Doutrina social |
A questão israelo-palestiniana
Não há Natal quando se promove a guerra
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Por vezes, celebrar o Natal é viver um paradoxo, uma assincronia entre a narrativa do sonho e a crueza da realidade.

 

Mais que turismo, uma vivência

Quando visitei a Terra chamada Santa, logo no caminho do aeroporto para o hotel, a guia, israelense e judia, falou-nos do paradoxo que se vive nesses territórios. No dia seguinte, na curta distância entre Jerusalém e Belém, deparámo-nos com o muro de betão. Parou o autocarro, ela saiu e foi substituída por um guia palestiniano e cristão. Pouco depois, já de regresso, repetiu-se a cena: saiu ele e entrou ela.

Foi uma experiência marcante. Associo ao lugar a alegria da boa nova anunciada aos pastores há dois mil anos; mas não esqueço aqueles versos que, nesses dias, me foram enviados por alguém que vive no meio dos palestinianos e que traduzo:

     Em Belém um grito rompeu a noite.

     É um rapazinho inocente, sem poder, que grita:

     “por que me quer matar, se eu não fiz nada?”

     É o grito de cem filhos, de milhares de filhos

     em Hebron e Ramallah, em Nablus e em Gaza,

     o grito que rompeu a noite,

     a longa noite do povo palestiniano”.

Penso no Pe. Rafiq Khoury, palestiniano, que, num texto intitulado “Implicações teológicas da situação actual na Terra Santa” desabafa escrevendo: “No momento atual, encontramo-nos todos numa situação de absurdo que não pode continuar e não pode deixar ninguém indiferente”. E aponta a necessidade de uma análise política, mas também de uma análise teológica, sem utilizar justificações teológicas para defender opções políticas.

 

Religião e guerras

Não esqueço o que um amigo muçulmano me disse: “Sr. Padre, enquanto a questão palestiniana não for resolvida, não haverá paz no mundo.” Foi sincero como a amizade, o respeito e a crença comum radicada na fé abraâmica que nos une, apontando-nos para Alguém que está infinitamente para além das nossas palavras, das nossas definições e que, na diversidade das experiências de fé, aponta na mesma direção: Ele existe e gosta de nós; consequentemente temos que fazer o bem uns aos outros. Fechar-se em si mesmo é empurrar a religião para um tribalismo primitivo. Daí a desarmonia, qual cancro que, se não for tratado, provocará os sinais de morte que vamos contemplando.

Nos últimos dias vimos a violência, o medo e a desconfiança no Mercado de Natal de Estrasburgo. Na mesma altura, noutro continente, Jakelin, a menina da Guatemala de 7 anos que morreu de desidratação dois dias após ter atravessado a fronteira dos EUA. Sorte idêntica à do menino Aylan Kurdi afogado em 2015, ou à do menino Omran ferido em Alepo em 2016.

O mundo está a colher os frutos da semente que lançou à terra: na Terra Santa, mas também um pouco por todo o mundo. Com a Espanha como pano de fundo escreveu Clara Ferreira Alves no Público em Dezembro de 2007 o artigo “Strawberry fields forever”  sobre o recrutamento e exploração das mulheres magrebinas para a colheita dos morangos: “A selecção é impiedosa… São todas jovens, com menos de 40 anos e com filhos pequenos… É uma actividade pesada, muitas horas de labuta para um salário diário de 35 euros… Alguns dos filhos destas mulheres lembrar-se-ão. Alguns dos filhos destas mulheres serão recrutados pelo Islão”.

O psiquiatra palestiniano Eyad Sarraja explicava na revista “Time”de Abril 2002 as razões que levavam homens e mulheres a fazerem-se explodir, demonstrando que, atrás de cada “martírio”, existe uma história pessoal de tragédia e trauma; e chamava a atenção para algo terrível: “Hoje a luta é saber como não se tornar um bombista”.

 

Não é simples nem fácil, mas é possível

Querer simplificar o que é complexo só torna a solução mais complicada. Mas também não é uma fatalidade abdicar do bom senso e lançar-se no precipício. O Papa Francisco tem por palavras e gestos apelado ao diálogo para a paz; também os Bispos da Coordenação da Terra Santa realçam a urgência de contrariar o atual clima de conflito que está a privar os jovens do seu futuro. E lembram que jovens de ambos os lados partilham as mesmas aspirações de paz e de coexistência. E também adultos como o escritor israelita Uri Avnery.  Esses acreditam que a paz se constrói a partir do querer bem aos outros como a nós mesmos. Esse é o fermento que poderá ir lentamente transformando monstros que têm cabeça de ouro (dólares, euros e petróleo), mas pés de barro, como no sonho de Daniel.

texto por P. Valentim Gonçalves, CJP-CIRP
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