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P. Gonçalo Portocarrero de Almada
Ao colo da melhor Mãe do mundo

Foi há alguns dias que, na espaçosa capela de um colégio, presenciei uma cena que me deu que pensar. Celebrava, como habitualmente, a eucaristia das 8h e 10m da manhã, a que assistem alguns alunos, professores e pais, estes últimos aproveitando a sua ida à escola para deixar os filhos.

Entre a assistência, variada mas não muito numerosa, chamou-me a atenção uma senhora ainda nova, que se fazia acompanhar por vários filhos, com idades entre os dois e seis anos. Uma das mais pequeninas dessas crianças, ainda de palmo e meio, insistia em sentar-se ao colo da mãe, apesar da abundância de lugares disponíveis. Naquele momento, pareceu-me abusiva aquela sua atitude, mas não era caso para fazer uma chamada de atenção pública, não só porque seria despropositada, mas também porque teria sido desagradável para a pequenita e também para a sua progenitora.

O que não me atrevi a dizer em voz alta, sussurrei, contudo, na minha oração a Jesus:

- Já viste, Senhor, a pieguice daquela pequenita?! Que mimada! Há tantos lugares vagos e foi logo sentar-se ao colo da mãe!

Mal tinha terminado a minha queixa quando me dei conta de que, na imagem de Nossa Senhora desse oratório, o Menino Jesus está muito bem instalado … nos braços de sua Mãe! Escusado será dizer que enfiei a carapuça, ao mesmo tempo que me senti uma espécie de Dom Camilo resmungão, a quem Nosso Senhor teve que responder à letra. Afinal, era ela, a pequenita, que tinha razão, segundo o ensinamento dos Evangelhos: “Em verdade vos digo: Se não voltardes a ser como as criancinhas, não podereis entrar no Reino do Céu” (Mt 18, 3).

Nas suas deliciosas Memórias, a Irmã Lúcia recorda que, quando era ainda muito pequena, pensava ingenuamente que a sua mãe era a melhor do mundo. Por isso, quando perguntava às suas companheiras de brincadeiras como eram as suas mães, atalhava sempre, sem qualquer tipo de presunção ou orgulho, que a sua era a melhor do mundo.  Não errava na sua apreciação porque, com efeito, como cada um de nós só tem uma mãe, essa é, para o filho, necessariamente, a melhor do mundo. Pode não ser a melhor pessoa da humanidade, nem a mais perfeita mulher à superfície da terra, mas como mãe é, sem dúvida, a melhor do mundo para os seus filhos.

Tinha sido o pai da Lúcia que lhe ensinara a amar assim a sua mãe. Agora que tanto se fala, infelizmente, de violência doméstica – só no que vai de ano, há já a deplorar 11 vítimas mortais! – mais necessário é que os maridos sejam, para os filhos, uma lição de que as suas mães são as melhores do mundo, pelo exemplo do seu amor filial e esponsal. Que cada filho o saiba, não apenas porque alguém o diz, mas porque vê o carinho, respeito, gratidão e admiração como a sua mãe é tratada pelo pai e, também, como os seus pais tratam os avós! Quantos casos de violência doméstica, contra os pais e avós idosos, não têm criminosos antecedentes em episódios de abandono dos mais velhos, de violência doméstica ou de falta de carinho e respeito nas relações conjugais!

Concluída a celebração da Missa, voltei a lançar um olhar para aquela pequenita, já não com a reprovação do início, mas com compreensão e – porque não dizê-lo?! – uma pontinha de inveja … Teria desejado também eu permitir-me aquele luxo há já muitos anos perdido mas, como dissera o velho Nicodemos a Jesus de Nazaré: “porventura poderá [alguém] entrar no ventre de sua mãe outra vez, e nascer?” (Jo 3, 4).

Beijado o altar e feita a genuflexão ao Santíssimo Sacramento, antes de me retirar para a sacristia, lancei um olhar, que era uma oração, para a imagem de Nossa Senhora:

- Neste mês de Maria, peço a Jesus que me deixe sentar no outro braço da sua e nossa Mãe do Céu. E, a Nossa Senhora, supliquei que me concedesse a graça do seu colo, para que, junto ao seu Coração Imaculado, aprenda a amar Jesus e, em Cristo, todos os meus irmãos.