Missão |
Conceição Pereira, do Projeto SABI
“Todos unidos dando cada um o seu melhor”
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Conceição Pereira nasceu na cidade do Lobito (em Angola), a 29 de Setembro de 1956. É membro do Projeto SABI graúdo e já participou em vários campos de trabalho.

 

Até 1975, estudou na sua “cidade natal”, no Colégio de Santa Doroteia e mais tarde no Liceu Almirante Lopes Alves. “Fui marcada pela partida precoce da minha mãe, em Janeiro de 1974, quando tinha apenas 17 anos. Estávamos em plena guerra colonial, num período de grande agitação social e de incertezas”, partilha. Em Setembro de 1975, ela e o seu irmão vieram para Portugal: Conceição foi para o Funchal, para casa dos avós paternos, e o seu irmão foi para o Porto, para a sua avó materna. Conceição matriculou-se na Escola do Magistério Primário e tentou “adaptar-se a um novo mundo”. “Foi um período difícil…. Sentia-me despida de tudo, sem mãe…um pai que tinha ficado num país em guerra, os amigos dispersos, sem qualquer contacto… Apesar de estar com os avós, não havia grandes laços, porque estes são construídos diariamente e até aos meus 18 anos eu só os tinha visto três vezes por períodos curtos, durante as férias escolares. Estava com a família, mas não me sentia em família. Tudo aqui era diferente… Porque me vestia de forma diferente e fumava era olhada na rua com desconfiança… Procurei o meu refúgio na Igreja mas os olhares eram os mesmos …., não era a Igreja da minha terra, onde me sentia mesmo em casa do Pai. Quando dei por mim já não ia nem sequer à missa de Domingo”, partilha. Após concluir o Curso do Magistério, esteve colocada durante três anos no 1º Ciclo do Ensino Básico em localidades diferentes e diz que “foi uma experiência muita enriquecedora: o contacto com o meio rural e o conseguir estar próximo do meio ambiente dos alunos é de facto uma forte ajuda para chegarmos até eles.” Casou-se e em 1982 veio estudar para o Instituto António Aurélio da Costa Ferreira onde se especializou em Deficiência Motora e Profunda. Nesse momento, estava já grávida do seu primeiro filho. “Ingressei nos Quadros da Direção Regional de Educação Especial da Região Autónoma da Madeira e comecei por fazer um trabalho itinerante. Havia várias crianças e jovens, com deficiências motoras, que permaneciam em casa pois não existiam condições para se deslocarem à escola, pelo que era necessário apoiá-los nas aprendizagens. Foi um desafio lidar individualmente com as particularidades e objetivos de cada um. Percorria semanalmente os vários concelhos da Região Autónoma da Madeira, o que se tornava desgastante, mas também muito enriquecedor pois possibilitou-me um conhecimento real das situações de cada caso no seu ambiente familiar. Algumas foram as vezes que foi necessário apoiar o prestador de cuidados devido à fragilidade das situações”, partilha. Em 1990, nasce o seu segundo filho. Ambos os seus filhos foram batizados e frequentaram a catequese. No ano de 2000, divorciou-se e concorreu para Lisboa, onde ficou colocada na Escola Básica de 2º e 3º Ciclos Luís de Sttau Monteiro (Loures), onde ainda permanece.

 

