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Inês Simões, Missão País e Movimento ao Serviço da Vida
“Seria um desperdício gigante parar por aqui”
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Inês Simões nasceu a 17 de março de 1996, em Lisboa. Está no último ano de Medicina Dentária, no Instituto Universitário Egas Moniz. É membro da Missão País e do Movimento ao Serviço da Vida (MSV) e já participou em várias missões a nível nacional.

 

Inês é filha única, mas tem uma família numerosa. “Tenho a felicidade de ter muitos primos que (alguns) são quase como irmãos. Desde pequena que oiço ‘liberdade com responsabilidade’ e hoje dou graças à educação que me deram pois foi assim que obtive os momentos mais marcantes da minha vida”, partilha. No verão passado, decidiu viajar sozinha, mesmo tendo ouvido de várias pessoas (incluindo os pais) que não teria coragem para tal. “Foi esta autonomia que me levou a tomar caminhos, agora reconheço, que me tornaram no que sou hoje. Foi também um pouco assim que decidi embarcar na primeira grande aventura da minha vida, a Missão País, em fevereiro de 2017. Digo ‘aventura’ pois se não fosse naquele dia e àquela hora, enquanto esperava que o meu almoço aquecesse no micro-ondas da faculdade, provavelmente não teria feito metade do que fiz nos dois anos que se seguiram”, conta.

 

“Saímos de lá com o coração a rebentar”

Sobre a Missão País, diz-nos que “consiste num projeto a nível nacional que inclui diversas faculdades do país em que, durante uma semana e incutidos (uns mais, outros menos) num espírito católico, realizamos diversas ações de voluntariado, como ajudar na creche, em lares, escolas, teatro, etc. etc., em zonas do país que, geralmente, estão mais necessitadas.” Depois do despoletar do “bichinho do voluntariado”, Inês já fez missões em locais diferentes e com pessoas de faculdades diferentes, mas diz que sempre se sentiu em casa. Com o MSV e as missões em que participou, diz-nos que reacendeu “a velinha que já estava quase apagada” e recuperou a sua fé. Em 2018 foi com a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa para Odemira e diz que “as missões são algo muito enriquecedor e nós saímos de lá com o coração ‘a rebentar’, é uma alegria que sai-nos mesmo do corpo”. Conheceu o MSV e diz-nos que “é um movimento de católicos que vivem a sua fé ao serviço da vida no dia-a-dia. É este grupo que é responsável por manter a minha velinha acesa e cada vez com mais luz.” Realizam reuniões de oração e de tema quinzenais, vão a Alcoutim um fim-de-semana por mês, “onde estamos com as pessoas que, na sua maioria, se encontram muito isoladas”, realizam uma peregrinação a Fátima e têm também o Projeto de Verão “que costuma ser a nível internacional e é estipulado no início de cada ano.” Diz que os fins-de-semana em Alcoutim “são sempre muito intensos uma vez que queremos e tentamos chegar ao máximo número de pessoas, tentando não descorar do tempo precioso (e que tão bem sabe!) que estamos com cada uma delas” e diz-nos que, com Alcoutim, ganhou “uma sensibilidade que já ninguém me a tira”. Atualmente é uma das responsáveis do Grupo de Ação e Fé (GAFE), o grupo de jovens do MSV.

 

“Deixámos as pessoas abrir o coração e nós abrimos o nosso”

