Missão |
Andreia Vicente, do Voluntariado Passionista
“Sentia-me em casa!”
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Andreia Vicente nasceu a 16 de dezembro de 1993, em Ovar. Vive em Maceda, mas foi em Santa Maria da Feira que encontrou o grupo do Voluntariado Passionista, com que esteve em Calumbo, em Angola, durante um mês, em missão.

 

Diz que é “apaixonada pelas Artes” e foi isso que estudou até ao 12º ano. Fez o seu percurso religioso até ao Crisma, “acompanhando quase sempre a minha Mãe quando ia à Missa, questionando-me várias vezes o porquê de ter de ir, mas lá ia”. “Quando era mais nova apesar de andar na Catequese, ir à Missa nem sempre era o mais desejado. Com o passar dos anos, amadurecendo comecei a perceber, e principalmente a sentir a necessidade que tinha de estar na presença d’Ele”. Não prosseguiu os estudos para além do ensino secundário e em 2012 começou a trabalhar com crianças num ATL, “e desde então que os lugares por onde tenho passado foram quase sempre ligados à Educação”. “Fiz Formação Profissional de Técnico de Ação Educativa, e neste momento encontro-me a trabalhar num Centro Infantil, em Rio Meão. Fiz também formação na área da Maquilhagem e Caracterização, uma área que me encanta pela forma como é feito o trabalho atrás dos grandes ecrãs”, partilha. Em 2017, participou no Projeto ‘Um dia pela Vida’, da Liga Portuguesa Contra o Cancro. No mesmo ano, conheceu o Nelson, seu namorado desde essa altura, que lhe apresentou o Voluntariado Passionista, mas diz que inicialmente não ficou “muito convencida”. Após conhecer mais membros do grupo houve rapidamente “uma ligação, e vontade de ajudar o grupo dando aquilo que de melhor eu sabia fazer”. Em 2018, participou em atividades do Voluntariado Passionista (Angariações, Formações, Voluntariado na Casa dos Pobres em Coimbra, etc.). Em 2019, após enviar a carta de motivação, começou a participar nas formações da FEC – Fundação Fé e Cooperação. “As Formações, quer as da FEC quer as internas realizadas dentro do grupo, são bastante importantes e só quando estamos no terreno de Missão é que damos conta disso que nos é alertado tantas vezes pela Catarina e por outros testemunhos de Voluntários que já fizeram Missão. Comprado o bilhete de avião, vacinas tomadas, medicação comprada, malas prontas, tudo prontinho e as borboletas na barriga começavam a fazer-se sentir”, conta-nos.

 

“Por mais gotas como nós”

