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Isilda Pegado
A Vitória

O Manuel é um homem de uma vida com grandes responsabilidades e, num destes domingos, ao almoço, com os filhos (já adultos), a mulher e 3 amigos, falavam das brincadeiras de rapazolas, como os “socos” na cara de colegas, as “lições” dadas, as batotas nos jogos de futebol e as suas consequências. Todos tinham histórias para contar. Riam com gosto e por vezes faziam algumas reflexões mais sérias.

A dado momento, o Manuel na sua calma, que cativa a atenção de todos, disse: “Desde os 13 anos que não ando à pancada com ninguém. Nessa altura fiz uma jura a mim mesmo, de que não mais andaria à batatada”. De imediato, alguns dos que o ouviram, perguntaram – “Porquê?”.

Então, o Manuel contou a história que tanto o marcara.

“Quando andava no 3.º ano do Liceu (hoje seria o 7.º ano de escolaridade), tinha um colega – o Luís – que volta e meia lá estava a provocar-me. Ele eram rasteiras, empurrões, tudo servia para o Luís me incomodar. Um dia, fez-me mais uma das suas – com dois empurrões atirou-me para cima de uma sebe, quando eu seguia de uma sala para outra no pátio da escola. Nesse minuto disse para mim – “é hoje que paras com isto”. E, naquele momento atirei-me a ele, andamos embrulhados à pancada, tendo eu a convicção que a minha acção teria sido a mais eficaz. Isto é, tinha “aviado” uns pares de socos e estalos no Luís que por certo o iam “acalmar” definitivamente.

Saí mesmo eufórico com a minha acção de rapaz valente e corajoso que sabe tratar do que é necessário.

Tudo isto se passou logo ao início da tarde junto ao campo de futebol, no meio das sebes.

Ao fim da tarde, o Luís veio ter comigo e disse-me: “Manuel queres vir jogar futebol? Fiquei perplexo, e… disse que sim (tanto mais que gostava muito de jogar futebol)”.

Fui equipar-me e à hora marcada lá estava eu para jogar.

Seguiu-se a escolha de equipas em que o meu colega Luís escolhia uma e o Pedro a outra equipa.

O Luís escolheu-me para a equipa dele.

Naquela hora disse para mim mesmo: “Nunca mais andarei à pancada, dei uns socos e uns estalos ao Luís, ele sofreu-os, mas quem venceu foi ele, não fui eu. A Vitória foi do Luís”.

À mesa, todos ficaram em silêncio por alguns instantes.

Porque é que mais de 40 anos depois o Manuel recordava aquele episódio da sua vida? Como é que aquele rapazinho de 13 anos reconheceu que a Vitória não está em dar mais ou menos socos no outro, mas está na decisão de coração, de amizade, de camaradagem que se tem pelo outro?

No início do Ano, fazemos todos muitas preces e propósitos para o caminho que temos pela frente. E ainda bem. Muitas vezes com o coração carregado de conflitos que nos ofuscam e destroem. Mas não largamos os “nossos direitos” e “razões”, por mais que elas nos afundam num sofrimento avassalador.

Oxalá, cada um de nós que esteja nessa dor, encontre um “Luís que o convide para o futebol e o escolha para a equipa”.

Mas descobrir a Vitória pode não ser só fruto das capacidades intelectuais. Estou convencida de que é preciso Pedir. É a primeira humildade. Depois, vem a Graça de contar aos filhos, com humildade o que se viveu aos 13 anos.

Obrigado Manuel, porque a maior Vitória talvez tenha sido mesmo a tua.

Obrigado.