JMJ Lisboa 2022 |
Jovens de Lisboa que estiveram junto ao Papa na JMJ Panamá 2019
“Uma jornada marcante” vivida junto do Papa Francisco
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Joaquim Goes esteve lado a lado com o Papa Francisco durante uma hora e meia, na cerimónia de acolhimento e abertura da Jornada Mundial da Juventude, no Panamá. Pedro Cabrita leu a primeira leitura da Missa de envio da JMJ. Estes jovens de Lisboa destacam o “momento único” que viveram e salientam a necessidade de arregaçar as mangas tendo em vista a JMJ Lisboa 2022. “Vai ser a loucura”, garantem.

 

É um gesto que se tem repetido nas ultimas edições da Jornada Mundial da Juventude: o Papa chega à cerimónia de acolhimento e abertura de mãos dadas com cinco jovens, cada um representando um continente. No Panamá, o representante da Europa foi Joaquim Goes, um jovem de Lisboa. “Foi único! O que mais me impressionou foi a postura do Papa ao longo não só da cerimónia em si, mas em todos os momentos que esteve connosco”, começa por recordar Joaquim, ao Jornal VOZ DA VERDADE. Foram momentos inesquecíveis, vividos no Campo Santa Maria la Antigua, com um episódio que este jovem de 21 anos jamais vai esquecer. “Antes de entrarmos, o Papa perguntou-nos como nos chamávamos, qual o nosso país e, depois, demos todos as mãos e entrámos por aquelas portas, que simbolizavam a entrada nas jornadas. Quando terminou a cerimónia, nos momentos finais, o Papa despede-se de nós e, depois, volta atrás e chama-nos para lanchar... foi único! Entrámos numa sala simples e à mesa havia bolos, bolachas e água. O Papa disse-nos para comermos e ofereceu um terço a cada um. Como é que um homem destes, com tanta coisa para pensar, se lembra de chamar cinco jovens para ir lanchar com ele?”, questiona, hoje, Joaquim Goes.

Este jovem da Paróquia das Mercês esteve a representar todos os jovens do continente europeu. A celebração durou cerca de uma hora e meia e, durante todo este tempo, Joaquim pôde estar bem próximo do Papa Francisco. “Tocaram-me as palavras do Papa, que representaram muito bem o espírito que ali se vivia. Éramos todos diferentes — eu nunca tinha estado, por exemplo, com pessoas da Guatemala ou de El Salvador, países que nós ouvimos falar, mas que nem sabemos bem a realidade que lá se vive –, mas todas essas diferenças, ali, se desvaneciam para vivermos juntos aquele momento. O Papa, e bem, fez questão de lembrar isso: nós somos muitos diferentes, de origens e culturas diferentes, mas ali éramos todos iguais, não havia diferenças perante Cristo. Perante Deus, não há diferenças. Foi o ponto forte da cerimónia de acolhimento”, garante.

 

Um telefonema inesperado

O convite para representar a Europa na abertura da JMJ Panamá 2019 surgiu duas semanas antes de a jornada ter início. Joaquim estava ainda em Portugal, quando o telefone toca. Era um responsável do Patriarcado de Lisboa a convidá-lo para estar com o Papa no momento da cerimónia de acolhimento da JMJ. “Foi um convite muito inesperado. Não estava nada à espera, mas não se diz que não há um momento destes. Nem passou pela cabeça dizer que não a poder estar com o Papa! Senti-me obviamente honrado”, afirma.

Após a cerimónia, Joaquim Goes ofereceu ao Papa um terço das Equipas de Jovens de Nossa Senhora e pediu a Francisco para rezar pelo movimento. “O Papa pediu para também rezarmos por ele, como tem feito noutros momentos”, revela.

