Lisboa |
D. Manuel Clemente
Carta aos diocesanos de Lisboa no início do ano pastoral 2019-2020
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Caríssimos diocesanos

Como tem acontecido, volto a escrever-vos no começo do novo ano pastoral. Creio que ajudará a precisar o que faremos em conjunto, além das múltiplas iniciativas pessoais e comunitárias.

 

1. - Sair com Cristo ao encontro de todas as periferias!

Entramos na última etapa da receção sistemática da Constituição Sinodal de Lisboa. Mantendo o objetivo de “fazer da Igreja uma rede de relações fraternas” (CSL, 60), para reforçar todos os dinamismos e instâncias de participação e corresponsabilidade eclesial, insistimos agora em “sair com Cristo ao encontro de todas as periferias” - onde, aliás, Ele nos espera (cf. CSL, 53)! 

Para não dispersar, retomo o que vos escrevi em julho na apresentação do Programa e Calendário Diocesano 2019/2020: A insistência na ação caritativa há de levar-nos a trabalhar mais e melhor em conjunto para servir quem precisa. Detetar em cada meio aqueles que, estando mais periféricos, mais precisam de ser centralizados na nossa atenção e cuidado é o que procuraremos fazer, atendendo à especificidade sociocultural de cada lugar. 

O Departamento da Pastoral Sociocaritativa elaborou uma “proposta de objetivos” de que sublinho três momentos: O Dia da Solicitude (18 de outubro), o Congresso da Pastoral Social (15-16 de maio) e a Semana Vicarial da Caridade, na data a escolher por cada Vigararia. Sobre cada um deles, o Departamento dará indicações e estará disponível. O Dia da Solicitude, em outubro, será um momento de partilha das ações programadas por cada comunidade e instituição sociocaritativa em ordem ao cumprimento deste programa. O Congresso da Pastoral Social, em maio, será o momento de avaliar o que se conseguiu realizar e apurar critérios para o fazer, porventura, melhor no futuro. A Semana Vicarial da Caridade é da organização de cada Vigararia. Trata-se de juntar na ocasião mais propícia as diferentes instituições e iniciativas sociocaritativas da Vigararia numa ação comum em que todos cooperem; dedicar nessa mesma semana algum tempo para a formação dos agentes pastorais desta área; proporcionar-lhes também um tempo de recoleção espiritual motivadora.

Ao mesmo tempo, avançaremos para o grande horizonte que o Papa Francisco nos abriu: a Jornada Mundial da Juventude. O reforço sociocaritativo que entretanto fizermos será a sua melhor garantia! Tanto mais quanto o tema indicado pelo Papa Francisco para a JMJ 2022 se refere precisamente à Visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel, isto é, à evangelização caritativa: “Maria levantou-se e partiu apressadamente” (Lc 1, 39). Entretanto, no próximo Domingo de Ramos, 5 de abril de 2020, receberei, em Roma, os símbolos da Jornada Mundial da Juventude (Cruz e Ícone de Nossa Senhora) que peregrinarão depois pelas Dioceses, preparando-nos também assim para o grande acontecimento.       

Relembro ainda que no próximo Domingo 20 de outubro, Dia Mundial das Missões, culminaremos, em Fátima, o Ano Missionário, que certamente aumentou em muitas comunidades esta dimensão essencial do Evangelho, recebido para partilhar com todos e em toda a parte. Na mesma celebração, às 11 da manhã, também agradeceremos a Deus os 175 anos do Apostolado da Oração – Rede Mundial da Oração do Papa, que tanto tem contribuído para alimentar e irradiar a nossa vida em Cristo. Espero encontrar-vos lá em bom número!

 

2. “Nova evangelização” é colocar os pobres no centro do caminho da Igreja

Esta é também a maior insistência do magistério do Papa Francisco, em plena coincidência com a do próprio Jesus Cristo. Na exortação inicial e programática do seu pontificado, enunciou-nos assim o tema da “nova evangelização”, tão caro a São João Paulo II: «Por isso, desejo uma Igreja pobre para os pobres. […] A nova evangelização é um convite a reconhecer a força salvífica das suas vidas e a colocá-los no centro do caminho da Igreja. Somos chamados a descobrir Cristo neles: não só a emprestar-lhes a nossa voz nas suas causas, mas também a ser seus amigos, a escutá-los, a compreendê-los e a acolher a misteriosa sabedoria que Deus nos quer comunicar através deles» (Papa Francisco, Exortação apostólica Evangelii gaudium [EG], 24 de novembro de 2013, 198).

Como sabemos, a pobreza evangélica, primeira das bem-aventuranças, é mais do que a privação de bens materiais e só a atinge quem não ponha neles o seu coração, embora tudo faça para que não falte o essencial a ninguém. Requer da nossa parte a certeza de que só Deus basta, manifestando-se nos outros em quem nos espera, sobretudo nos que mais precisam do nosso cuidado. Em suma, trata-se de cuidar realmente de todos e cada um em tudo quanto à vida se refere, da conceção à morte natural, não desistindo de o repetir e praticar.

