Entrevistas |
Aura Miguel, jornalista da Renascença, que completou a 100.ª viagem papal
“A vida da fé está sempre em on, não está em pausa quando estou a trabalhar”
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Queria ser diplomata para poder viajar. Aura Miguel cumpriu o sonho de percorrer o mundo, mas fê-lo acompanhando de perto três Papas – João Paulo II, Bento XVI e Francisco –, ao longo de 100 viagens. “Tenho uma gratidão enorme de ser testemunha, na primeira linha, das prioridades do Sucessor de Pedro para os nossos tempos”, garante, ao Jornal VOZ DA VERDADE, a jornalista da Renascença que, uma vez mais, foi surpreendida pelo Papa Francisco.

 

Licenciou-se em Direito, mas acabou no mundo do jornalismo. Como tudo começou?

Eu acho que não foi acabar no jornalismo, foi começar! O único plano que fiz foi, com o curso de Direito, ir para diplomata porque se viaja muito na carreira diplomática. Afinal, pelas circunstâncias concretas do facto de o exame de admissão ao Ministério dos Negócios Estrangeiros estar fechado – era preciso esperar mais dois anos –, surgiu a hipótese de trabalhar na Rádio Renascença, mas foi uma hipótese que eu própria achei que ia ser uma espécie de hobby, para poder dizer mais tarde, quando fosse embaixadora, que já tinha feito uma experiência de rádio. Afinal, na década de 80, cheguei e fiquei tão entusiasmada que percebi, naquele tempo de experiência, que me dava bem com a adrenalina e que o desafio da rádio era fascinante, porque é o oposto do Direito: é preciso sintetizar, de preferência em menos de um minuto, qual é a questão fundamental para transmitir. Portanto, comecei a fazer jornalismo normal, nem era seguir o Papa, só que, na altura, João Paulo II inaugurou este hábito de viajar pelo mundo e coincidiu com o facto de eu estar disponível e decidirem enviar-me uma vez e, desde então, nunca mais parei. Fui enviada pelo meu diretor da altura, o Dr. João Amaral, que me perguntou se eu tinha o passaporte em dia – o meu coração até bateu mais forte! – e me diz: ‘Amanhã é melhor ir à embaixada da Polónia tratar do visto’.

 

A primeira viagem a bordo do avião do Papa foi então à Polónia, de 8 a 14 de junho de 1987. O que mais guarda dessa visita?

Foi uma aventura, porque ainda era regime comunista e era preciso fazer uma entrevista com o representante da embaixada... mas começou tudo ali. Perceber como a presença do Papa, naquela circunstância concreta, motivou uma adesão fora de série. Era um país com problemas de liberdade religiosa, em que o cardeal Wojtyla tinha sofrido repressão e proibição de fazer procissões com a imagem de Nossa Senhora de Czestochowa, padroeira da Polónia – que ele fez à mesma, com a moldura vazia –, mas era uma experiência que nós nem sonhamos neste momento. Não havia telefones, não havia telemóveis e fazer uma chamada, por dia, nessa altura, já era uma aventura. Por vezes, tínhamos que esperar mais de uma hora e pedir autorização internacional da polícia de Varsóvia, que tinha escutas para perceber o que transmitíamos. Lembro-me que, na sala de imprensa, nós éramos de várias nacionalidades e havia polacos parados, sentados perto de nós, e depois percebi que eram homens da língua dos jornalistas. Um desses, de tanto o ver ali, uma vez aproxima-se de mim e mete conversa em português. Portanto, percebi que ele era um homem do regime e que estava a controlar o que enviávamos. Foi uma aventura fascinante, eu era jovem e tinha imenso espírito de aventura, só nunca imaginei que depois, na próxima visita do Papa, à América Latina, voltassem a enviar-me. E foi até hoje!

 

Conheceu bem de perto três Papas, São João Paulo II, o Papa emérito Bento XVI e agora o Papa Francisco. Consegue descrevê-los brevemente e apontar a importância de cada um para a Igreja?

