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Padre Teresito recorda o tempo de cativeiro em Marawi, nas Filipinas
Cento e dezasseis dias
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Foi há dois anos. Em Maio de 2017, a cidade de Marawi, no sul das Filipinas, caiu nas mãos de um grupo jihadista. A catedral foi um dos primeiros alvos dos terroristas. Lá dentro estavam seis cristãos. Foram todos feitos reféns. Um deles, o Padre Teresito, contou agora à Fundação AIS como foi viver 116 dias praticamente com uma arma sempre apontada à cabeça…

 

Dia 23 de Maio de 2017. Fez agora dois anos. Um pequeno grupo de fiéis estava reunido na Catedral de Marawi num momento de oração, durante a tarde, quando se escutaram tiros na cidade. Mesmo em Marawi, onde a vida de todos os dias é marcada por alguma tensão e violência, não é normal escutarem-se tiros. Muito menos, tantos tiros. Aos poucos, o Padre Teresito Soganub e os cinco paroquianos que estavam na catedral começaram a perceber que algo de muito estranho estaria a ocorrer na cidade, com os disparos a subirem de tom e os gritos de pessoas assustadas em fuga. Tudo aconteceu depois muito depressa. Eram sete horas da tarde quando as portas da catedral se abriram. Todos pensaram que seria a polícia ou o exército. Os tiros, que se escutavam no exterior, eram ameaçadores. Parecia que se travava uma batalha nas ruas de Marawi. Provavelmente, as autoridades teriam destacado elementos da polícia ou do exército para protegerem o edifício da catedral. Foi o que todos pensaram. Quando as pesadas portas de madeira se abriram, foi em pânico que o Padre Teresito e os cinco fiéis viram alguns homens de metralhadora em punho e com cara de poucos amigos. Um deles, segurando um megafone, ordenava-lhes que saíssem do edifício. Eram reféns. Enfiados numa carrinha, passaram algumas horas de um lado para o outro, como se os captores estivessem a tentar enganar os soldados que, por certo, já estariam no encalço do grupo de cristãos.

 

Dias de medo

“Eles ordenaram-nos que contactássemos o Governo para pararem de lutar contra os rebeldes”, descreveu o Padre Teresito recordando essas primeiras horas traumáticas. E assim fez. O Padre Teresito ligou para o seu bispo, D. Edwin de la Peña, e a outras autoridades, dizendo sempre a mesma mensagem: avisem o presidente Duterte para mandar retirar as tropas, para não perseguir os jihadistas ou, caso contrário, os reféns serão todos mortos. Um a um. Nos dias seguintes, os reféns foram obrigados a mudar de esconderijo vezes sem conta. Era uma espécie de jogo do gato e do rato. Em cada novo local para onde eram enviados, juntavam-se sempre mais e mais reféns. Numa altura, já em Junho, lembra agora o Padre Teresito Soganub, chegaram a ser mais de uma centena. Alguns eram mulheres e crianças. Todos, porém, tinham uma coisa em comum: o medo. Todos sentiam a vida ameaçada. Os jihadistas apontavam as metralhadoras lembrando que qualquer tentativa de fuga seria impossível. Por outro lado, e não menos assustador, havia o risco permanente de o acampamento ser bombardeado pelo exército. Foram semanas de violência extrema, de medo constante. Foram semanas que Teresito Soganub nunca mais conseguirá esquecer por mais anos que viva.

 

Pensar a missão

Ali, no meio dos reféns, o Padre Teresito pensou vezes sem fim na sua missão de sacerdote, na fragilidade da própria vida, na incerteza de tudo. Cada dia podia ser o último. “Aprendi novamente a rezar…”, diz, revendo todos os momentos que passou desde essa tarde na catedral de Marawi, em 23 de Maio de 2017. “Ninguém quer experimentar algo assim”, acrescenta o Padre Teresito. “Durante esses meses, vivi constantemente com a certeza da minha própria morte.” Foram dias de permanente oração. E de aprendizagem. Teresito Soganub aprendeu naquelas infindáveis semanas de cativeiro que só poderia ser forte com Deus. Apesar do receio que sentia. A fé transfigurou o seu medo em força, em certezas. Pelo menos, na certeza de que Deus não abandona. “Isso ensinou-me humildade e respeito.”

 

O momento da fuga

A liberdade é o desejo maior de quem está preso. Todos os dias, o Padre Teresito desejava voltar a ser livre, a não estar atormentado com a ameaça dos jihadistas que lhe apontavam as metralhadoras, lembrando que a fuga era um sonho impossível. Mas aconteceu. No dia 17 de Setembro de 2017, 116 dias depois de ter sido sequestrado na Catedral de Marawi, o Padre Teresito pressentiu que as forças do Governo estavam ali muito perto. Era de noite e as luzes dos faróis dos blindados, dos carros da polícia, mostravam que o acampamento estaria de alguma forma cercado pelo exército. O assalto iria começar. Era o momento para tentar a sorte. “Então, eu disse a Deus e a mim mesmo: tenho que tentar agora. Deus me ajude!” E um pequeno milagre aconteceu: durante longos 14 minutos, quando o Padre Teresito e outro refém aproveitando um momento de desatenção saíram a correr dali, nenhum tiro foi disparado.

Dois anos depois, Marawi é ainda uma cidade esventrada, em ruínas. Na maior parte dos bairros não vive ninguém. É uma cidade fantasma. Dois anos depois, num balanço que permanece incompleto, podemos dizer que a guerra de Marawi causou 1.300 mortos, que cerca de 40% da cidade ficou destruída – incluindo a catedral – e que 98% da população continua deslocada, sem poder regressar a casa, pois os bairros estão quase todos por reconstruir… Para o Padre Teresito, foram 116 dias de cativeiro em que aprendeu novamente a rezar.

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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