Este jovem, que está a tirar Mestrado em Finanças, na Universidade Nova, e ao mesmo tempo é professor assistente de Matemática, diz ter sentido “uma alegria muito grande” ao ouvir que seria Lisboa a receber a próxima JMJ. “Foi incrível quando ouvimos o nome de Portugal”, refere. Lisboa tem agora de arregaçar as mangas para preparar a próxima Jornada Mundial da Juventude. “Na JMJ Lisboa 2022 espero estar do lado dos voluntários. Tem sido esse o apelo do senhor Patriarca e penso que agora temos de arregaçar todos as mangas e colocar as mãos à obra. Só para se ter uma noção, no Panamá havia 37 mil voluntários! E estamos a falar de uma jornada que foi significativamente mais pequena que a de Cracóvia, por exemplo. Temos de nos pôr ao serviço e começar a trabalhar. Mesmo que tenhamos outros projetos, temos de ter esta disponibilidade”, manifesta Joaquim Goes, o jovem de Lisboa que representou a Europa na abertura da JMJ Panamá 2019.

 

‘Espetacular’

Se Joaquim pôde estar ao lado do Santo Padre, Pedro Cabrita, também de 21 anos e igualmente de Lisboa, pôde ler para o Papa e para todo o mundo. Foi na Missa de envio da JMJ no Panamá, no Campo São João Paulo II. Curiosamente, na sua primeira Jornada Mundial da Juventude. “Foi uma jornada marcante! Foram tantos momentos bons, mas claro que, para mim, o ponto alto foi na Missa de envio ter tido o privilégio de poder ir fazer a primeira leitura para 700 mil pessoas que estavam ali, mais alguns milhões em casa. Nem imagino quantas pessoas que me viram, entre os que perceberam e os que não perceberam o que eu estava a dizer”, frisa Pedro, ao Jornal VOZ DA VERDADE.

Antes de o Papa Francisco entrar para a celebração, Pedro recorda-se de um momento em particular. “Antes de o Papa chegar, recordo o silêncio que houve, durante cerca de 10 minutos. Quando vemos o Papa aparecer, só conseguimos pensar: ‘Espetacular’. Espetacular é mesmo a palavra que dá para descrever O momento”, conta este jovem escuteiro, da Paróquia de Santos-o-Velho, em Lisboa.

 

A loucura

Pedro assume que sentiu “ansiedade” ao estar no palco, junto ao altar, com mais cinco ou seis leitores. “Estávamos todos a sentir a mesma sensação, mas todos felizes e calmos, com vontade que a Missa começasse. Não estávamos nervosos, mas sentíamos a pressão, até que uma jovem panamenha sugeriu rezarmos em conjunto. Foi engraçado, porque fizemos a oração do Pai Nosso, cada um na sua língua, numa confusão linda. No final, percebemos o que nos ia acontecer e que ia correr bem”, conta. O que é facto é que durante a leitura Pedro garante ter-se sentido “calmo”. “Senti-me bem e isso ajudou-me, sem dúvida, a conseguir fazer a leitura em condições. Na vénia final ao Papa, já estava descontraidíssimo”, assume, entre sorrisos.

Como leitor, Pedro não iria ter a oportunidade de cumprimentar o Papa. Mas como português, pôde tirar uma foto de grupo com o Papa aquando do anúncio de que Lisboa vai ser a anfitriã da próxima JMJ. “Estava no palco e senti que tinha de ir lá para a frente festejar para todo mundo ver o sentimento que Portugal estava a sentir. Como nos disse o senhor D. Manuel Clemente, vão ser três anos de muito trabalho. Vai ser uma experiência incrível para Portugal, mas vai ser trabalhoso. Agora, sempre que ando por Lisboa, olho para as ruas e penso: ‘Daqui a três anos vai ser a loucura’. Acho que Portugal não está à espera do que lhe vai acontecer, mas vai ser ótimo”, considera o jovem pedro Cabrita, o português que leu para o Papa na Missa de envio da JMJ Panamá 2019.

 

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Francisco fala aos jovens do mundo

 

No Panamá, ouvimos o Papa ao vivo. Isso causa muito impacto, sobretudo com Francisco que nunca se fica pelos papéis. Notava-se que estava alegre e rejuvenescido; mas com a firmeza e ousadia de sempre. Agora é também tempo de aprofundar. Não fiquemos pela superficialidade de acontecimentos sem palavra, sem proposta para a vida concreta.

