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Pe. Alexandre Palma
Os maiores feitos da Igreja em Portugal

Quais serão as realizações da Igreja em Portugal, fruto do seu empenho e compromisso, minimamente nacionais? Obras nas quais a pluralidade de dioceses e congregações, leigos e clérigos, de sensibilidades e opiniões, situadas ao norte ou ao sul, tenha convergido para gerar qualquer coisa de novo e com real impacto na sociedade portuguesa? Confesso que nunca me teria colocado esta questão, não fora uma conversa que tive um dia com D. José Policarpo. Para ele era claro que essa realização era a Universidade Católica Portuguesa. A sua leitura resultava de um misto de leitura lúcida da realidade e paixão por esse projecto de ensino com que esteve, até ao fim, profundamente comprometido. A combinação de análise objectiva e sentido de pertença não lhe toldava o juízo. Pelo contrário, abria-lhe horizontes.

Confesso que se algo tenho a apontar a essa resposta é ela pecar por defeito. Mas não muito, reconheça-se. Na verdade, pensando em feitos efectivos do passado recente do catolicismo português, consigo apenas associar mais dois: a Rádio Renascença e o Santuário de Fátima (sendo que este tem uma natureza radicalmente diferente). Julgo ser interessante que, num contexto tradicionalmente avesso a projectos comuns (o português!), as únicas coisas que, como Igreja, tenhamos conseguido realizar juntos seja nas áreas do ensino e da comunicação. Com efeito, não é coincidência que os grandes períodos de vitalidade cristã tenham sido precedidos e acompanhados de projectos consistentes no campo da educação. Assim foi no período medieval, com emergência das escolas monásticas, catedralícias e, logo, com a invenção da universidade. Foi-o no período moderno, animado pelo surgimento de comunidades como os jesuítas ou os oratorianos, exemplos de sínteses possíveis entre evangelização e educação. E foi-o no período contemporâneo, com a multiplicação de projectos educativos de matriz cristã, de que os salesianos e o seu peculiar carisma de «evangelizar e educar os jovens» será um exemplo eloquente e a multiplicação de universidades católicas pelo mundo afora uma óbvia concretização. Intuição análoga levou outros a perceber como a comunicação social se tornava um novo palco para fazer acontecer o Evangelho. À escala universal, penso em Tiago Alberione, fundador da família paulista. Entre nós, penso em Mons. Lopes da Cruz, fundador da Renascença.

Sei bem que nem a Universidade Católica nem a Rádio Renascença ou qualquer outra realização eclesial estão imunes a críticas, venham elas do debate público, venham elas dos próprios cristãos. Seria estranho que assim não fosse. Essa dialéctica, aliás, decorrerá de algo bastante natural, nas sociedades como na Igreja: a existência de perspectivas contrastantes. Mas estou também convencido de que o catolicismo português seria incomensuravelmente mais frágil sem estas suas grandes realizações. Mais frágil, porque menos relevante na sociedade que também somos. Mais frágil, porque menos capaz de preparar o futuro. Que a saudável dialéctica de perspectivas sobre a identidade e trabalho dessas instituições não no-lo faça esquecer. À imagem do que ocorreu no passado, também da Universidade Católica e da Rádio Renascença dependerá muito da futura vitalidade cristã e relevância eclesial em Portugal.