O Papa Francisco junta uma advertência forte, que devemos levar muito em conta: «Qualquer comunidade da Igreja, na medida em que pretender subsistir tranquila sem se ocupar criativamente nem cooperar de forma eficaz para que os pobres vivam com dignidade e haja a inclusão de todos, correrá também o risco da sua dissolução» (EG, 207).   

Ligando “nova evangelização” e cuidado dos outros, sobretudo dos mais necessitados de procura e integração, o Papa convocou o Jubileu da Misericórdia. Celebrado há três anos já, estas suas palavras não perdem atualidade: «No nosso tempo, em que a Igreja está comprometida na nova evangelização, o tema da misericórdia exige ser reproposto com novo entusiasmo e uma ação pastoral renovada. É determinante para a Igreja e para a credibilidade do seu anúncio, que viva e testemunhe, ela mesma, a misericórdia. […] Nas nossas paróquias, nas comunidades, nas associações e nos movimentos – em suma, onde houver cristãos -, qualquer pessoa deve poder encontrar um oásis de misericórdia» (Papa Francisco, Bula Misericordiae vultus, de proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, 11 de abril de 2015, nº 12). Foi em Cristo pobre que Deus esteve connosco, na periferia daquele grande Império. Reconhecê-Lo e servi-Lo nos muitos pobres de todas as pobrezas atuais é refazer a Igreja no seu Centro vivo!

A atenção aos outros tem em conta o contexto sociocultural em que vivem e são formados. O Evangelho de Cristo deve iluminá-lo e não o deixará empobrecer. Recomendo que nas comunidades e meios educativos se leiam e divulguem alguns pronunciamentos da Santa Sé e do Episcopado Português de especial oportunidade. Refiro-me ao recente documento da Congregação para a Educação Católica, “Homem e mulher os criou” – Para uma via de diálogo sobre a questão do Gender na educação, à Carta Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa sobre a ideologia de género e à Nota Pastoral sobre a eutanásia, também da CEP (além das edições impressas, tudo está disponível no “site” da Conferência Episcopal Portuguesa e na Agência Ecclesia).      

 

3. Como o Bom Samaritano

A parábola do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 29-37) é fonte permanente de inspiração e ação. Se o imitarmos – lembrando que o Bom Samaritano da humanidade inteira é o próprio Cristo – irradiaremos uma autêntica “cultura” ou modo evangélico de sentir e agir, como o Papa também indica: «Somos chamados a fazer nascer uma cultura de misericórdia, com base na redescoberta do encontro com os outros: uma cultura na qual ninguém olhe para o outro com indiferença, nem vire a cara quando vê o sofrimento dos irmãos» (Papa Francisco, Carta apostólica Misericordia et misera, no termo do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, 20 de novembro de 2016, nº 20).

Significativamente, o Papa Bento XVI ligara também à parábola do Bom Samaritano um trecho fundamental da encíclica Deus caritas est. Fundamental porque nos dá o critério qualificativo da “caridade cristã”, como importa ter bem presente em tudo o que de pessoal, comunitário ou institucional possamos e devamos realizar. Peço a vossa especial atenção para o seguinte trecho: «Quais são os elementos constitutivos que formam a essência da caridade cristã e eclesial? a) Segundo o modelo oferecido pela parábola do bom Samaritano, a caridade cristã é simplesmente, em primeiro lugar, a resposta àquilo que, numa determinada situação, constitui a necessidade imediata: os famintos devem ser saciados, os nus vestidos, os doentes tratados para se curarem, os presos visitados, etc. […] b) A atividade caritativa cristã deve ser independente de partidos e ideologias. […] O programa do cristão – o programa do bom Samaritano, o programa de Jesus – é “um coração que vê”. Este coração vê onde há necessidade de amor e age de acordo com isso. […] c) Além disso, a caridade não deve ser um meio em função daquilo que hoje é indicado como proselitismo. O amor é gratuito; não é realizado para alcançar outros fins. […] É dever das organizações caritativas da Igreja reforçar de tal modo esta consciência nos seus membros que estes, através do seu agir – como também do seu falar, do seu silêncio, do seu exemplo -, se tornem testemunhas credíveis de Cristo» (Papa Bento XVI, Encíclica Deus caritas est, sobre o amor cristão, 25 de dezembro de 2005, nº 31).

Imediata, independente e gratuita, assim se carateriza a caridade cristã. Proponho que também esta encíclica do Papa emérito seja retomada e estudada nas comunidades ao longo do presente ano pastoral. Pelo tratamento sistemático que faz das caraterísticas e dos modos da ação sociocaritativa, pessoal ou institucional, será muito útil para a concretização do nosso programa anual, em perfeita consonância com a insistência evangélica do Papa Francisco.

Desejo-vos a todos, caríssimos diocesanos, as maiores felicidades no ano pastoral que hoje começa. Nossa Senhora da Visitação nos acompanhará em direção a todas as periferias que nos esperam. - Para as centralizarmos também, como centrais continuam no seu coração materno!

 

Convosco, em oração e muita estima,

+ Manuel, Cardeal-Patriarca

Lisboa, 1 de setembro de 2019

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