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Pedro Vaz Patto
Natalidade e ambiente

O príncipe Harry e a esposa, Meghan Markle, declararam que não pretendem ter mais do que dois filhos, para dessa forma darem um exemplo de preservação do futuro ambiental do planeta. Atitudes como essa vão-se generalizando. Há mesmo quem, com essa motivação, recuse ter filhos. Há tempos, foram muitos os que, por isso, criticaram o irmão de Harry, o príncipe William, e a esposa, Kate Middleton, quando lhes nasceu o terceiro filho.

Logo a seguir a tais declarações, foram muitas as vozes que criticaram o príncipe Harry por usar tão frequentemente um jato privado nas suas deslocações (numa ocasião, foram quatro vezes em onze dias). É evidente que essas deslocações muito mais afetam o ambiente do que o fazem pessoas com hábitos mais modestos. É claro que o crescimento demográfico poderá prejudicar o ambiente se não forem alterados os hábitos de produção e consumo. Mas o que se tem verificado nos países ricos é que a queda da natalidade coincide com a manutenção (e até o incremento) desses hábitos. Decisivo na perspetiva da preservação do ambiente, não são o maior, ou menor, crescimento demográfico, mas, antes, esses hábitos de produção e consumo. A redução da natalidade (que muitas vezes se propugna para os países pobres) pode, até, servir de fácil pretexto para não alterar esses hábitos (que são, sobretudo, os dos países ricos).

A esta questão alude o Papa Francisco na encíclica Laudato si’. Aí afirma (n. 50).

«Em vez de resolver os problemas dos pobres e pensar num mundo diferente, alguns limitam-se a propor uma redução da natalidade. Não faltam pressões internacionais sobre os países em vias de desenvolvimento, que condicionam as ajudas económicas a determinadas políticas de “saúde reprodutiva”. Mas, “se é verdade que a desigual distribuição da população e dos recursos disponíveis cria obstáculos ao desenvolvimento e ao uso sustentável do ambiente, deve-se reconhecer que o crescimento demográfico é plenamente compatível com um desenvolvimento integral e solidário”. Culpar o incremento demográfico em vez do consumismo exacerbado e seletivo de alguns é uma forma de não enfrentar os problemas. Pretende-se, assim, legitimar o modelo distributivo atual, no qual uma minoria se julga com o direito de consumir numa proporção que seria impossível generalizar, porque o planeta não poderia sequer conter os resíduos de tal consumo.»

A queda da natalidade que impede a renovação das gerações (renovação que não é assegurado quando os casais têm menos do que dois filhos) origina graves problemas de sustentabilidade dos sistemas de proteção social e de saúde.

Mas há que acentuar, sobretudo, que a proteção do ambiente não deve ser encarada numa perspectiva anti-humanista, como se a presença e atividades humanas fossem necessariamente nefastas nessa pesrpetiva. A natureza deve ser vista como um dom de Deus à humanidade. O ser humano é, na visão bíblica e cristã a coroa da criação, «criado à imagem e semelhança de Deus» (Gn 1, 26-27), «a única criatura que Deus quis por si mesma» (Gaudium et Spes, 24). Cada pessoa humana vale mais do que as árvores, os oceanos e as estrelas. A sua especificidade reside na sua liberdade, Uma liberdade que lhe permite destruir esse dom que recebeu, mas também que lhe permite preservá-lo, dar-lhe sentido e valor, e, através da inteligência e criatividade, aperfeiçoá-lo e completá-lo.

É por isso que não faz sentido contrapor a natalidade e a proteção do ambiente.