Entrevistas |
Irmã Maria Izabel Ferreira, superiora da comunidade de Queluz de Baixo (Barcarena) das Irmãs Canossianas
Uma missão que abrange o arco da vida toda
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A Congregação das Irmãs Canossianas está a completar 50 anos de presença no Patriarcado de Lisboa e, em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, a irmã Maria Izabel Ferreira, superiora da comunidade de Queluz de Baixo, na Paróquia de Barcarena, fala do dia a dia da congregação e do papel na educação das crianças, mas também na evangelização e na assistência aos doentes.

 

Qual é, atualmente, a missão da congregação na Paróquia de Barcarena?

Aqui, o nosso mandato principal é a educação. Na nossa instituição temos duas valências: creche e pré-escolar. Inicialmente, a nossa casa em Queluz de Baixo (Barcarena), foi aberta como casa de noviciado, para a formação das irmãs portuguesas, mas nunca ficou só por aí porque, desde o início, as irmãs começaram também a dedicar-se ao trabalho pastoral. A escola, oficialmente, só foi criada 10 anos depois. Digo, “oficialmente” porque, 5 ou 6 anos antes, as irmãs já acolhiam aqui crianças. Eram crianças da zona e os pais trabalhavam nas fábricas locais. Então, vinham pedir às irmãs para ficarem com os filhos, enquanto eles trabalhavam. E começou assim. Depois, mais tarde, as irmãs já não eram suficientes para tanta procura. No entanto, a comunidade nunca deixou a evangelização e, na nossa casa, também acolhemos a catequese, até porque a comunidade de Queluz de Baixo não tem salas de catequese.

 

No último sábado, 14 de setembro, foi benzido e inaugurado um novo espaço – a Casa de Nossa Senhora de Fátima – onde funcionam as valências de creche e jardim-de-infância. Este é o concretizar de um desejo antigo?

Sim, faltavam condições físicas, necessárias e exigidas, que agora conseguimos colmatar. Nesta zona, em Queluz de Baixo, esta é a única IPSS com creche e jardim-de-infância. Temos capacidade para 118 crianças, 75 no jardim-de-infância e 43 na creche. Temos também 13 funcionários. O novo edifício é uma melhoria significativa na qualidade e nas condições para poder servir as crianças.

 

Qual a origem da congregação?

A nossa congregação nasceu em 1808. Em 2008, fizemos 200 anos de existência! E nasceu em Itália, mais propriamente em Verona, pela Marquesa Madalena de Canossa, que viria a ser canonizada em 1988. Ao longo dos anos, espalhou-se pelos cinco continentes e, atualmente, somos cerca de três mil irmãs, em todo o mundo. Em Portugal, temos apenas duas comunidades, uma no Porto – que foi a primeira, a casa mãe – e esta, em Queluz de Baixo. Nas duas comunidades, o ministério principal é a educação. Nesta comunidade, ao longo de 50 anos, já passaram 47 irmãs. A casa começou com sete, oito religiosas, depois foram diminuindo, também por causa da falta de vocações, mas sempre tivemos um número mínimo de cinco irmãs. Atualmente, ainda temos esse número, mas uma delas está à espera de ser transferida para Itália, já na próxima semana.

 

O que a fascinou, na vida da fundadora Santa Madalena de Canossa, e que a levou a seguir a vida consagrada nesta congregação?

Eu conheci as irmãs Canossianas através dos padres redentoristas. É engraçado porque me perguntam porque é que eu não fui para a congregação feminina redentorista... Porque não era para ser! Foi através das missões populares, dos padres redentoristas, que eu despertei para a questão vocacional. Na altura, não sabia para onde e como, mas conversando com um sacerdote, que me deu um livrinho com diversos institutos, com a sua espiritualidade e atividade carismática, eu escolhi as Canossianas... Não sei porquê. Tinha 14 anos quando comecei a procurar, fiz um caminho vocacional com elas e entrei aos 17 anos. Toda a formação foi feita no meu país, o Brasil.

 

Depois de sair do Brasil, é enviada para a Europa, mais concretamente para a Polónia. Como foi essa experiência?

Foi maravilhosa, ótima, mas, no início, foi um choque cultural e climático muito forte porque é o extremo. Mesmo a nível de Igreja, é muito diferente daquilo que tive no Brasil. Fui aprendendo a língua, o básico para sobreviver. No segundo ano até fui mestre de noviça de uma ucraniana. Tinha que falar um bocado polaco e italiano. Não foi simples. Nesse ano, já tinha um grupo de catequese, com crianças da paróquia, animava a liturgia de Domingo com o canto e fazíamos encontros vocacionais e preparávamos as colónias de férias.

 

Seis anos depois de ter saído do Brasil, vem para Portugal...

Foi uma passagem mais tranquila. É como chegar mais perto de casa, não só geograficamente, mas porque a origem do Brasil vem daqui... Claro que não posso dizer que já estou em casa porque existem diferenças, mesmo a nível cultural. Lembro-me que, no início, via televisão e não percebia nada do que se dizia no Telejornal, era tudo muito rápido. Agora, quando eu falo para brasileiros, dizem-me que estou a falar português e esforçam-se para perceber.

 

A crise de vocações preocupa a congregação?

