode. No Hospital de Santa Maria, não podemos visitar todos os doentes, mas fazemos a visita quotidiana. Nessa altura, como em todos os Domingos, temos voluntários para levarem a comunhão ou trazerem doentes para a Missa. Vamos também distribuir, aos doentes e profissionais, um postal de Natal, com desejos de Boas Festas e uma mensagem do Senhor Patriarca. O hospital respira muito este tempo. É curioso porque este é um tempo singular. Neste hospital existem muitos presépios, em quase todos os serviços. São os próprios profissionais que os fazem. Chamam a atenção para este tempo.

 

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O padre Fernando Sampaio tem 65 anos e é o diretor da Pastoral da Saúde do Patriarcado de Lisboa. Atualmente é capelão do Hospital de Santa Maria e do Hospital Pulido Valente, em Lisboa.

 

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“Muitas vezes, a doença também se torna numa oportunidade de vida nova”

 

A sua primeira experiência como capelão foi no IPO, em 1986, no ano seguinte à sua ordenação. De tudo o que já viveu, quão determinante pode ser a assistência religiosa no processo de tratamento ou cura do doente?

A minha experiência dá-me conta do quão importante é a assistência religiosa. Recordo-me de uma doente que, muitas vezes, manifestava dor, uma dor que não era de natureza física. A angústia espiritual causa muito sofrimento. Porquê? Porque está ligada ao sentido da vida, está ligada ao sentido da comunhão com Deus. Quando a angústia espiritual se manifesta, cria de tal maneira angústia ao nível existencial que, por vezes, se manifesta ao nível do próprio corpo, em sintomas de dor. De tal maneira que essa doente manifestava muito esse sofrimento gritando, chorando, e as enfermeiras não sabiam o que se passava com ela porque já tinham sido dados os analgésicos e ela, mesmo assim, não se calava. O que se passava era exatamente essa dor espiritual. Às vezes, passava para lhe dar a comunhão. Ela conversava sobre o seu sofrimento e ficava a dormir. Muitos doentes, quando recebem a comunhão, dizem: “É isto que me faz suportar a dor ou o sofrimento, é isto que me ajuda a continuar a viver e dá-me esperança”.

O trabalho espiritual que nós fazemos é desde o acompanhamento, desde uma simples visita, à bênção, à oração, aos sacramentos... Muitas vezes, a doença também se torna numa oportunidade de vida nova. O meu percurso destes anos, dá-me conta desta riqueza e de uma maior sensibilidade à humanidade e da experiência de quão respeito devemos ter por uma pessoa que está deitada numa cama. É aí que experimentamos quão dignos e singulares nós somos, quanto pessoas humanas. Isso interpela-me fortemente.

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