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Pe. Alexandre Palma
Vazio cheio

«Região do espaço com um campo gravitacional tão intenso que nenhuma matéria ou radiação lhe pode escapar». É isto um buraco negro, numa definição simples de dicionário. Há não muito, por uns dias, essa realidade distante tornou-se-nos próxima. Graças a um meritório trabalho de equipa, vimos a primeira fotografia de um buraco negro. Contagiados pelo entusiasmo dos cientistas, fomos provocados a saber um pouco mais a seu respeito e, sobretudo, a encantarmo-nos com os mistérios do universo.

Na origem do cristianismo, no coração da Páscoa, está também um buraco negro. Não é o buraco negro da morte, mas o do sepulcro vazio. Este, mais do que prova, foi sinal e sintoma. Antes de tudo, foi observação: não está aqui. Mas, logo, foi interpelação: onde está então? Assim se iniciou um caminho desenhado por uma possibilidade impensada: afinal aquele vazio não é vácuo, mas plenitude; não é escuridão, mas fonte de luz; não é mudez, mas silêncio eloquente. Aquele sepulcro, afinal, estava cheio porque se achava vazio. Era essa ausência que o preenchia e fazia extravasar de sentido. Sob a aparência do seu contrário, nele habitava a incomensurável densidade da vida que atraiu e iluminou todos os que desse túmulo aberto se aproximaram.

Não quero aqui ensaiar nenhuma forma de concordismo, ou seja, uma qualquer associação fácil entre esses buracos negros que os cientistas descortinam nos céus e o sepulcro que os discípulos de Jesus descobrem vazio. Um e outro são de naturezas radicalmente diferentes e, sobretudo, resultam de observações de índole diversa – que, aliás, convém não confundir. O registo, aqui, procuro que seja apenas sapiencial. Não é, com efeito, a natureza dessas duas realidades que legitima a sua associação. É sim o facto de, apesar de tudo isto, um e outro ensinarem coerentemente o mesmo: há vazios que estão cheios. Algo que nos custa aprender e reconhecer, porque nos parece quase sempre contra-intuitivo. Mas é muito interessante esta lição que nos vem das coisas do cosmo: a profundidade dos buracos negros não resulta da ausência de massa, mas antes do seu excesso. Interessante para quem segue Jesus, porque no seu sepulcro encontra algo semelhante: um vazio que percebe ser plenitude. Como se encontra também, em ambos, um efeito análogo. Esses aparentes vazios são profundamente atractivos. Num caso, atraem tudo quanto entra no seu campo. No outro, todos aqueles que (a)correm interpelados pelas testemunhas do túmulo vazio. Assim, o que preenche esse vazio já não é apenas o excesso que o habita, mas também aqueles que a ele são atraídos. E então, sob uma outra forma ainda, se confirma aquilo que faz da Páscoa uma revelação da realidade: o vazio está cheio!