Entrevistas |
Padre Rui Pedro Carvalho, responsável pela Pastoral Familiar do Patriarcado de Lisboa
“Festa da Família renova a identidade da família cristã e fortalece-nos a missão”
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O responsável pela Pastoral Familiar do Patriarcado de Lisboa convida “todas as famílias” a participarem na Festa da Família, que vai decorrer no dia 16 de junho, no parque da Quinta das Conchas, em Lisboa. Em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, o padre Rui Pedro Carvalho destaca a importância de os casais “renovarem diariamente o ‘Sim’ do matrimónio”. “Ser família é ser imagem de Deus”, frisa o sacerdote.

 

O parque da Quinta das Conchas vai receber, no próximo Domingo, 16 de junho, a sexta edição da Festa da Família. O que o Patriarcado de Lisboa pretende com a organização deste dia diocesano?

Este dia começa no contexto da caminhada de preparação para o Sínodo da Família, que houve em Roma e foi convocado pelo Papa Francisco – que depois deu origem à exortação ‘Amoris Laetitia’ –, e, desde então, esta acentuação da família na pastoral colocou-se como um assunto prioritário na vida da Igreja, porque se foi percebendo também que, se as famílias se perdem, se elas se fragmentam no meio desta sociedade, ressente-se a Igreja e, por sua vez, toda a educação, a transmissão da fé, os valores e a própria sociedade. Nesse sentido, havia também uma equipa nova que estava a começar a trabalhar a Pastoral da Família – que não era uma realidade que estivesse tão presente na vida da diocese – e quisemos, com esta festa, ser um marco para dar a conhecer a Pastoral da Família e, ao mesmo tempo, convocando para um dia de encontro todas as realidades eclesiais que trabalham especificamente nesta área da pastoral e também todas as famílias da nossa diocese. No fundo, este encontro entre todas as famílias acaba sempre por renovar a identidade da família cristã e, ao mesmo tempo, fortalece-nos a missão. Percebemos que não estamos sós, que há mais a caminhar e, ao mesmo tempo, acaba por ser um sinal para o mundo de que é possível, é bonito, ser família. Apesar de todas as dificuldades, este é um caminho querido por Deus. Lembro-me que o Papa Francisco, no Encontro Mundial das Famílias, dizia que a família tem cidadania divina. Não é uma questão cultural, mas é criada por Deus, é desejo de Deus.

 

Que importância tem tido a Festa da Família para a diocese?

A Festa da Família começou em Mafra, em 2014, aliada também a uma vontade da vigararia, que nos tinha feito uma proposta para organizar alguma iniciativa. Não quisemos terminar só nesse ano e foi nascendo também um sonho de ir fazendo este dia diocesano em cada vigararia do Patriarcado, porque percebemos também que a organização deste evento, que é de alguma dimensão, fazia equipa e mexia localmente, não só a Igreja, mas também o município. Foi também uma estratégia nossa, da Pastoral da Família, o facto de escolhermos, em cada ano, uma vigararia diferente, o que acaba por ser investimento nessa vigararia. O importante, para nós, não é só o evento, mas é todo o caminho e o que fica depois disso.

Na Igreja de Lisboa, temos uma série de realidades eclesiais que trabalham muito bem, e, muitas vezes, não são conhecidas nas nossas paróquias. O facto de termos ali uma mostra, ajuda-nos a perceber de facto as realidades eclesiais, nos seus carismas, nos seus talentos, que abraçam a nossa família. O encontro acaba por ser uma oportunidade muito bonita de nos sabermos acompanhados.

 

Depois de Mafra (2014), Mucifal - Sintra (2015), Casa do Gaiato em Santo Antão do Tojal (2016), Alcobaça (2017) e Penafirme - Torres Vedras (2018), a 6ª Festa da Família chega à cidade de Lisboa. Que expectativas para esta jornada na cidade?

