Artigos |
P. Nuno Amador
Somos responsáveis por aqueles que amamos

Chegou ao Campo de Férias sem conhecer quase ninguém. Entre a bagagem pesada que trazia vinha uma ficha negra, um quadro mau. A assistente social e a psicóloga que a redigiram não foram meigas, tal como a vida até ali não tinha sido. Com uma história familiar difícil, retirado à família e acolhido numa instituição, era emocionalmente instável, muito agressivo, não cooperante, líder na asneira. A apresentação feita deixava pouco de bom a desejar. Mas veio mesmo assim. Com tudo. Com a ficha inteira.

A semana foi espetacular, pela Serra do Gerês, com uma excecional e incansável equipa de animadores. Surpreendentemente, esteve quase sempre bem. Andou, correu, divertiu-se, rezou, fez amizades, cumpriu as tarefas. Nem parecia a mesma pessoa daquele boletim negro e fechado.

No último dia à noite saiu da roda a correr. Tinha sido tudo muito intenso. Um tempo de oração mais forte, testemunhos dos animadores, os sentimentos com dificuldade em ficarem presos. Foi tudo excessivo, desproporcional. A “Mamã” (figura afetiva de referência no Campo) foi atrás dele. Regressaram os dois logo depois, comovidos. Via-se que tinham chorado. Fui lá e perguntei: “Então, o que foi?”. Estava emocionado. Tinha saído da roda para que não o vissem chorar. Apesar de tudo, tinha um estatuto a manter. Respondeu com os olhos um pouco mais do que a brilhar: “Sabe, é que nunca me tinham dado aquilo que me deram aqui!”. Nunca mais me esqueci destas palavras. Nunca mais! “É que nunca me tinham dado aquilo que me deram aqui!”

Impressiona nesta história real as marcas que o desamor pode deixar na vida de alguém, tal como impressiona, talvez ainda mais, a força reparadora que o amor pode ter. A capacidade de acolher pode desbloquear no outro a capacidade de olhar para si próprio de uma forma nova, sem os habituais preconceitos, e desimpedir um coração cerrado pelo medo de não ser amado.

Para o bem e para o mal, somos constituídos nas relações, “tornamo-nos nós próprios na relação com os outros” (Martin Buber). E a forma livre e gratuita como os outros se aproximam de nós vai-nos ajudando a ser pessoas maduras e equilibradas, fortes e livres, com coerência e equilíbrio de juízos e de comportamentos, capazes de responder com amor ao amor com que fomos amados.

As relações onde nos sentimos amados e queridos são fonte de orientação e sentido. Vamos guardando na nossa memória mais profunda o cuidado e a atenção que nos dão como predisposição a confiar nos outros e a acreditar neles. A proximidade deles deixa-nos felizes e a presença deles alegra-nos. A experiência de ser amado é o lugar onde aprendemos a amar.

Pelo contrário, quando a experiência é oposta, quando somos rejeitados, quando não nos sentimos queridos, permanece o desejo de evitar novas relações. A antecipação prevista de uma nova rejeição ou da traição, a dura recordação do que já se viveu ou até a imaginação fantasiosa do que poderá ainda ser pior podem ser, mesmo que inconscientes, um muro alto, uma carapaça de defesa onde a pessoa se aprisiona como num castelo sem janelas e sem portas onde se subiram as ameias. Vai-se cavando um fosso que se torna intransponível, onde a pessoa se sente aprisionada e paralisada.

A importância vital das nossas relações não pode deixar de a cada momento nos interrogar acerca da qualidade e profundidade dos encontros que vivemos e das relações que tecemos.

E a primeira coisa que devíamos sondar é a forma como fomos e como nos sentimos amados. Todos temos amor a agradecer e todos temos desamor a perdoar. Aceitar olhar, sem medo, a história das nossas relações é aprender a olhar a história da nossa salvação, nos seus encontros e desencontros, passo fundamental para nos deixarmos amar onde precisamos de ser amados, para nos deixarmos salvar onde precisamos de ser salvos. Uma memória afetiva purificada e agradecida é essencial para seguirmos em frente, curados e mais fortes.

Mas podemos também perguntar pela forma como temos amado, pela qualidade e pela gratuidade das nossas relações. Mesmo quando não temos com os outros uma má relação, mesmo quando não provamos a experiência limite do abandono e do desamor extremo podíamos ainda assim questionar se o eco das palavras, da vida e das necessidades dos outros ficam verdadeiramente a ressoar em nós. Tal como devíamos perguntar onde é que conseguimos, de facto, chegar mesmo ao coração dos outros. Pactos de não agressão e convivência polidas e pacifica são importantes, mas não significam necessariamente profundidade nas relações. Talvez seja preciso ir mais longe, até àquela corda certa que é preciso aprender a tocar, com respeito e delicadeza, porque o outro é terreno sagrado onde só se entra descalço.

 

Artigo publicado originalmente no portal dos jesuítas Ponto SJ (www.pontosj.pt)