Entrevistas |
Padre Tiago Esteves, autor do livro ‘Uma esperança para além de qualquer esperança’
“Encontro com uma esperança que é uma certeza”
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Em tempo pascal, o primeiro livro do padre Tiago Esteves é um convite à reflexão na verdadeira esperança, a “esperança segura”. Em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, este jovem sacerdote fala da obra – já premiada – que resulta da sua dissertação de Mestrado e aponta a importância que este estudo, baseado na figura de Paulo e Abraão, tem na sua missão como pastor.

 

Ordenado no ano passado, o sacerdote de 25 anos aceitou o desafio do Cardeal-Patriarca de Lisboa para publicar a sua tese, que começou a ganhar forma após uma conferência, sobre o mesmo tema, com o então padre José Tolentino Mendonça. ‘Uma esperança para além de qualquer esperança’ é o título da obra que resultou da sua dissertação de Mestrado e que mereceu o prémio ‘Sagrada Família’, da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, para a melhor dissertação do ano 2018.

 

Como é que esta tese, que agora ganha a forma de livro, pode contribuir para a sua missão como pastor?

Contribui muito. O meu medo é que contribua ‘de mais’, por estar sempre a falar sobre o tema. Não tenho dúvidas nenhumas que contribui imensamente, em primeiro lugar, para mim próprio. De facto, foi um encontro com uma esperança que é uma certeza, porque Paulo viu Jesus Cristo e Jesus Cristo é o fundamento da esperança de Paulo; Abraão acreditou em Deus de uma forma tão profunda que tocava a certeza e isto, para mim, em primeiro lugar, é algo que me transforma a vida porque me ajuda a centrar no essencial, a ter cuidado para não colocar esperanças em coisas que não são Jesus Cristo.

Depois, não há dúvida nenhuma que quando este tema se toca em direção espiritual, numa homilia, numa pregação, as pessoas sentem-se muito tocadas e querem saber mais: Que esperança é esta? O que é isto de uma esperança eterna, segura? Penso que a segurança é a grande diferença entre esta e outras esperanças. As pessoas são muito sensíveis a este nível de segurança de uma firmeza inabalável que é a segurança de Jesus Cristo.

 

O apóstolo Paulo é o elemento central a partir do qual se desenvolve a sua tese...

É Paulo a falar sobre Abrão. Paulo está a dizer que Abraão, numa esperança para além de qualquer esperança, acreditou e tornou-se pai de muitos povos, conforme estava escrito. Paulo escreve sobre Abraão. Quando alguém escreve sobre outra pessoa está a falar sobre essa outra pessoa, mas também transmite algo seu e Paulo fá-lo também, sobretudo quando falamos da noção de descendência que já não é apenas da linhagem de Abraão, mas uma descendência que se abriu pela fé em Jesus Cristo. Sem dúvida nenhuma, Paulo já tem os olhos em Jesus Cristo Ressuscitado. No fundo, Paulo vai fazer uma linha desde Abraão a Jesus Cristo: Abraão que – juntamente com Sara – estava morto para a fecundidade e o cristão que, apesar de ter uma morte biológica, tem uma vida nova em Cristo Ressuscitado. Portanto, morte – vida. É este o paradoxo.

 

Porquê a escolha de Paulo? O que descobriu com esta figura Bíblica?

Há uns tempos, houve uma conferência do então padre José Tolentino Mendonça com o tema ‘Esperar contra toda a esperança’. Essa conferência marcou-me e, desde logo, achei que seria interessante aprofundá-la como dissertação final de ano. Não estava à espera do que descobri quando me propus fazer uma dissertação sobre um versículo do qual versa a esperança, do desenvolvimento enorme que Paulo dá a este conceito, relativamente aos contemporâneos dele. Ele desenvolve a esperança de uma forma maior e mais profunda do que qualquer contemporâneo seu. Isso é algo que é verificável pelas fontes. A esperança era um tema falado, mas não era um tema aprofundado, normalmente, nem pelos filósofos. Mas Paulo aprofunda de uma maneira que os outros não fazem e traz-lhe uma segurança que os outros não têm, que é Jesus Cristo crucificado.

 

Na apresentação da obra, o professor João Lourenço referiu que o tema da esperança está na ordem do dia, sobretudo pela carência. É precisamente a falta de esperança que tem feito crescer os casos de depressão neste tempo?

Há estudos feitos, é uma questão estatística e interessante. Por exemplo, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han olhou para as várias epidemias, dificuldades que percorreram a história e encontrou, no século XXI, a depressão como uma epidemia. É algo que está muito proliferado, escondido. E nós, como padres, em direção espiritual, na confissão, percebemos isso claramente. Mas não é preciso ser padre. Acho que qualquer pessoa percebe isso, na própria vida e na sociedade. Vemos esgotamentos que são causados, muitas vezes, por um excesso de trabalho e esperanças frustradas. A pessoa tem uma vida muito agitada, de muito trabalho, muita entrega e, ao mesmo tempo, um certo vazio porque depois não há o ‘mais’, ou seja, algo que possa preencher o coração com o que nós precisamos, que é Jesus Cristo, uma vida eterna.

Por muito que a vida, na terra, corra muito bem... tudo aqui passa. Só Deus é que não passa.

 

A “falta de reflexão” nos dias de hoje foi uma das constatações apontadas pelo professor Alexandre Palma na apresentação da obra. Este livro pode ser um contributo para superar isso?