Em Agosto do ano passado esteve durante três semanas com outros quatro membros do MSV para Atenas (Grécia), participar no Projeto ELEA num campo de refugiados em Eleonas e partilha: “O Projeto ELEA traz a este campo de refugiados alegria e um pouco mais de qualidade de vida a estas pessoas que tinham tudo e que agora pouco têm. Os nossos dias no campo começavam por volta das 12h30 onde dividíamos as mais diversas tarefas para o dia todo que terminava por volta das 21h. Desde pintar os contentores onde as pessoas viviam, a carpintaria, a atividades lúdicas, desportos, aulas de inglês, creche para os mais pequenos, etc. Fazíamos de tudo e, no meio de tanta atividade, as conversas existiam, e que conversas! Confesso que tenho um bocado a mania de procurar sair da minha zona de conforto, procuro novos projetos, novas atividades que me desafiem. E este foi, obviamente, um deles. Mas, quando lá cheguei ao campo lembro-me de sentir que iria ser um desafio relativamente calmo porque parecia tudo muito sorridente e até divertido. Chegamos ao campo e somos invadidos por um mar de cores, das mais alegres que existem! Contentores pintados de verde e amarelo, azul e vermelho, rosa e roxo e muitas outras combinações, tornam os dias destas pessoas menos monótonos, diria. Mal eu sabia que, ao dar-lhes um pouco de conversa, levaria um abanão. Sou uma miúda sortuda a todos os níveis. Foi esse o abanão. Conheci refugiados da Síria, Afeganistão, Mali, Serra Leoa, entre outros, pessoas que têm as suas vidas suspensas, muitas há mais de 4 anos. Crianças que nasceram lá no campo e que não conhecem outra realidade. E, quando penso nisso, até digo ‘ainda bem’ porque ao menos este campo permite-lhes ser de facto crianças. Lá andam todas de um lado para o outro, a cuidarem umas das outras, mas sempre com um sorriso na cara de quem ainda é tão inocente. Ao falarmos com estas pessoas percebíamos a bagagem enorme que traziam às costas. Agora estavam seguras, sim, mas sempre impacientes para saber quando poderiam recomeçar a sua vida, arranjar um trabalho, reunir finalmente com a família toda. Ao falarmos com estas pessoas percebíamos a futilidade dos nossos problemas. Não me esqueço de conversas que me fizeram arrepiar e, definitivamente, me fizeram crescer. Eu acredito mesmo que, embora ‘só’ tenhamos estado lá durante três semanas, marcámos a diferença. Tínhamos iniciativa, deixámos as pessoas abrir o coração e nós abrimos o nosso. No meu caso, deparei-me com uma realidade assustadora a nível da saúde oral daquelas crianças que crescem a comer batatas fritas e chocolates porque é o que sai mais barato aos pais. Com aquela situação tinha duas opções, a óbvia de não fazer nada, ou a mais difícil de tentar, pelo menos tentar. Mais uma vez, escolhi a mais desafiante. Comprometi-me a fazer parte da creche durante aquelas três semanas, que consistia em estar lá durante duas horas por dia com crianças entre os dois e os cinco anos, e foi lá que começou tudo. Como aspirante a médica dentista, decidi distribuir panfletos (traduzidos para farsi e árabe) aos pais, incentivando à higiene oral e dei início a aulas lúdicas e atividades com os miúdos, jogos onde explicava o que é bom e mau para os nossos dentes, e, o auge, a distribuição de escovas e pastas de dentes que tinham sido doadas para o projeto. A alegria que é de chegar no dia seguinte ao campo e as crianças virem ter comigo dizendo ‘I brushed my teeth!’ (‘Eu escovei os meus dentes!’) enquanto sorriam de orelha a orelha! Ali tive a prova que o ‘pouquinho’ interessa, o pouco que podia fazer por estas pessoas bastou, pelo menos para o tempo que lá estive, com os recursos que tinha. E foi ali que aprendi a lição valente de continuar a fazer sorrir o mundo, de orelha a orelha. Este tipo de projetos transforma-nos. Eu cresci muito e quero muito continuar a fazê-lo. Estou a entrar numa fase de limbo, prestes a terminar a faculdade, prestes a participar na minha última Missão País e, provavelmente, prestes a fazer as minhas últimas missões com o MSV e sinto-me triste se pensar nisto dessa forma. A maior parte destes projetos está mais direcionado para os universitários, mas, o que ganhei foi tanto, que seria um desperdício gigante parar por aqui.”

texto por Catarina António, FEC | Fundação Fé e Cooperação
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