É na cidade de Lisboa que está a maior parte das famílias e, porventura, onde as famílias enfrentam mais desafios de conciliação da vida profissional e familiar. É, muitas vezes, também, o lugar onde as famílias estão mais isoladas. Também tem coisas muito boas, porque na cidade de Lisboa há muitos movimentos, muitas realidades eclesiais que trabalham muito bem a Pastoral da Família. Portanto, como temos que ir às 18 vigararias, desta vez quisemos que fosse Lisboa, que já tinha uma estrutura de equipa vicarial. A expectativa é que possamos juntar muitas famílias no parque da Quinta das Conchas, e que seja também um momento bonito de Pentecostes. A preparação já tem sido isso: juntamos à mesma mesa várias sensibilidades, vários carismas, e estamos entusiasmados, uns com os outros, a preparar esta festa. Tem sido uma bonita experiência de Pentecostes.

 

A Festa da Família deste ano tem como tema ‘Família: Lugar de Encontro com Deus’. Porquê a escolha deste tema?

Este ano, o tema da diocese é ‘Viver a liturgia como lugar de encontro’ e nós quisermos levar este tema para uma liturgia mais doméstica. Vamos sentindo também que, muitas vezes, as famílias, em casa, nem sempre valorizam o ambiente doméstico como um lugar de encontro com Deus. Mesmo na proposta deste ano, suscitámos às famílias que pudessem criar espaços de encontro, de oração, de partilha da Palavra, de oração do terço ou até a própria celebração dos dias da família na família, como o Dia do Pai, o Dia da Mãe ou até o aniversário dos filhos. Cultivar liturgias domésticas, em ligação com a liturgia da Igreja, com a participação na Missa dominical e em todos os atos litúrgicos. Levar a que a relação com a Igreja Corpo não fique só pela comunidade paroquial, ou no movimento, mas que se descubra o casal como aquele que preside à Igreja doméstica e a própria família criar este espaço de encontro com Deus.

 

A festa deste ano tem a novidade dos Percursos, havendo sete disponíveis (‘Família e Amor Conjugal’, ‘Família e Educação’, ‘Família Santuário Vivo’, ‘Família e Comunidade’, ‘Família e Transmissão da Fé’, ‘Família e Periferias’ e ‘Família e Sociedade’). Que momento será este?

Todos os anos procuramos adaptar a festa à realidade da vigararia que nos recebe. Por estarmos num parque verde, não seria muito apropriado fazer conferências. Como as famílias gostam de fazer caminhadas e passeios de Domingo, pensámos fazer pequenas rotas, com percursos de 30, 40 minutos a uma hora, e pedimos às realidades eclesiais presente na Vigararia Lisboa IV – como as Equipas de Nossa Senhora, o Movimento de Schoenstatt ou os Jesuítas – que as organizassem. Haverá um percurso, com vários postos e várias propostas para a família, que pode ser desde um momento de oração, uma conferência, um momento de partilha entre a família. Será também surpresa e vamos ver o que os movimentos nos prepararam, mas a ideia é que quando chegarmos à festa, depois da oração da manhã, as pessoas possam ficar na Feira Familiar e no espaço de oração, ou então percorrer um ou mais Percursos.

Nestes Percursos, o conceito é também ‘famílias que encontram famílias’. Percorrer este caminho, nesta abertura àquilo a que o percurso me for trazendo e também ao encontro com outras famílias. Não é algo para ser feito a correr, mas uma rota, um passeio de Domingo, entre famílias, e, pelo meio, Jesus põe-se a caminho.

 

Um dos pontos altos da Festa da Família, desde a primeira edição, são os jubileus matrimoniais, com a bênção dos casais que fazem 10, 25, 50 ou mais anos de casados. Qual a importância deste testemunho que os casais cristãos dão a toda a sociedade?

Os jubileus matrimoniais são, de facto, um momento alto da Festa da Família. O objetivo é celebrar, celebrar a vida, porque este encontro com Deus e com os outros faz-nos renovar a nossa identidade e missão. Naturalmente, o celebrar estas etapas da vida matrimonial é muito significativo, é algo que os casais já o fazem, com a sua família, no âmbito das comunidades paroquiais ou dos movimentos, e nós, como Igreja Diocesana, sentimos também que valeria a pena que se celebrasse diocesanamente, até como sinal para o mundo. Portanto, não celebrar só na minha família os 25 anos de casamento, mas juntar o casal que celebra 10 anos de casamento, com um que celebra 50 anos, torna-se referência uns para os outros. O casal de 10 olhar para um casal de 50 vê ali que é possível, que é ali que querem chegar; e um casal de 50 ao olhar para um casal de 10 fica reconfortado ao perceber que há famílias a continuarem este sonho de ser família, que eles próprios também tiveram há uns anos atrás. No meio, para os casais dos 25 anos, é desafiante, porque os apanha também numa fase muito exigente de vida familiar e o facto de se encontrarem nesta moldura humana, neste enquadramento, estou certo que os renova interiormente.

