Doutrina social |
Quaresma
O tempo propício que vivemos
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Testemunhamos os fabulosos avanços da ciência e da técnica. A Humanidade cruza o espaço e vai desvendando os mistérios do universo, com a perceção de que, a cada passo dado, novos desafios lhe são apresentados. Ao mesmo tempo, há milhares de crianças que morrem, simplesmente de fome… o que nos confronta com a afirmação de Dostoievski: “Todo o progresso do mundo não vale o choro de uma criança faminta”.

 

“Este é o tempo propício”

É com esta passagem da 2ª Carta aos Coríntios (6,2) que se qualifica o tempo da Quaresma, marcado por três atitudes que se exigem mutuamente: oração, jejum e esmola. A oração é a manifestação das razões que levam o crente a jejuar, o que não deve ser visto como um ato ascético, quase parecendo negar a bondade do prazer, mas antes uma exigência de quem entende ser importante partilhar algo de si para que outros possam ser mais. Há que arrumar a estafada distinção entre o comer carne ou comer peixe, e voltar à ideia da privação de algo com vista a proporcionar a outros uma vida mais consistente. Por isso jejum e esmola são duas faces da mesma moeda. Há dias, em Santa Marta, o Papa partilhou uma história da sua infância: quando visitou a família de um amigo, viu a mãe dele a dar uma bofetada na empregada. Concluía que não é preciso chegar a esse ponto para desprezar o jejum e perguntava: “Como trato os outros? Como pessoas ou como escravos? Pago-lhes o salário justo ? Pago-lhe as férias devidas? É uma pessoa ou um animal que te ajuda em casa?” Sem coerência entre o crer e o agir cai-se na reprimenda de Deus: “Acaso é esse o jejum que me agrada ?” (Is.58,5)

 

Saber ler os sinais

Vivemos a angústia do caso de Julen, o menino de 2 anos que no dia 13 de Janeiro caiu num poço em Totalan (Málaga) e que, depois de uma mobilização espantosa de pessoas e de meios, foi retirado morto no dia 26. Todos ficaram comovidos. Foi o melhor das pessoas que veio ao de cima e que se identifica com um dado fundamental da fé, que nos diz através de S. Ireneu, que “A glória de Deus é o homem vivo”. São acontecimentos que nos mostram o que está muito para além das visões estreitas e egoístas que atribuem à eficácia e ao lucro um lugar prioritário enquanto que à pessoa resta um valor instrumental, ou se quisermos utilizar a expressão mais brutal e vulgar, resta ser “carne para canhão”.

Os sinais mais interpelantes podem vir de quem não tem filtros nem máscaras nas suas intenções, como no caso das greves climáticas realizadas nos últimos dias e que tiveram a sua origem na adolescente sueca de 15 anos, Greta Thunberg, que iniciou uma greve às aulas, colocando-se em frente do Parlamento sueco, manifestando que o país devia cumprir o Acordo de Paris sobre o clima. E àqueles que a contestam por estar ali e não na escola, ela responde com um argumento irrefutável: “Por que havemos de estudar para um futuro que em breve pode deixar de existir?”

A acutilância da sua visão é a mesma daquela mulher indiana, física e ativista ambiental, de nome Vandana Shiva, que afirma: “O nosso desafio é lutar contra a estupidez… O Planeta conseguirá sobreviver sem nós… Somos nós que temos de proteger o nosso lar”.
Como escrevia há dias J. Camargo, no Observador, Greta “exibe ausência de filtros sociais e políticos, que lhe permite ser totalmente exata e dizer aquilo que é totalmente evidente segundo a ciência: a economia, subjugando a sociedade global, está a destruir a civilização humana no Planeta Terra”.

 

Folclore ou uma nova consciência

Para alguns, este efeito Greta poderá ser uma manifestação folclórica quebrando a monotonia de uma sociedade onde parece haver solução para tudo. Espero que não seja. Ao entrar nesta corrente os mais novos vão tomando consciência da realidade e vendo que há algo mais para além das propostas inquinadas pelo desprezo do bem coletivo, descobrindo as aspirações comuns aos de perto e aos de longe e ultrapassando preconceitos mesquinhos. Alguns, com o passar dos anos ficarão nos seus ninhos, esquecendo os sonhos da infância e juventude, mas outros levarão cada vez mais a sério a necessidade de ir demolindo as barreiras da desumanidade, que encontra a sua expressão na morte de milhões de crianças por falta de pão, de cuidados de saúde, de educação, de habitação, de paz e de um meio ambiente respeitado e harmonioso.

A procissão ainda está no adro. Mal de nós se não sair para as ruas levando uma aragem de festa e de esperança.

texto por Valentim Gonçalves, CJP-CIRP
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