Não me cabe a mim dizer. O que eu acho, para mim próprio, é que foi e continua a ser um contributo de aprendizagem e para continuar a aprender. É um princípio de aprendizagem sempre. Penso, efetivamente, que continua a ser um tema que podia ter outro tipo de aprofundamento eclesial, filosófico e teológico. Nesse sentido, poderá ter o seu valor.

 

Refletir sobre a esperança cristã é obrigatório para viver esta Páscoa?

É constitutivo porque a fé, a esperança e a caridade são as três virtudes teologais, ou seja, são virtudes que fazem parte do ser cristão. Para ser cristão, preciso ter fé em Jesus Cristo, mas essa fé leva-me a ter o motor que me leva a Jesus Cristo. Esse motor é a esperança. A caridade é a forma de concretizar uma vivência em Jesus Cristo. Eu sou cristão na medida em que vivo essa caridade que é operativa. A esperança é um motor que me dá ajuda, alento e me impele para o amor. 

 

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“Refletir é um ato revolucionário”

Na apresentação do livro ‘Uma esperança para além de qualquer esperança’, da autoria do padre Tiago Esteves, o padre Alexandre Palma apontou a “urgência” da “reflexão” para o “tempo eclesial de hoje”. “Parar para refletir é um ato revolucionário nos dias de hoje”, sublinhou este sacerdote, “arriscando” o resultado de uma sondagem sobre o tema: “Se perguntássemos hoje o que o mundo mais carece, arriscava dizer que a esperança não está no topo do que nós sentimos como necessário. Por isso mesmo, torna-se mais urgente. Até na pregação eclesial, temos que voltar a alguns conceitos chave da tradição bíblica que, à boleia de outros estímulos, vamos deixando cair”, apontou.

Na mesma intervenção, o padre Alexandre Palma classificou esta obra como “um copo de água no meio do deserto”. “Em primeiro lugar, porque é um trabalho académico de confirmado nível. Nesse aspeto, é um primeiro bálsamo para professores, sinal de muitos outros que se vão desenvolvendo nas universidades portuguesas. Em segundo lugar, é uma edição em teologia. Continuamos a lutar contra a corrente, num certo sentido, numa teimosia, que é também uma convicção, de não só editar livros, como editá-los com qualidade, como ainda, de editar com qualidade em teologia”, salientou este professor de Teologia, na sessão que decorreu no passado dia 12 de abril, na Livraria da Universidade Católica, em Lisboa.

 

Tema na ordem do dia

Por sua vez, o orientador da tese de Mestrado que deu origem ao livro, padre João Lourenço, começou por destacar o “mérito” do trabalho em oferecer um tema de “atualidade, eclesial e social”. “O tema da esperança é, geralmente, um tema que está na ordem do dia, não pela abundância da esperança que existe no mundo, mas pela carência da esperança que se nota”, salientou o professor catedrático da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. A opção do autor pela figura de Paulo, para transmitir “a busca dos fundamentos da verdadeira esperança cristã”, não podia ser melhor. “Não podíamos escolher melhor do que a figura de Paulo que, pela profundidade do seu pensamento, foi buscar e soube transmitir essa esperança que é dada e é testemunhada a partir da figura de Abraão, uma figura que marca atualmente o judaísmo e a tradição bíblica”, salientou este sacerdote, destacando o “rigor” do trabalho, “muito aprofundado na pesquisa, muito bem escrito, claro e de agradável leitura”. “Não existe fé sem esperança, como também não existe esperança sem fé. É dessa fé e dessa esperança que estamos aqui a falar”, concluiu o padre João Lourenço.

 

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O livro ‘Uma esperança para além de qualquer esperança’, da autoria do padre Tiago de Quadros Esteves, foi publicado pela UCEditora e está à venda na Livraria da Universidade Católica Portuguesa ou em www.uceditora.ucp.pt.

 

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O padre Tiago Esteves nasceu em 1993. Frequentou os Seminários de Caparide e dos Olivais e realizou o percurso formativo do Mestrado Integrado em Teologia na Universidade Católica Portuguesa. Foi ordenado sacerdote em 2018 e é atualmente coadjutor nas Paróquias de Santa Maria dos Olivais e Nossa Senhora da Conceição de Olivais Sul, em Lisboa. Prossegue os estudos teológicos no Curso para Doutoramento, com investigação a respeito do diálogo entre teologia e ciência.

 

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“Recomendo vivamente a leitura deste belíssimo trabalho do Padre Tiago Esteves. Belo porque revela muita maturidade de pensamento e de escrita. Mas belo, sobretudo, pela oportunidade que ganha como afirmação de esperança, no sentido pleno que São Paulo lhe encontrou na ressurreição de Cristo. Só por nós, na vida pessoal e social, eclesial mesmo, poderíamos desistir. A experiência de Cristo vivo, como Paulo a teve e nós compartilhamos, leva-nos a recomeçar sempre e só a partir do Ressuscitado. A leitura destas páginas fará muito bem a todos!”

D. Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca de Lisboa

 

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“Este é um dos melhores trabalhos produzidos na Faculdade de Teologia nos últimos anos. E que escolheu explanar um dos temas fulcrais para qualquer hora do cristianismo: a esperança. Recomendo-o vivamente.”

D. José Tolentino de Mendonça, Arquivista e Bibliotecário da Santa Sé

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