 

Ser família cristã é hoje ser contra a corrente?

A nossa sociedade está a empurrar as pessoas para uma sociedade de indivíduos, uma massa desconhecida. Sem esta referência familiar, as pessoas ficam perdidas. Esta é uma sociedade que nem sempre cria as condições necessárias para que as famílias sejam famílias. Desde a exigência profissional que, hoje, os casais enfrentam, o pouco tempo que têm para cultivar quer o amor conjugal, quer o tempo com os filhos e a educação, uma série de ideologias, como a ideologia de género, que vão penetrando também muito as nossas escolas e que, no fundo, vão banalizando muito esta imagem de família. Se a família é imagem de Deus – homem e mulher, Deus os criou e disse: ‘Crescei e multiplicai-vos’ –, há hoje um querer chamar a tudo família, o que fragmenta também muito a família. É preciso que a família, hoje, renove muita a sua identidade, perceba o que é ser família, o que é celebrar o matrimónio cristão, não só no dia da celebração, mas celebrar ao longo de toda a vida. Aquele ‘Sim’ é renovado todos os dias, e o desafio é que cada dia seja um dia mais feliz do que o dia anterior, porque é um amor que se vai solidificando, se vai fortalecendo, como uma árvore que vai ganhando cada vez mais copa, e assim vai-se tornando também mais fecundo. Hoje em dia, sinto que é preciso renovar muito esta consciência do que é o matrimónio. Esta sociedade, que cultiva o indivíduo e o bem-estar, faz com que o vínculo fique muito fragilizado. Termos famílias cristãs acompanhadas e enquadradas numa comunidade cristã e em grupos de casais, ou num dinamismo comunitário, acabam por ser estes contrafortes que vão apoiar a família, para que a família renove a sua identidade e vá contra a corrente. De facto, hoje em dia, terá que ser muito contracorrente. Mas, ao mesmo tempo, há uma aspiração profunda, mesmo às vezes naqueles jovens, quando já não têm referências nem dos avós casados, ainda assim há uma aspiração profunda, porque isto está inscrito nos nossos corações, esta aspiração e este desejo de ser família. E ser família é ser imagem de Deus. O senhor Patriarca insiste muito que a Festa da Família seja no dia da Santíssima Trindade, porque a família é uma imagem muito bela daquilo que Deus é. O amor que Deus é, é um amor que circula entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e assim também no casal, é um amor que circula, o marido que se entrega à mulher, a mulher que se entrega ao marido e a fecundidade, que se traduz nos filhos, mas depois também numa vida que se abre aos outros. E assim, ao mesmo tempo, o matrimónio nesta beleza de uma Igreja doméstica, espalhada pelos vários prédios de Lisboa, temos não só a igreja paroquial, mas pequenas células, pequenas Igrejas domésticas que são tão importantes para ser-se luz do mundo e sal da terra.

 

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“Que ninguém se sinta excluído a participar na Festa da Família”

Que convite quer deixar às famílias e, em particular, aos casais jubilares?

Apareçam no dia 16 de junho, na Quinta das Conchas! Há um programa muito bem preparado, pela Vigararia Lisboa IV e pelas várias realidades eclesiais que aí estão presentes. Será um dia muito bem passado, num parque muito agradável, cheio de sombras e de água, e com um programa muito cativante. Da parte da tarde, teremos também testemunhos, teremos uma família que vai atuar, os Figo Maduro, teremos também uma fadista, a Cuca Roseta, que nos vai brindar com os seus fados – ela também uma mulher de Igreja, casada e a viver esta realidade, vai testemunhar com a beleza da sua voz. Convido todas as famílias, venham todos, pais, filhos, tios, todos são convidados. Que ninguém se sinta excluído. Celebrar a vida familiar é celebrar todos nós.

entrevista por Diogo Paiva Brandão; fotos por Diogo Paiva Brandão e Arquivo VV
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