Sobre a sua experiência em Angola, partilha na primeira pessoa: “O grande dia chegou, e os nervos dissiparam-se na hora em que entrámos no avião, só queremos lá chegar o quanto antes. Mas o choque da chegada foi grande. O clima quando saímos do avião, a correria da cidade de Luanda ainda era ‘normal’ para o que estamos habituados, mas começando a viagem até Calumbo, e a realidade com que nos deparamos começa a apertar-nos o coração. Começamos a ver um degradé da cidade até ao Zango que dói. Por mais que nos digam, que a gente veja na televisão, ver as condições desumanas em que algumas pessoas vivem, sem condições de higiene, de conforto para passar uma noite, fazer uma refeição, e nós queixamo-nos de quê? Quando chove temos um teto, quando estamos cansados depois de um dia de trabalho gostamos de tomar um banho e temos uma cama para descansar, e estas pessoas? E estes pensamentos começaram a mexer comigo ao longo do primeiro dia. Foi mesmo difícil. Mais difícil saber que nós tínhamos as mínimas condições que comparado a todo este cenário nós estávamos muito bem na comunidade, e logo ali do lado de fora do portão não era bem assim. Mas tudo isto foi uma lição, porque nunca vi povo tão feliz como aquele, que mesmo não tendo tudo e faltando os bens mais essenciais, têm o mais importante, o amor, respeito e gratidão pelo próximo. Coisas simples que nós às vezes aqui complicamos tanto, dizer um bom dia, passas-te bem?, precisas de alguma coisa?, ou obrigado. Cá, passamos a vida a correr sem prestar atenção a quem nos rodeia. No dia seguinte e já com tudo mais claro na minha cabeça, comecei o trabalho na biblioteca, catalogação dos livros, inserir direitinho na base de dados, trabalho que já havia sido iniciado pelas voluntárias que chegaram na semana anterior. Começaram a aparecer os miúdos que já sabiam que nós tínhamos chegado, e que nos queriam conhecer, tanto como nós a eles. Ao longo das primeiras duas semanas dei apoio no estudo, principalmente em Língua Portuguesa. E ficamos embasbacados quando vemos miúdos da 4ª classe que não sabem ler, ou escrever, mas decoraram a lenga-lenga do abecedário, e quando perguntamos por uma letra aleatoriamente não sabem de qual se trata. Contamos histórias, cultivamos o gosto pela leitura, melhoria da escrita através de cópias, fizemos peças de teatro de histórias da nossa infância, ou até mesmo histórias inventadas pelos próprios miúdos que se juntavam em pequenos grupos e depois apresentavam aos restantes. Fizemos competições de perguntas de cultura geral, dança e teatro. Pintámos as paredes de duas salas da biblioteca, para que ficasse com um aspeto mais acolhedor e atrativo para os miúdos estudarem e sentirem mais ligados ao significado de ‘biblioteca’. Eles adoraram e nós também. Demos muitos abraços, beijinhos, amor e carinho, fizeram-me tranças como as que elas tinham, fiz desenhos para eles, fizeram desenhos para mim que os trouxe carinhosamente comigo na mala. A par disto ainda demos apoio na formação de Corte e Costura, e Decoração à Irmã Teresa que era responsável por esta formação já existente. Visitámos a prisão, e reorganizamos a biblioteca lá existente. Nunca em nenhum momento senti medo, ou receio por estar na prisão, fomos sempre bem recebidos, quer pelos guardas quer pelos reclusos. Estamos eternamente gratos por todos os ensinamentos. A convivência entre voluntários do grupo nem sempre foi de dias coloridos e felizes, sempre que há uma vivência de 24h por dia, 7 dias por semana, um mês inteiro, é normal haver divergências. Mas a Missão nunca ficou condicionada por isso. E com estas experiências crescemos enquanto pessoas essencialmente. Estar em contato com Deus começou a ser uma necessidade diária, como comer, algo que nunca pensei que fosse acontecer. Quando me diziam isso, pensava que era exagero. E hoje não consigo bem explicar o que senti, mas sentia que tinha de ir de manhã agradecer pela noite que tinha passado, ao final da tarde, agradecer pelo dia que tinha tido. Essencialmente para retribuir o que Ele faz por mim, sentia-me grata. Saber que demos ferramentas e ensinámos métodos de trabalho e que as pessoas já estão a trabalhar e a dar frutos. Saber que por mais que sejamos uma gota no oceano, enquanto estivemos lá, demos tudo o que podíamos e isso fez a diferença. Por mais gotas como nós. E o desejo de querer voltar e por mais tempo é ainda maior agora. Ir com um ombro amigo, companheiro de viagem é sempre uma mais-valia, porque será o nosso pilar nos momentos mais difíceis, mas também nos momentos de alegria e conquista, será com essa pessoa que iremos partilhar o quão felizes estamos. E Angola ainda nos marcou mais, em especial a mim e ao Nelson, pelo culminar de 2 anos de partilha de experiências, de aprendizagens e acima de tudo, de muito amor. E foi com todo o amor que sinto por ele, que eu disse o ‘sim’.”

texto por Catarina António, FEC | Fundação Fé e Cooperação
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