 

Cada semana da JMJ inclui sempre alguns actos centrais do Papa com todos os peregrinos: celebração de acolhimento e abertura na quinta-feira, via-sacra na sexta e, sobretudo, a vigília de sábado e a Missa de Domingo (o dia mundial propriamente dito). Em todos, Francisco falou aos jovens, à vista de todos, melhor, com todos a ouvirem: de todas as idades, de todos os países, de qualquer religião. Forte e incisivo, interpelador e desafiante, com a segurança do que trazia preparado e com a liberdade de ir acrescentando ou sublinhando, conforme interpelação do momento.

 

Pontes e não muros. Foi o primeiro encontro geral com os jovens. Grande expectativa e vontade de beber o que trazia Francisco para nos dizer eram sentimentos dominantes. É a quinta-feira em que o Papa, chegando à JMJ quer já marcar o tom. Por isso não faltou a reflexão sobre Nossa Senhora. O seu faça-se era mesmo o tema da JMJ: “eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). A dada altura convida os jovens a fechar os olhos e a ouvir interiormente a mesma pergunta que, no caso de Maria, provocou esta entrega total. E no caso dos jovens qual será a resposta? «Maria tinha a idade de muitos de vós (…) Nestes breves momentos de silêncio, em que Jesus diz a cada um (…) ‘Estás disposto? Queres?’ Pensa em Maria e responde: ‘Quero servir o Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra.» É preciso coragem para responder e é cada um que o deve fazer. Por isso, diz o Papa, «agora não respondais; cada qual responda no seu coração. Há perguntas a que se responde apenas em silêncio».

O sim de Maria inspirará então o de cada jovem. Não se trata de uma abstracção bonita, mas que fique inconsequente. No sim de hoje estará incluído muito do que Francisco apresentou. A tantos jovens que atenderam a esta convocação de alegria e esperança para a Igreja e para o mundo, disse «Prossegui, não para criar uma Igreja paralela, um pouco mais “jovial” e “atrevida” numa modalidade para jovens, com alguns elementos decorativos, como se isso pudesse deixar-vos contentes.» Não se trata de uma operação de cosmética em que também a Igreja (como o mundo faz) se apropriaria da juventude, sem escutar e sem dar voz e vez aos jovens concretos.

Francisco não tem medo de colocar os jovens na missão já hoje. E vinca bem que um dos contributos há-de ser o de construir pontes e não muros, ao contrário do que fazem tantos adultos. A estes diz para se afastarem da mentalidade GCU (gente como uno) que encontra um equivalente em português em GCN (gente como nós), usado para rejeitar as pessoas de fora da classe social ou do grupo que usa a sigla, cancelando a comunhão que há-de ser com todos. Daqui decorre algo de bastante concreto a mudar na nossa vida juvenil em Igreja: a prevalência de um certo elitismo que provoca demasiados compartimentos estanques, desconhecimentos e desconfianças.

 

Verdadeiro acolhimento. Por natureza, a Via Sacra proporciona reflexão e oração acerca do sofrimento humano; também o dos jovens a quem se rouba o futuro. O Papa apontou uma série de flagelos de discriminação, exploração e violência. Incluiu “o grito sufocado das crianças impedidas de nascer”, “as mulheres maltratadas”, “a solidão resignada dos idosos”, “o grito da nossa mãe Terra ferida”, “Jesus que emigra no rosto de tantos desconhecidos que aprendemos a tornar invisíveis”. Como Maria, os jovens são chamados a permanecer ao pé da cruz, a não virar a cara diante do sofrimento. E o Papa reza: «Pai, como Maria, queremos ser Igreja, a Igreja que favoreça uma cultura que saiba acolher, proteger, promover e integrar; que não estigmatize e, menos ainda, generalize com a condenação mais absurda e irresponsável que é ver todo o migrante como portador do mal social».

 

Maria, a maior influencer. Na vigília de sábado, depois de se apresentarem vários testemunhos de vida, Francisco continuou a provocar. Utilizando conceitos que os jovens entendem, apresentou Maria, desconhecida das “redes sociais” de então, como a maior influencer (pessoa popular numa rede social, com muitos seguidores). «Sem querer nem procurar, tornou-se a mulher que maior influência teve na história». E tudo aconteceu a partir do “sim” «de quem quer comprometer-se e arriscar, de quem quer apostar tudo, sem ter outra garantia para além da certeza de saber que é portadora de uma promessa». Não era tudo fácil e claro, mas «Maria não comprou um seguro de vida».

