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P. Gonçalo Portocarrero de Almada
A Roménia dos rom e dos bispos mártires

Ainda está por escrever a história da perseguição à Igreja católica, durante o período da dominação soviética, nos países do leste da Europa. Dos cem milhões de vítimas do regime comunista no mundo inteiro, muitos eram católicos. Os fiéis ortodoxos foram tolerados pelo regime bolchevique, mas não os católicos de rito oriental, que foram obrigados a integrar a igreja ortodoxa, à qual foram também entregues os seus templos e bens.

Na sua recente viagem pastoral à Roménia, o Papa Francisco, como é aliás seu timbre, procurou confortar as periferias perseguidas, nomeadamente os ciganos, ou comunidade rom, e os greco-católicos, que são minoria nesse país maioritariamente ortodoxo.

Francisco teve palavras e gestos de muita consideração pela comunidade cigana, pedindo desculpa aos membros dessa etnia pela incompreensão com que, por vezes, foram discriminados por alguns católicos. A Igreja, contudo, desde sempre os estimou, como aliás respeita qualquer outro povo ou cultura.

Uma prova desta abertura institucional para com a comunidade rom foi a beatificação, há já mais de vinte anos, em 1997, por São João Paulo II, de Zeferino Giménez Malla, aliás El Pele. Este cigano espanhol defendeu a religião cristã durante a Guerra Civil do seu país, tendo sido martirizado em 1936, por ódio à fé cristã, pelas forças republicanas do seu país.

Na beatificação de El Pele, São João Paulo II afirmou que Zeferino Giménez Malla “mostra como Cristo está presente nos diversos povos e raças e que todos são chamados à santidade”. Segundo o santo Papa polaco, “El Pele foi generoso e acolhedor para com os pobres, embora também fosse pobre; honesto na sua actividade; fiel ao seu povo e à sua raça cigana; dotado de uma inteligência natural extraordinária e do dom de conselho. Foi, sobretudo, um homem de profundas crenças religiosas”. Por isso, “a Igreja propõe-no como modelo a seguir e testemunha significativa da vocação universal à santidade, especialmente para os ciganos que, com ele, têm estreitos vínculos culturais e étnicos".

Por ocasião desta visita pastoral à Roménia, o Papa Francisco beatificou, no Campo da Liberdade, em Blaj, na região da Transilvânia, sete bispos católicos, mártires do regime comunista romeno. São eles:

- Vasile Aftenie, bispo e vigário geral da capital romena, que foi morto no dia 10 de Maio de 1950, no hospital prisional de Vacaresti, com 51 anos de idade.

- Valeriu Traian Frentiu, bispo de Oradea e decano dos bispos greco-católicos, que morreu no dia 11 de Julho de 1952, na prisão de Sighet, tendo 77 anos de idade.

- Ioan Suciu, administrador apostólico da Igreja metropolitana de Blaj, que morreu de fome a 27 de Junho de 1953, na prisão de Sighet, com 46 anos.

- Titus Liviu Chinezu, que tinha sido ordenado bispo na clandestinidade, em 1949, e que faleceu de doença no dia 15 de Janeiro de 1955, também na prisão de Sighet, tendo sido privado de qualquer tratamento médico, com 51 anos de idade.

 - Ioan Balan, bispo de Lugoj, que morreu com 79 anos, no dia 4 de Agosto de 1959, no mosteiro de Ciorogarla, onde se encontrava em prisão domiciliaria, depois de ter sido separado dos três bispos que estavam detidos na prisão de Sighet.

- Alexandru Rusu, bispo de Maramures, que morreu, a 9 de Maio de 1963, também aos 79 anos, na prisão de Gherla, onde cumpria a sentença de prisão perpétua a que fora condenado em 1957, por “sedição e alta traição”, depois de ter estado detido na prisão de Sighet.

- Iuliu Hossu, bispo de Cluj-Gherla que, depois de ter estado preso em Sighet, ficou até ao final da sua vida em prisão domiciliária no mosteiro de Caldarusani, onde morreu, a 28 de Maio de 1970, com 85 anos. Foi nomeado cardeal em 1969 mas, por receio de represálias das autoridades comunistas romenas, a sua elevação ao sacro colégio cardinalício não foi, em sua vida, divulgada.

A par destas vítimas do regime comunista romeno, há também que considerar os outros muitos leigos, religiosos, padres e bispos que foram igualmente perseguidos, nalguns casos até à morte, pelo regime totalitário que foi instaurado nesse país depois da segunda Guerra Mundial e se manteve até à queda do ditador Ceausescu. Só Deus sabe o número e o nome destes mártires anónimos mas, mesmo que as suas vidas não tenham deixado rasto, nem delas haja memória, não restam dúvidas de que não foi em vão o sacrifício da sua vida porque, como já diziam os antigos, o sangue dos mártires é sementeira de novos cristãos.