São riquíssimos, cada um deles, sobretudo o Papa João Paulo II, que foi Papa durante muitos anos e que me marcou muito. Eu comecei a acompanhá-lo em 1987 e o pontificado dele acabou em 2005. Portanto, grande parte da minha vida, na idade jovem e adulta, foi de olhos fixos num santo. E um santo multifacetado, porque ele é que introduziu verdadeiramente este arejamento na maneira de ser Papa, porque continuou a praticar desporto, continuou com esta vitalidade, mesmo com a doença e com a idade, a manter-se jovem e a tomar a sério as inquietações e o desejo de felicidade dos jovens – de tal forma, que criou a Jornada Mundial da Juventude e inventou um novo estilo de ser Papa. Isso marcou-me imenso, além do facto de ter estado pessoalmente com ele várias vezes. Fátima tinha tudo a ver com o pontificado de João Paulo II e o facto de eu ser a única portuguesa a bordo também ajudou. Para mim, ainda mais importante que tudo isto foi quando me inseriram no grupo de jornalistas que escreveram as meditações da Via Sacra no Coliseu, em 2002, já com o Papa muito doente. Foi o momento ‘chave’ para o processo de amadurecimento da minha própria vida de fé, seguindo os passos de João Paulo II. Mas naquele momento, foi mesmo dar-me conta de que aquele homem era o campeão no amor a Jesus. Esse é o critério a partir do qual, desde então, olho para os Papas.

Depois, vem o segundo, Bento XVI, completamente diferente do primeiro, mais idoso, tímido, com uma cabeça muito bem organizada e que depois da poeira que João Paulo II levantou era importante termos um Papa – pelo menos, vejo isso à distância – que nos ajudasse a alargar o horizonte da razão e a perceber que fé e razão não são incompatíveis, pelo contrário. Quanto mais o horizonte da razão estiver escancarado, mais eu chego à fé. Portanto, as motivações racionais de adesão à fé foram trazidas por Bento XVI e isso foi de uma grande utilidade. Infelizmente, foi um Papa muito mal-amado pelos média e muitos dos opinion makers não gostavam dele, mas verdadeiramente eu considero que não o conheceram a fundo. Está muito ainda por aprender, e da utilidade atual, daquilo que ele sistematicamente ensinou, avisou e alertou. Percebemos como Bento XVI, olhando para a realidade toda, viu que conduzir a Igreja implicava um grande desgaste e uma energia que ele já não tinha. O culminar dessa lucidez foi exatamente abdicar, com uma grande liberdade. Bento XVI deu espaço a esta força da natureza [o Papa Francisco], que do ponto de vista humano é avassalador. Eu própria sou testemunha. Já tinha sido testemunha, porque o jornalista o que quer do Papa é uma entrevista e eu pensei: ‘É ridículo, nós somos 70 a bordo de um avião, todos querem a mesma coisa’. Mas decidi arriscar e, por ter arriscado, aconteceu que ele me entregou a resposta em mão e combinámos uma entrevista que foi de uma hora e foi uma coisa maravilhosa.

 

No voo de regresso da visita à Bulgária e à Macedónia do Norte, que marcou a sua 100.ª viagem no avião papal, o Papa Francisco ofereceu-lhe rosas da Bulgária. Este gesto surpreendeu-a?

Foi inimaginável! Era uma viagem de três dias e, logo no arranque, o Papa ficou surpreendido com a notícia e foi bem simpático, já nessa altura, dizendo: ‘Aproveita bem esse centenário e desejo-te outras tantas viagens’. Para mim, já estava suficientemente reconfortada com as palavras do Papa; mas, para meu espanto, na viagem de regresso, ele faz esta surpresa que ainda me deixa mais ‘sem tapete’. É de uma gratidão impressionante. Como é que ele terá feito, para dizer ao seu staff: ‘Arranjem uma prenda para lhe dar’, e que não foi um Rosário – que ele tem –, numa caixa mais bonita, mas quis dar-me como prenda uma caixa de rebuçados com rosas. É uma coisa extraordinária e fez isso daquela maneira tão surpreendente, que me caíram os queixos. O Papa, que no início do pontificado apelou à dimensão da ternura, ele próprio dá o exemplo, e de que maneira! E eu sou ‘vítima’, no bom sentido, da ternura do Papa Francisco.

 

O que procura transmitir, durante as viagens papais?