Reencontrar Deus e a fé

“Num dia de Verão, estando eu à varanda, o meu vizinho começou a conversar comigo perguntando donde era e logo descobriu ele, que eu era neta de um amigo e ex-colega de trabalho. O Sr. Gilberto Antunes e a sua família acolheu-me logo e foi para mim um renascer onde o luto do meu passado tinha dado lugar ao amor daquela família”, partilha. Quando uma neta do Sr. Gilberto adoece e é internada no Hospital, Conceição visitava-a com alguma regularidade. Após alguma insistência da jovem ao pedir para irem à Igreja do Hospital, fez-lhe a vontade. Entrou e ficou de pé ao fundo da Igreja. “No final da Santa Eucaristia o Sacerdote percorreu a igreja dando a bênção com o Santíssimo a cada um dos fiéis, uma Luz vinha até mim, e caiam-me lágrimas sem eu as entender. Vim para casa e pensei em regressar à capela na semana seguinte, para tentar entender o que se tinha passado. Demorei alguns meses a regressar aquele lugar, pois a jovem tinha partido e ninguém se sentia com coragem para voltar àquele hospital”, conta. Pedi então, a uma filha do Sr. Gilberto para me fazer um croqui e lá rumei eu até Lisboa. Participei na Santa Missa, mas desta vez procurei um lugar que também me pudesse sentar. No final da cerimónia, o Sacerdote percorreu a igreja dando a bênção com o Santíssimo e novamente uma Luz vinha até mim. Desta vez, não saí logo. Deixei-me ficar um pouco no silêncio e tentar perceber o significado de tudo aquilo. Era o Senhor que vinha ao meu encontro, passados 36 anos. Porquê agora? A partir desse dia nunca mais consegui faltar a nenhuma Eucaristia Dominical ou dia Santo, talvez tenha demorado uns quinze dias a encontrar um sacerdote para me reconciliar”, conta.

 

O caminho no Projeto Sabi

Começou por ser voluntária no Hospital de Santo António dos Capuchos, “visitando os doentes e fui fazendo formação na associação Mateus XXV, para aprender as boas práticas no acompanhamento espiritual de doentes, numa relação de ajuda”. Inscreveu-se em vários retiros e formações, participou no Seminário de Vida Nova no Espírito, organizado pelo grupo de oração Pneumavita, na altura da Quaresma de 2016. No ano passado, surge o caminho no Projeto SABI graúdo, constituído por elementos com mais de 35 anos. “Um projeto organizado, que na sua estrutura tem uma preocupação primeiro de um conhecimento de nós próprios e também dos outros envolvidos. Para que faça jus ao lema ‘Somos Um’. Após 3 meses de encontros começam os campos de trabalho e os retiros para nos prepararmos para a missão maior a de Agosto. Habituamo-nos a não querer saber onde se realiza o campo trabalho ou o retiro. Aprendemos a confiar, a ir ao encontro do outro, a dar e a fazer aquilo que o outro precisa. O SABI é uma família. Às vezes ponho-me a pensar… era tão bom que todas as famílias fossem SABI… Recordo o meu primeiro campo de trabalho em Castanheira de Pêra, a nossa Missão era limpar um terreno que tinha sido queimado durante os incêndios. Ao avistarmos o terreno pensávamos ser uma missão impossível, mas todos unidos dando cada um o seu melhor, conseguiu-se cumprir o que nos tinham solicitado e ainda plantamos algumas árvores, simbolizando a vida no lugar da morte. Em Agosto estive inserida num grupo que foi em Missão à Fajã de Cima nos Açores, quando partimos íamos todos de coração aberto, despojados de nós próprios na ansia de irmos ao encontro do outro. Quando lá chegamos soubemos que tínhamos como Missão participar no restauro de uma casa que tinha sido atingida pelas térmitas, visitar 3 apartamentos, que tinham sido entregues à Paróquia para acolher mulheres vítimas de maus tratos e fazer o orçamento de tudo o que era necessário para os equipar e dinamizar atividades no Centro de dia de idosos da Paróquia. O segredo deste projeto está também na comunhão em oração. Durante as missões, sejam elas no Cachopo, em São Tomé e Príncipe, Açores, Castanheira de Pêra, Lar da Bafureira, ou outro…temos no mesmo dia o mesmo propósito, a mesma oração da manhã, a mesma oração da noite. Somos efetivamente Um. Como cristã norteio-me pela necessidade de transformação espiritual e pessoal e esta insere-se numa dádiva ao outro, dar o que melhor que se tem, pois é no dar-se que está a nossa transformação mais profunda. (…)  o centro do voluntariado deve ser sempre o destinatário… no entanto em cada missão que participo sinto sempre que recebo muito…”, partilha.

texto por Catarina António, FEC | Fundação Fé e Cooperação
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