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Síria: a certeza da fé de uma mãe confrontada com a morte do filho
A última vez
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Yolla não consegue esquecer as palavras do filho quando se despediu da família ao regressar ao quartel após uma breve visita. Soldado no exército do país, Krikor morreria em combate sete dias mais tarde. Yolla é um exemplo da tragédia sem fim que se abateu sobre a comunidade cristã na Síria.

 

Este domingo, dia 15 de Setembro, a Fundação AIS vai distribuir na Síria cerca de 6 mil terços abençoados pelo Papa Francisco. Produzidos por cristãos de Belém e Damasco, estes terços procuram ser um sinal da proximidade do Santo Padre e da Ajuda à Igreja que Sofre para com o povo sírio que tanto tem padecido com uma das mais devastadoras guerras dos tempos modernos. Neste domingo, em que se celebra a festa das Sete Dores da Santíssima Virgem Maria, os cristãos sírios vão lembrar nas suas orações os familiares e amigos mortos nos últimos anos. Calcula-se que pelo menos duas mil famílias cristãs estão enlutadas. É um sofrimento enorme que não tem fim.

 

Memória ensurdecedora

Não haverá dia em que Yolla Ghandour não se lembre do seu filho morto em combate em 2014, um dos anos mais terríveis da guerra na Síria. Não há dia em que Yolla não recorde as últimas palavras de Krikor, quase uma premonição do que lhe ia acontecer. Yolla Ghandour é uma católica sírio-arménia e vive em Alepo. Pela violência dos combates, Alepo foi considerada como a cidade-mártir desta guerra que teima em não ter fim. Para Yolla, mais ensurdecedor do que a memória dos obuses, dos silvos das bombas e até dos gritos de dor dos feridos, é o ressoar permanente das últimas palavras do seu filho quando se estava a despedir de regresso ao quartel, de regresso à guerra.

 

Premonição

Foi em Abril de 2014. “Uma semana antes de morrer, Krikor regressou a casa para nos visitar porque um tio tinha morrido. Enquanto se preparava para partir novamente, virou-se para o pai e disse, ‘Vou regressar para a morte.’” Havia uma premonição absoluta naquelas palavras. A família dos Ghandour vivia já com enormes dificuldades, tal como a esmagadora maioria dos sírios. A guerra tinha arrasado a economia do país. “Éramos cinco: o meu marido, dois filhos e uma filha, e eu. As nossas circunstâncias financeiras pioraram como resultado da guerra. O meu marido e Krikor perderam o emprego porque a zona em que trabalhavam era perigosa…”

 

Um telefonema

Alguns dos bairros de Alepo foram completamente destruídos pelos insistentes bombardeamentos dos grupos jihadistas. Houve zonas da cidade que estiveram sitiadas durante semanas, meses. Foi um autêntico inferno. Sem trabalho, os Ghandour, tal como praticamente todos os seus vizinhos, dependiam das parcas economias amealhadas ao longo da vida. “Foi um tempo difícil.” Mobilizado para o exército aos 19 anos de idade, Krikor foi colocado numa zona de combates. Uma semana depois de ter visitado a família, resolveu telefonar para casa. Foi uma conversa banal mas havia já alguma coisa que sobressaltava o coração de Yolla.

 

Certeza de uma mãe

“No dia em que ele morreu, falámos ao telefone e, depois de terminar o telefonema, tive um forte pressentimento, como uma premonição. Rezei à Virgem Maria: ‘Por favor não me ponhas à prova. Tu provaste deste cálice; por favor, não permitas que eu viva a mesma dor.’” Uma mãe nunca se engana. Horas mais tarde, o telefone voltou a tocar. Yolla saiu disparada de casa rumo ao hospital mas já sabia, no seu íntimo, que não chegaria a tempo de ver o seu filho ainda com vida. “Disseram-me que Krikor estava ferido e que tinha sido levado para o hospital. Apressei-me para estar ao seu lado, rezando a São Charbel: ‘Dei-te o meu filho. Não quero encontrá-lo morto.’ Mas, no meu íntimo, tinha quase a certeza que ele tinha morrido….”

 

Sinal de afecto

A morte de Krikor enlutou a família para sempre. Tal como os Ghandour, há pelo menos duas mil famílias cristãs que perderam um ente-querido nesta guerra sem fim. Há ainda mais de oito centenas de cristãos que foram sequestrados. Foi a pensar em todos eles que a Fundação AIS fez distribuir seis mil terços abençoados pelo Papa Francisco. Cada um destes terços é um sinal de proximidade, de afecto, de carinho dos cristãos de todo o mundo para com esta comunidade tão sofrida. A Síria tem sido, desde o início da guerra, um dos países prioritários para a Fundação AIS. Tudo o que se fizer por este povo será sempre pouco face à dimensão da tragédia que se abateu sobre este país. A guerra devastou a economia e deixou marcas de sofrimento visíveis em toda a população. Mas não haverá sofrimento maior do que uma mãe chorar a perda de um filho.

 

“Acreditar na ressurreição”

A vida, de certa forma, terminou para Yolla Ghandour nesse dia 16 de Abril de 2014 quando Krikor morreu dos ferimentos sofridos em combate. Yolla irá também receber este domingo um terço abençoado pelo Papa Francisco. “Como cristãos, acreditamos na ressurreição”, diz-nos Yolla. “Aprendi que os mortos nos vêem, ouvem e sentem. E descobri que, acima de tudo, podia estar orgulhosa do meu filho.” Quando, a partir de agora, Yolla Ghandour rezar com o Terço da Fundação AIS nunca mais estará sozinha. Cada um destes terços são sinal da solidariedade de todos os cristãos em todo o mundo. “Quando enfrentamos as tempestades da vida, temos de permanecer de pé como uma árvore forte, com as raízes profundamente fixadas na terra”, diz-nos ainda Yolla Ghandour. “As nossas raízes têm de estar plantadas em Deus; temos de suportar as mudanças e a dor com confiança no Seu amor.” Yolla não consegue esquecer as palavras do filho quando ele se despediu da família de volta ao quartel. Ele morreu mas para Yolla continua vivo na certeza de uma fé que nunca a abandonou.

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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