Missão |
Liliana Ribeiro Félix, do Grupo Grão
“Só o amor pode realmente tudo”
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Liliana Ribeiro Félix nasceu a 26 de fevereiro de 1993, em Mafamude (Vila Nova de Gaia). É licenciada em Educação Básica pela Universidade de Aveiro e mestre em Educação Pré-Escolar e Ensino do 1º Ciclo do Ensino Básica, pela ESE do Instituto Politécnico do Porto. É membro do Grupo Grão e, em 2018, esteve em missão por dois meses em São Tomé e Príncipe.

 

Liliana trabalha como Educadora de Infância e sente que “não poderia ser mais nada na vida, é uma forma simples e nobre de servir e ser amor na vida de alguém”. É, também, vice-diretora e responsável pela formação do projeto de voluntariado O Grão. Lembra-se que “desde sempre” sentia uma enorme vontade de partir em missão, sair da sua “zona de conforto e descobrir o mundo” tendo inúmeras vezes verbalizado que quando terminasse o curso iria trabalhar para África, o que a fez estar sempre atenta a oportunidades que permitissem realizar este sonho. Em 2016, chegou até ao Grão “após ouvir falar sobre o projeto pela voz de uma amiga que já tinha partido em missão. Conto sempre esta história porque o que me fez realmente ir à noite de arranque não foi apenas a minha vontade, foi também o amor e o brilho nos olhos com que ela falava do assunto.” Sentia que havia algo de especial no projeto e que precisava de descobrir por si mesma o que era. Ao longo do percurso (formações eventos, reuniões de angariação de fundos, etc.) a vontade de ficar “foi aumentando e foi o suficiente para nunca desistir. Isso e as pessoas. É impossível falar do Grão e de toda a experiência sem me lembrar de todos aqueles que partilham este percurso comigo. São a certeza de que Deus nos fale através de quem envia para dividir a vida connosco!” Diz que o ano de formação é exigente e pede muita disponibilidade, mas que vale a pena porque confronta cada um com “temáticas e realidades que, no stress do dia-a-dia, não iriamos parar para pensar. Pede-nos muito que estejamos atentos e nos mantenhamos à escuta. A par disso, oferece-nos uma experiência espiritual que só posso descrever como transformadora.”

Por fazer parte de uma família católica, sempre foi educada nesses valores. Fez todo o percurso de catequese e frequentemente acompanhava o seu pai, um membro do grupo coral da igreja local. Mas, no momento de entrada no Grão, confessa-se “zangada com Ele, pois não fazia para mim sentido que ‘o todo-poderoso’ me tivesse tirado o que de melhor tinha na vida. Eu sabia quem era Deus, mas nunca lhe tinha tocado o rosto. Nunca O tinha deixado tocar-me por inteiro. Com o acompanhamento espiritual, a participação ativa nas atividades do CREU-IL, as orações comunitárias propostas pelo projeto e a constante partilha com os padres jesuítas, consegui (re)construir uma relação sólida e assente no que verdadeiramente importa: o amor. Foi nesta descoberta que percebi que a minha missão passa muito por ser esta coisa tão simples, tão genuína e que nos liga a todos, mas que muitas vezes, fechamos na gaveta e não deixamos que nos oriente”, partilha.

 

“Regressar é carregar a enorme vontade de voltar a partir”

Em maio de 2017, ao mesmo tempo que lhe era dada a oportunidade de partir em missão, foi-lhe diagnosticada uma doença autoimune que não o permitia. Sentiu-se, mais uma vez, “frente-a-frente com Deus” questionando qual a vontade d’Ele para a sua vida. Entende, agora nesta distância, as coisas que lhe causavam dúvidas e medo e que se sentiu “muito acompanhada por Ele: reconheço-me como uma pessoa forte, mas nunca tinha conseguido ultrapassar determinadas circunstâncias se não me tivesse levado ao colo e tenho ainda a plena noção de que fui salva pelo seu amor, ao qual me agarrei quando não sabia mais o que fazer e ao que fui recebendo, pelas mais variadas formas, por todos aqueles que me deram a mão”. Em setembro de 2017, regressa ao Grão, mostrando a sua disponibilidade para refazer o percurso, “refazer e não repetir”.

Em julho de 2018, partiu em missão por dois meses para Guadalupe (São Tomé e Príncipe) com mais cinco “maravilhosos corações” e partilha: “É ainda muito difícil expor por palavras tudo o que senti e vivi em Guadalupe, porque nunca nada que diga ou escreva fará jus ao que realmente aconteceu. Partir e viver em missão é ser-se desafiado, todos os dias, a fazer algo bem maior do que as capacidades que julgamos ter, mas no fim constatar que pelo simples facto de o fazermos, numa comunhão perfeita com Deus, tudo dá certo. Os dois meses numa ilha que se ergue entre o azul do mar e o verde da florestação, mostraram-me o quanto é fácil viver uma vida em simplicidade, o quanto conseguimos ser melhores se olharmos quem nos rodeia com empatia e bondade, o quanto estar e ser é bem mais recompensador do que qualquer bem material e o quanto podemos fazer tanto, com tão pouco. É ver nos olhos de cada pessoa que se cruza connosco a dureza da vida, mas um sorriso que apazigua qualquer mágoa porque ‘só Deus basta’. É o saber-se que não temos tudo, mas o tudo que temos é essencial para sermos felizes. Estes dois meses foram a oportunidade de viver uma vida focada no outro, sem distrações, num convite diário a deixar de lado os óculos que não nos permitem encarar a vida como uma dádiva. É descobrir que casa não é só o espaço entre quatro paredes onde partilhamos a vida com a nossa família, mas que também pode ser um estado de espírito, um abraço apertado ou um lugar que fica para sempre gravado na memória. Como poderia eu, ao final de dois anos, nunca ter olhado para o logótipo do projeto e reconhecer que as mãos que seguram os grãos são as de Deus e, aos olhos de uma criança, isso ser tão óbvio? Se fechar os olhos ainda consigo sentir a brisa quente a bater-me na cara, consigo ouvir o “bom dia”, o aperto de mão, a sensação de carregar uma criança às costas para que pudesse descansar os seus pés descalços; se fechar os olhos ainda consigo ouvir o ruído de um povo que não se verga a qualquer tempestade, que se faz forte na sua união e nos absorve no seu espírito leve-leve. Estaria a mentir se não dissesse que o maior desafio de todos é voltar e manter as lentes focadas no essencial. Regressei muito diferente da Lili que partiu, mas tudo o que deixei estava exatamente igual e é esse choque que nos abana. Regressar é saber que carregarei, para sempre, a responsabilidade de ser simples. Regressar é carregar a enorme vontade de voltar a partir, de construir novas casas e seguir na certeza de que pertencemos ao Mundo. Regressar é constatar que só o amor pode realmente tudo, pois é a única coisa que cresce na medida em que se dá.”

texto por Catarina António, FEC | Fundação Fé e Cooperação
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