A crise de vocações é um facto que não é só da nossa congregação. Por exemplo, em Portugal, estamos há mais de 50 anos e há mais de 20 anos que não temos uma vocação. É muito tempo! Noutros países, como no Brasil, não existem grande grupos, mas sempre vai existindo uma, duas, três. As irmãs portuguesas já estão todas na idade da reforma e as comunidades têm ido avante porque existem outros países que vão investindo nas vocações e o conselho geral da congregação vai dando essa possibilidade.

Hoje, se não tiramos tempo para estar com os jovens e fazer atividades que tenham uma certa continuidade, não dá. Faltam recursos humanos para investir nesta questão da juventude, no trabalho direto com os jovens. Não faltam jovens, mas falta fazer, no meu ponto de vista, um trabalho direcionado. É preciso enfrentar este desafio. Tem que existir uma consequência, uma continuidade, para poder propor, acompanhar, poder dar o tempo. E quanto a isso, no nosso caso, não existem recursos humanos. Por isso, teremos que dar uma atenção especial a este problema.

 

Como é o dia a dia desta comunidade religiosa?

O dia a dia é muito puxado, corrido e movimentado. Às 6 horas já estamos de pé e, às 6h30, temos a oração das Laudes. De seguida, temos a Missa – com exceção da segunda-feira, dia em que a Missa é celebrada, ao final da tarde, pelo pároco de Barcarena, padre Raimundo, desde que tomou posse e assumiu essa missão. Nos restantes dias, temos os padres Missionários da Consolata, da comunidade de São Marcos. Depois do pequeno almoço, cada uma vai para o seu trabalho. Eu e a irmã Sílvia, que estamos na direção da escola, dividimo-nos, de manhã e à tarde, entre a atenção ao pré-escolar e à creche. Uma outra irmã fica responsável pelas coisas da casa e outras coisas, mas todas estamos empenhadas na escola.

No fim-de-semana, estamos todas empenhadas na catequese e na animação litúrgica, participamos nas celebrações da comunidade paroquial, aqui em Queluz de Baixo, na Capela de Nossa Senhora de Fátima, mesmo em frente à nossa casa.

 

O que é que a população pode continuar a esperar desta congregação?

Pode continuar a esperar a disponibilidade do nosso serviço. Poucas ou muitas, sempre vamos procurar dar, dentro das nossas possibilidades, aquilo que de melhor conseguirmos, sobretudo na educação, com uma pastoral educativa onde os pais possam contar connosco e onde haja essa abertura, também da parte deles, para colocar os problemas, dialogar e ver o que é melhor. Também pode contar, mesmo que os recursos sejam poucos, com a nossa disponibilidade para a evangelização e a visita aos doentes. Estes são os nossos três ministérios: educação, evangelização e, depois, a assistência aos doentes. Era isso que a nossa fundadora queria, que o nosso ministério abrangesse o arco da vida toda. Santa Madalena queria muito que acompanhássemos essas pessoas, fazendo-as chegar bem, felizes, ao encontro com Deus e acolhendo aquele momento como um dom de Deus.

 

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“Testemunho no dia-a-dia”

A irmã Sílvia, hoje com 70 anos, esteve na abertura da casa da congregação, em Queluz de Baixo, em 1969. Os primeiros dias da nova casa da congregação, há 50 anos, foram também os seus primeiros dias de noviciado. O contexto “era muito diferente”. “Isto evoluiu muito, no bom sentido. As poucas casas que existiam eram muito velhinhas, isto era só campo e ainda se viam passar rebanhos de ovelhas. Era um meio muito rural que evoluiu para a zona industrial, que conhecemos nos dias de hoje”, apresenta ao Jornal VOZ DA VERDADE esta religiosa que é natural de Santo Tirso.

Depois do noviciado, foi enviada para outras missões, fora de Portugal, e regressou cerca de 10 anos depois, a tempo de conhecer uma paróquia “muito pobre” que contrasta agora com a situação atual, onde se vêm “muitos movimentos” e outros dinamismos. Passados 50 anos da consagração, assinalados na celebração que decorreu no sábado, 14 de setembro, a irmã Sílvia continua empenhada, como no primeiro dia, em viver o carisma da fundadora, Santa Madalena, através do testemunho de vida. “Procuro transmitir o amor e dar a conhecer Jesus a todos. Não é com grandes palavras – que não as tenho –, mas com o testemunho no dia-a-dia”, sublinha.

 

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“Com cada vida autenticamente cristã, o mundo futuro torna-se presente!”

Na celebração que assinalou os 50 anos da presença das irmãs Canossianas em Barcarena, e comemoração dos aniversários de 50 e 60 anos de consagração de algumas religiosas, o Cardeal-Patriarca desafiou os cristãos a estarem “disponíveis para o que Deus quiser”. “Deus trabalha no mundo com aqueles e aquelas que se abrem à sua presença e à sua vontade salvadora e que se põem do lado de Deus para resolver os problemas”, assinalou.

D. Manuel Clemente alertou ainda para o risco de se especular sobre “como Deus seja, como seria ou como há de ser”. “Olhemos para a maneira como a Bíblia Sagrada nos mostra Deus a trabalhar no coração daqueles que realmente estiveram do seu lado, para estarem ao lado de todos, para se anteciparem até nos problemas. Com Deus, é possível! Com cada vida autenticamente cristã, o mundo futuro torna-se presente!”, assegurou, dando como exemplo a missão das irmãs Canossianas e sublinhando que esta não é uma consequência “abstrata”. “Com Cristo, tudo é possível”.

texto e fotos por Filipe Teixeira
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