Entrevistas |
Ana Jorge, diretora da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa
Os desafios “não nos devem retirar do presente e desta capacidade de o vivermos plenamente”
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A diretora da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (UCP) fala, ao Jornal VOZ DA VERDADE, dos “múltiplos desafios” da instituição que completa 50 anos e aponta o estudo da Teologia, cada vez mais procurado por leigos, como uma “mais-valia” para uma “leitura crítica da nossa contemporaneidade”.

 

A Faculdade de Teologia da UCP completa 50 anos. Que papel tem tido a faculdade na formação dos leigos e candidatos ao sacerdócio?

A Faculdade de Teologia tem vários ciclos de estudo. No caso da formação dos candidatos ao sacerdócio, os ciclos de estudos em Teologia são os necessários para a formação. Nesse sentido, a faculdade tem prestado esse serviço, ao longo destes 50 anos. Evidentemente que, mesmo esses ciclos em Teologia, não se têm restringido apenas aos candidatos ao sacerdócio e aos ministros ordenados, mas também a alguns leigos. E, nestes 50 anos, foram muitos os leigos que foram passando pela Faculdade de Teologia para frequentar os ciclos em Teologia. Depois, temos os ciclos em Ciências Religiosas. Aí, a formação de leigos tem sido mais numerosa, mas não quer dizer que também não tenhamos religiosos ou religiosas a frequentarem esses ciclos, nomeadamente aqueles que ensinam nos colégios católicos.

 

Tem notado um crescimento no interesse pela oferta formativa da faculdade, por parte de alunos que não estão ligados a seminários?

Tenho notado que a formação que a Faculdade de Teologia possibilita, através dos seus ciclos de estudo, que dão graus, e através, até, da formação avançada, tem evidenciado um aumento da procura nos últimos anos. E uma procura por parte de leigos empenhados, pessoas que, em movimentos ou paróquias, ou mesmo na sua vida profissional, anseiam por uma complementaridade entre os saberes e, às vezes, uma complementaridade com os seus saberes, com aqueles que cultivam no dia-a-dia, nas suas profissões. Temos licenciados e até doutorados em Direito, Medicina, Gestão...

 

O que pode estar a despertar esse interesse pela Teologia?

Desde há 30 anos, o número de leigos tem aumentado, mas essa procura já existia, embora não fosse uma procura, à época, tão significativa quanto a procura que existia noutras partes da Europa, por exemplo. Hoje, talvez estejamos mais a par dessa procura geral que o resto da Europa já conhecia. Essa relação entre a Faculdade de Teologia, a Igreja e a sociedade que, noutros países era muito estreita, digamos que aqui se tem desenvolvido, ao longo das últimas décadas.

 

Para essa relação entre Faculdade de Teologia, Igreja e sociedade, que contributo pode trazer o estudo da Teologia?

Os estudos teológicos são uma mais-valia para uma leitura, em chave cristã, mas não só. Para uma leitura crítica da nossa contemporaneidade, eu penso que os estudos teológicos habilitam-nos a uma abertura, a uma capacidade de leitura dialogante com os outros saberes, com a própria sociedade. Isso parece-me uma mais-valia e algo extremamente importante.

 

Recentemente, referiu que o desafio da Faculdade de Teologia passa pela internacionalização. Como é que esse objetivo pode ser alcançado?

A internacionalização é um desafio do meio universitário português e da Universidade Católica, em particular, e da Faculdade de Teologia dentro da Universidade Católica. Portanto, é um processo que precisa de tempo. Não é novo e a própria Faculdade de Teologia já, há vários anos a esta parte, na relação com outras instituições de ensino universitário, noutros horizontes geográficos internacionais, tem vindo a desenvolver atividades, ao nível do centro de estudos, seminários internacionais e da lecionação. Esse tipo de relação nós queremos, de facto, intensificá-la. Portanto, há protocolos Erasmus... Eu própria fui à Polónia, o professor Peter Stilwell, no tempo de diretor, também. Na área da lecionação, temos um intercâmbio com universidades polacas, tem havido um intercâmbio com universidades francesas, Paris, Toulouse, temos protocolos com o Brasil... É claro que essa internacionalização exige um cuidado sempre muito grande, no dia-a-dia porque as relações têm que ser cultivadas, estimuladas e tem que haver iniciativas que as concretizem. Não basta assinar protocolos, temos que lhes dar corpo.

Fala-se muito da internacionalização no que diz respeito a protocolos e da relação com o exterior, com outras universidades, mesmo que elas venham até nós através de seus docentes, mas a própria Faculdade de Teologia tem um grande número de alunos estrangeiros e isso dá-lhe uma dimensão cosmopolita muito grande, que tem muito a ver com essa dimensão internacional das congregações e institutos religiosos hoje em dia.

 

Foi nomeada diretora da Faculdade de Teologia em dezembro de 2018, sendo a primeira leiga a assumir este cargo. Este é também um sinal da importância do papel dos leigos na Igreja?