O sim dos jovens, à imagem do de Maria, terá consequências. Por exemplo, no abraçar a vida, acolhendo tudo o que não é perfeito, mas igualmente digno de amor. Por isso, o Papa pergunta de forma provocadora: «uma pessoa portadora de deficiência, uma pessoa frágil é digna de amor? (…) Uma pessoa mesmo que seja estrangeira, tenha errado, se encontre doente ou numa prisão é digna de amor?» As respostas em voz alta dos jovens foram sempre sim. E Francisco explica porque tem de ser assim: «só o que se ama pode ser salvo (…) o amor do Senhor é maior que todas as nossas (…) mesquinhices». Mais: Ele quer escrever uma história de amor através destas fragilidades. Porque «a verdadeira queda (…) aquela que nos pode arruinar a vida, é ficar por terra e não se deixar ajudar» e o Senhor «abraça-nos sempre, sempre, sempre, depois das nossas quedas, ajudando-nos a levantar e a ficar de pé».

Assim, realmente há que ser influencer, mas ao estilo de Maria. E isso é dizer sim ao Evangelho que «nos ensina que o mundo não será melhor por haver menos pessoas doentes, menos pessoas debilitadas, menos pessoas frágeis ou idosas de que ocupar-se, nem por haver menos pecadores. Não! Não será melhor por isso. O mundo será melhor quando forem mais as pessoas que (…) estiverem dispostas e tiverem a coragem de levar no ventre o amanhã e acreditar na força transformadora do amor de Deus.»

 

Jovens: o agora de Deus. Chegamos ao último dia. É Domingo e na Missa, o Papa também tem coisas importantes para deixar aos jovens como mensagem. E nem o feliz anúncio da próxima JMJ em Lisboa, pode fazer-nos adormecer. É que, como de alguma forma se via no Evangelho do dia, pode acontecer uma certa anestesia: «Também nós podemos correr os mesmos riscos que os vizinhos de Nazaré, quando, nas nossas comunidades, o Evangelho se quer fazer vida concreta e começamos a dizer: “Mas, estes jovens não são filhos de Maria, de José, não são irmãos de…, parentes de…? (…) Como podemos acreditar neles?” (…) E assim uma pessoa que nascera para ser profecia e anúncio do Reino de Deus acaba domesticada e empobrecida. Querer domesticar a Palavra de Deus é uma tentação de todos os dias»

Também daqui resulta que os jovens não são apenas o futuro, como se costuma dizer. «Vós sois o presente! Não sois o futuro de Deus; vós, jovens, sois o agora de Deus. Ele convoca-vos, chama-vos nas vossas comunidades, chama-vos nas vossas cidades, para irdes à procura dos avós, dos adultos; para vos erguerdes de pé e, juntamente com eles, tomar a palavra e realizar o sonho que o Senhor sonhou para vós».

Vale a pena terminar com o que o Papa disse logo na quinta-feira acerca do que esperava da JMJ: «Esta Jornada não se revelará fonte de esperança por um documento final, uma mensagem consensual ou um programa a aplicar. (…) Aquilo que dará mais esperança neste encontro serão os vossos rostos e uma oração. Isto dará esperança…o rosto com que voltardes para casa, o coração transformado com que regressardes a casa (…) O que dará mais esperança neste encontro serão os vossos rostos, a vossa oração!»

Na verdade, esta profecia cumpriu-se logo ali durante a JMJ. Assim foi na alegria e esperança que os rostos jovens emanavam, mas também na oração (a profundidade do silêncio de quase todos ajoelhados diante do Santíssimo na vigília foi muito interpelante). Mas esta profecia continua também aberta: agora em cada país, diocese e comunidade, cada jovem é convidado a uma mudança de mentalidade e acção que se há-de notar na Igreja e no mundo.

 

Padre Carlos Gonçalves, assistente espiritual do Serviço da Juventude de Lisboa

texto por Diogo Paiva Brandão; fotos por JMJ Panamá 2019
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