O primeiro passo, antes de entrar em antena, é mergulhar na realidade. Perceber o ambiente, a cor, as sensibilidades, ir aos locais, ver a cara das pessoas. Tudo isso é fundamental para perceber, senão não vale a pena ir. Há sítios mais fáceis que outros, depende quando são países mais calorosos que outros… por exemplo, na Estónia, que é considerado um dos países mais ateus do mundo, não consegui abordar ninguém na rua para falar comigo. Isso também dá para refletir qual o ambiente onde o Papa está nesse momento. Aprende-se muito olhando e absorvendo a realidade. Muita observação conduz à verdade. Depois, tenho que fazer um esforço de síntese, que é olhar os fatores da realidade e fazer uma seleção daqueles que acho mais fundamentais. Aí, joga-se a pessoa e pode ser muito subjetivo. Muitas vezes acontece que escolho como fatores decisivos para contar uns tantos e as agências mundiais e os grandes média escolhem outros que, muitas vezes, são os mais jornalísticos. Lembro-me perfeitamente que numa viagem de João Paulo II, já com ele muito doente e limitadíssimo, as televisões a única coisa que mostraram foi a fragilidade do Papa. Isso chocou-me verdadeiramente. Procuro sempre olhar para a realidade, para a totalidade dos fatores, e escolher aquilo que é mais conveniente e justo. Não é branquear. Se há problemas, se há manifestações, também sou chamada a dizer que é uma viagem que não é fácil por isto e por aquilo. Ainda agora, na Bulgária, os ortodoxos não alinharam com as iniciativas ecuménicas e isso eu contei. Mas o Papa foi acolhido amigavelmente e deixaram-no rezar, em silêncio, dentro do túmulo de São Cirilo e São Metódio. Somos chamados a contar a verdade e a verdade vos libertará, vem no Evangelho. A libertação é exatamente não sermos nós a achar que somos o critério. Há um critério que é objetivo maior que nós, que é o da realidade que Deus nos dá.

 

Nos vários momentos e celebrações das viagens, consegue rezar?

Sim, rezo imenso. Obviamente, tenho, e quero, ler tudo o que o Papa diz. Muitas vezes, leio também para mim. Ele está a falar para os húngaros ou para os de Myanmar, mas está a falar de Nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, alguma coisa também é para mim. Mesmo quando são encontros com Bispos ou religiosas, há perspetivas na maneira de falar da fé, dos problemas da fé nos nossos tempos, que são úteis. A vida da fé está sempre em on, não está em pausa quando estou a trabalhar. Por vezes, pode acontecer um momento de comoção ou um momento de perceber ‘que bonito está a ser’ e dou graças a Deus por causa disso. Tenho uma gratidão enorme de ser testemunha, na primeira linha, das prioridades do Sucessor de Pedro para os nossos tempos. Por isso é que, sempre que posso, quando me convidam, aceito falar do que é viajar com o Papa.

 

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Mensagem vídeo do Cardeal-Patriarca

É com muito gosto que me associo a esta feliz comemoração das 100 viagens papais que a Aura Miguel acompanhou, com tanto profissionalismo, com tanto entusiasmo e que tão importantes são, na missão dela, como jornalista, e da Rádio Renascença, como emissora católica portuguesa, para os seus ouvintes e até além deles. Porque se trata de ligar este percurso profissional, quase vocacional, de Aura Miguel, com a missão da emissora católica e com a própria missão do Santo Padre. Os Papas sucessivos que a Aura Miguel tem acompanhado por todo o mundo e que, desta maneira, podemos dizer, melhor realizam aquele que é o seu papel na Igreja, no centro da comunhão eclesial, como Bispos de Roma, Sucessores de Pedro, confirmadores da fé dos cristãos, que poderiam ficar menos conhecidas, estas ações papais, se não fossem transmitidas e se não fossem depois explicadas até, e comentadas, por pessoas com a competência que a Aura Miguel revela e que nos tem sido tão útil, tão proveitosa em termos de Igreja, em termos de sociedade. Portanto, estão aqui elementos – o seu percurso biográfico e profissional, aquilo que é a missão da nossa emissora católica e o que é a própria missão que o Santo Padre, como Bispo de Roma e Pastor universal, leva por diante – que, conjugados, têm muito boa consequência, certamente, na vida de todos nós, os crentes, os católicos e não só, e realça-se de uma maneira tão feliz aquilo que a Igreja tem para oferecer ao mundo, também desta maneira, desta feliz maneira. Parabéns Aura Miguel!

D. Manuel Clemente, num vídeo transmitido durante a homenagem da Renascença a Aura Miguel, na tarde do dia 13 de maio

 

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A jornalista da Renascença Aura Miguel cumpriu, neste mês de maio, a 100.ª viagem a bordo do avião papal. “Com João Paulo II, foram 51 viagens, em 104, com Bento XVI, foram todas as 24 viagens, e com o Papa Francisco são as que faltam para as 100, portanto 25 – acompanhei todas, exceto Genebra, Estrasburgo, Lesbos e Abu Dhabi”, revela a vaticanista.

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