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“É um escândalo rezar a Deus, mas odiar o próximo”
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O Papa Francisco pediu a quem vai à igreja para dar “verdadeiro testemunho”. Na semana em que propôs uma Igreja de “ternura”, o Papa falou de problemas familiares, criticou, nas celebrações de Natal, o consumismo e, à Cúria Romana, lamentou os abusos cometidos por membros da Igreja.

 

1. O Papa Francisco considerou um “escândalo” rezar a Deus, mas odiar o próximo. “Quantas vezes nós vemos o escândalo das pessoas que vão à igreja, estão lá todo o dia, ou vão todos os dias, e depois vivem odiando os outros e falando mal das pessoas. Isto é um escândalo, é melhor não ir à igreja”, assinalou o Papa, na primeira audiência-geral de quarta-feira de 2019, numa passagem improvisada da sua intervenção. Perante cerca de sete mil pessoas reunidas na Ala Paulo VI, no Vaticano, Francisco pediu a quem vai à igreja para dar “verdadeiro testemunho” e viver “como filho, como irmão”. “O cristão não é alguém que se esforça para ser melhor do que os outros: ele sabe que é pecador como todos. O cristão é simplesmente o homem que para diante da nova ‘Sarça Ardente’, da revelação de um Deus que não traz o enigma de um nome impronunciável, mas que pede a seus filhos que o invoquem com o nome de ‘Pai’, para deixar-se renovar pelo seu poder e refletir um raio de sua bondade por este mundo tão sedento de bem, tão à espera de boas notícias”, salientou o Papa, no encontro de dia 2 de janeiro, ao prosseguir o ciclo de catequeses sobre o Pai Nosso. Durante a audiência-geral, um grupo circense cubano fez uma apresentação com danças e malabarismos, envolvendo o Papa Francisco em algumas atuações.

 

2. Na Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, a 1 de janeiro, o Papa Francisco propôs uma Igreja de “ternura”, que valorize a dimensão materna. “Na vida fragmentada de hoje, onde nos arriscamos a perder o fio à meada, é essencial o abraço da Mãe. Há tanta dispersão e solidão à nossa volta! O mundo está todo conectado, mas parece cada vez mais desunido”, referiu, na celebração no primeiro dia de 2019, que decorreu na Basílica de São Pedro, no Vaticano. A homilia centrou-se na figura da Virgem Maria e na necessidade de um “olhar materno” no mundo contemporâneo, sustentando que “a família humana se fundamenta nas mães”. “Olhar da Mãe, olhar das mães. Um mundo que olha para o futuro, privado de olhar materno, é míope. Aumentará talvez os lucros, mas jamais será capaz de ver, nos homens, filhos. Haverá ganhos, mas não serão para todos. Habitaremos na mesma casa, mas não como irmãos”, frisou, evocando todos os que vivem sem mãe, “por conta própria”, e “perdem a direção”. “Quantos, esquecidos do carinho materno, vivem zangados e indiferentes a tudo! Quantos, infelizmente, reagem a tudo e a todos com veneno e malvadez! Mostrar-se mau, às vezes, até parece um sinal de fortaleza; mas é só fraqueza! Precisamos de aprender com as mães que o heroísmo está em doar-se, a fortaleza em ter piedade, a sabedoria na mansidão”, garantiu.

 

3. O Papa Francisco considera que as pessoas devem deixar-se assombrar e maravilhar com os membros da própria família, apresentando estes dois estados de espírito como solução para as discussões e os problemas que atravessam muitas casas. “Assombrar-se e maravilhar-se é o contrário de dar tudo por adquirido, é o contrário de interpretar a realidade que nos rodeia e os acontecimentos da história apenas segundo os nossos critérios. Assombrar-se é abrir-se aos outros, compreender as razões dos outros: esta atitude é importante para sanar as relações entre as pessoas e é indispensável também para curar as feridas abertas no âmbito familiar. Quando há problemas nas famílias damos por adquirido que temos razão, e fechamos a porta aos outros, em vez de pensar no que existe de bom naquela pessoa e maravilhar-nos com o que têm de bom. Isto contribui para a unidade da família”, assegurou o Papa, antes da oração do Angelus, na Praça de São Pedro, no dia em que a Igreja assinalou a Solenidade da Sagrada Família, a 30 de dezembro. “Rezemos por todas as famílias do mundo, sobretudo aquelas em que, por vários motivos, falta a paz e a harmonia. E confiemo-las à proteção da Santa Família de Nazaré”, concluiu.

 

4. As diferenças entre os povos não representam “um dano nem um perigo, mas são uma riqueza”, salientou o Papa, no dia de Natal, na tradicional bênção ‘Urbi et Orbi’. Numa mensagem centrada na fraternidade entre os seres humanos, Francisco falou dos vários conflitos no mundo e dos cristãos perseguidos. “Penso de modo particular nos nossos irmãos e irmãs que celebram a Natividade do Senhor em contextos difíceis, para não dizer hostis, especialmente onde a comunidade cristã é uma minoria, por vezes frágil ou desconsiderada. Que o Senhor lhes conceda, a eles e a todas as minorias, viver em paz e ver reconhecidos os seus direitos, sobretudo a liberdade religiosa”, apontou o Papa, no dia 25 de dezembro, apelando a que este Natal “faça redescobrir os laços de fraternidade que nos unem como seres humanos, interligando todos os povos”.

Na noite de Natal, durante a Missa do Galo, o Papa criticou a “voracidade” consumista da Humanidade, alertando para a necessidade de uma vida mais simples. “Diante da manjedoura compreendemos que não são os bens que alimentam a vida mas o amor, não a voracidade mas a caridade, não a abundância mas a simplicidade que devemos preservar. Em Belém, descobrimos que a vida de Deus corre nas veias da Humanidade. Se a acolhermos, a história muda a partir de cada um de nós. Com efeito, quando Jesus muda o coração, o centro da vida já não é o meu eu, faminto e egoísta, mas Ele, que nasce e vive por amor”, declarou.

 

5. No discurso à Cúria Romana, o Papa lamentou os abusos cometidos por membros da Igreja, apelidando-os de “calamidade gravíssima” e “abominação”, desafiando os abusadores a entregarem-se. “A quantos abusam de menores, gostaria de dizer: convertei-vos, entregai-vos à justiça humana e preparai-vos para a justiça divina”, pediu, no passado dia 21 de dezembro, deixando claro que a Igreja “não poupará esforços fazendo tudo o que for necessário para entregar à justiça toda a pessoa que tenha cometido tais delitos”. Estas palavras foram dirigidas aos membros da Cúria Romana, com Francisco a insistir que a Igreja é santa, apesar dos pecados cometidos pelos seus membros. “A força de toda e qualquer instituição não reside em ser composta por homens perfeitos (isto é impossível), mas na sua vontade de se purificar continuamente; na sua capacidade de reconhecer humildemente os erros e corrigi-los; na aptidão para se levantar das quedas; reside em ver a luz do Natal que parte da manjedoura de Belém”.

Aura Miguel, jornalista da Renascença, à conversa com Diogo Paiva Brandão
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