Sem dúvida. É uma importância crescente que cria responsabilidade de parte a parte, isto é, da parte da instituição – que acredita e investe nos leigos – e da parte de cada um de nós, que, como leigos, queremos dar o nosso melhor. A Faculdade de Teologia, nisso, tem sido pioneira. Sempre encontrei, na Faculdade de Teologia – e já cá estou há cerca de 30 anos –, uma grande abertura a um trabalho em complementaridade, com os leigos, quer no centro de estudo, quer na própria faculdade.

 

Na sua missão como diretora, quais os principais desafios que encontra?

Os desafios são múltiplos. Claro que podia ir ao plano estratégico 2015/2020 e redizer tudo aquilo que nós considerámos como desafios para os próximos anos: o da internacionalização, o da relação com as outras unidades de ensino no seio da UCP, na qual prestamos um serviço de cooperação muito interessante, não só ao nível do ‘Cristianismo e Cultura’, que é a unidade curricular que a Faculdade de Teologia assegura nas diversas faculdades e queremos continuar a assegurar, com qualidade.

Queremos avançar para graus que possamos fazer, cada vez mais em complementaridade com as outras unidades internas e externas, estreitar os laços com instituições universitárias portuguesas, que temos vindo a desenvolver e queremos continuar.

Internamente, estreitarmos os laços ao nível da própria comunidade académica que somos. Portanto, estudar, investigar, não pode perder de vista a dimensão da convivência. Não pode haver estudo e relação se não houver uma sã convivência. Um desafio também é este, o de recriarmos o tempo e termos tempo para podermos também, com os alunos, com os colegas, criar ritmos de trabalho, de estudo, de relação.

São múltiplos os desafios. O maior desafio, para mim, que congrega todos estes, é o da atenção ao quotidiano e ao presente. Possivelmente, pela minha formação profissional – venho da História –, considero muito importante o valorizar os processos e o caminho inerente a esses processos. Não faltam desafios. Se eles nos devem projetar para o futuro, não nos devem retirar do presente e desta capacidade de o vivermos plenamente.

 

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‘Livro-vitral’, de Mário Linhares

O artista português Mário Linhares criou uma aguarela dedicada à comemoração dos 50 anos da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. A obra foi utilizada nos diferentes suportes de comunicação da iniciativa. Apresentamos a memória descritiva.

“É um livro, um lugar de estudo, ainda que pareça codificado pelas formas inspiradas nos vitrais das Sés de Braga, Porto e Lisboa. É preciso o filtro certo para entender como as páginas apontam para fora do próprio livro numa leitura que ganha leveza, conforme as cores enunciam, alimentando continuamente uma relação entre o interior e o exterior. Se a luz que entra no espaço arquitetónico, filtrada pelo vitral, ilumina e da cor ao nosso mundo, o oposto também se verifica: o nosso trabalho/estudo pode iluminar a presença de Deus no quotidiano de quem nos rodeia.”

 

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D. José Tolentino evoca Simone Weil, nos 50 anos da Faculdade de Teologia

O atual responsável pela biblioteca e o arquivo da Santa Sé, D. José Tolentino, evocou, no Dia Nacional da Faculdade de Teologia, a pensadora Simone Weil, numa conferência em que se assinalou os 50 anos da instituição. “Há grandes textos que encontramos na vida e que não devem pacificar-nos”, lembrou o antigo diretor da Faculdade Teologia, que enunciou alguns pontos sobre o valor do estudo e a “alegria de aprender, tão indispensável, como o respirar para os atletas”.

O bibliotecário e arquivista da Santa Sé fez questão de trazer um presente, o fac-simile da bula do Papa João XXIII que convoca o Concílio Vaticano II e que também “inspira a fundação desta Faculdade de Teologia”, disse. “No primeiro dia em que tomei posse do arquivo, ofereceram-me um presente, mas é claro que, no primeiro dia, esses presentes não são nossos, ainda não fizemos nada para merecer o presente. São aqueles de onde viemos que devem ser premiados, porque eles é que nos fizeram”, afirmou o bispo português.

texto por Renascença

 

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A Teologia é “um lugar total”

No Dia Nacional da Faculdade de Teologia, o Magno Chanceler da Universidade Católica Portuguesa (UCP) referiu que “a Teologia é uma ciência, no seu exercício reflexivo, mas é um lugar total porque na vivência e convivência das nossas escolas continua aquela base evangélica em que Deus acontece. Porque acontece, pode ser refletido”, salientou o D. Manuel Clemente, na Missa no passado dia 17 de maio, na Igreja da Graça, em Lisboa, que assinalou a efeméride.

Na homilia, o Magno Chanceler da UCP defendeu ainda que existe muito “para aprender e transmitir”. “É nesse sentido que numa Faculdade de Teologia, onde há vida do povo cristão, também há lugar teológico. Com certeza, pela Escritura que se ensina, certamente pela reflexão dos padres e da Teologia, ao longo dos séculos, certamente pela oração cristã e litúrgica, certamente pela história da Igreja (...), mas com essa base da nossa convivência diária, em tudo aquilo que faz a vida de uma escola, onde nós nos encontramos e encontramo-nos, criamos esse ambiente, que foi o primeiro, em que as cenas evangélicas se desenrolaram e paradigmaticamente se continuam a desenrolar também”, apontou D. Manuel Clemente.

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