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Consistório para a criação de novos cardeais
Homens de “compaixão”
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No consistório em que criou 13 novos cardeais, entre os quais D. José Tolentino de Mendonça, o Papa Francisco pediu-lhes “compaixão” e atenção a todos, em especial aos “descartados” da sociedade. O Jornal VOZ DA VERDADE falou com dois dos portugueses que viajaram até Roma para acompanhar o “amigo” que foi escolhido pelo Papa para cardeal.

 

No dia anterior a ser criado cardeal, o então arcebispo português D. José Tolentino de Mendonça dizia estar pronto para “arregaçar as mangas” e servir o Papa nesta nova fase da sua vida. “Sou chamado, estou aqui, com o que sou, venho arregaçar as mangas e servir, ser um cardeal entre os outros”, declarou, num encontro com jornalistas, que decorreu na Sala de Imprensa da Santa Sé. “Nós somos uma obra dos outros. Eu não chego a cardeal sozinho, trago comigo uma história, uma multidão interminável de rostos, de abraços, de lágrimas, de sorrisos, de que sou portador. Tenho de ser fiel a essa memória”, prosseguiu.

E foram precisamente as memórias que fizeram com que Maria Antónia Vasconcelos viajasse até Roma, juntamente com o marido e a filha, para assistirem ao momento em que o “padre Tolentino” ia ser criado cardeal. Foi aos “cinquenta e poucos anos” que esta leiga conheceu o padre Tolentino, no Instituto Diocesano da Formação Cristã, onde era professor. “Durante anos, ao final da tarde, depois do trabalho, eu frequentava a Escola de Leigos. Nessa altura, estavam lá os professores da Universidade Católica, incluindo o padre Tolentino. Fiquei muito impressionada com a sua maneira de falar”, lembra Maria Antónia, em declarações ao Jornal VOZ DA VERDADE. Mais tarde, e depois de 35 anos a trabalhar como editora chefe numa empresa americana, Maria Antónia decide dar um novo rumo à sua vida e, aos 59 anos, ingressa no curso de Teologia da Universidade Católica, onde volta a encontrar o padre José Tolentino de Mendonça, que considera ser “um mestre da escuta”. “Foi meu professor. É um professor brilhante e exigente, de uma exigência a sério!”, afirma Maria Antónia, de 76 anos.

Dos dias que passou recentemente em Roma, para acompanhar o consistório, esta paroquiana do Campo Grande, em Lisboa, destaca a “comoção e grande alegria” que sentiu por ter participado naquela “cerimónia lindíssima”. Na opinião de Maria Antónia Vasconcelos, ao escolher D. José Tolentino como cardeal, o Papa Francisco reconhece no bispo português “um homem da cultura”. “Nós sabemos o que a cultura tem a ver com os estudos bíblicos e com a fé das pessoas. Não podemos viver sem música, sem estudos literários”, argumenta.

 

“Deus veio à nossa casa”

Para o atual capelão da Universidade Católica Portuguesa (UCP), padre Miguel Vasconcelos, este acontecimento foi lido como “fazendo sentido no percurso” de D. José Tolentino. “Não na lógica carreirista, mas numa consciência de que as pessoas que se destacam pela capacidade luminosa que têm de ver a realidade, é bom que não o façam só num sítio e que possam ter a oportunidade de contribuir para a vida da Igreja como um todo, como está agora a fazer”, referiu, ao Jornal VOZ DA VERDADE, o sacerdote, de 32 anos, que tem agora uma missão na UCP que já foi do mais recente cardeal português.

Para o padre Miguel, que também esteve em Roma para assistir às celebrações, este acontecimento fá-lo ter um “olhar de esperança” para a Igreja ao saber que o Papa, “pela ação do Espírito Santo, conta com um português para ir ajudando a Igreja a caminhar”. “Sabemos que temos lá uma pessoa que conhecemos. No meu caso, foi meu professor e meu antecessor como capelão, e é também meu amigo”, revela.

Para a capelania da Universidade Católica, a nomeação de D. Tolentino como arquivista e bibliotecário da Santa Sé, e, agora, a elevação a cardeal, “é a consciência de que Deus veio à nossa casa buscar alguém para uma missão maior, mais abrangente”. “E isso é algo que nos honra”, sublinha o padre Miguel Vasconcelos, recordando uma das “heranças” deixada pelo mais recente cardeal luso: “Algumas pessoas que o padre Tolentino acompanhou, quando era capelão da Universidade Católica, acabaram por fazer parte de uma das equipas de casais que ele tinha e que me deixou como ‘herança’. Para mim, isto faz muito sentido porque é uma história da capelania. Apesar de eu não a ter vivido na primeira pessoa, hoje em dia vejo os frutos nessa equipa que acompanho. É bonito ver que os frutos são também frutos de serviço e que nos ajudam a perceber a obra que está por trás”.

 

Compaixão

Em Roma, na Basílica de São Pedro, na tarde do passado dia 5 de outubro, o Papa Francisco pediu aos novos cardeais para serem homens de “compaixão”, atentos a todas as pessoas, em particular aos “descartados” da sociedade. “A disponibilidade de um purpurado para dar o seu próprio sangue – significado na cor vermelha das suas vestes – é certa, quando está enraizada nesta consciência de ter recebido compaixão e na capacidade de ter compaixão. Caso contrário, não se pode ser leal”, referiu o Papa, na homilia do consistório público a que presidiu. Perante os 13 novos cardeais, Francisco declarou que “muitos comportamentos desleais de homens de Igreja” se ligam à “falta deste sentimento da compaixão recebida e do hábito de passar ao largo, do hábito da indiferença”. “Jesus vai procurar as pessoas descartadas, aquelas que já estão sem esperança”, recordou. O Papa lamentou que, muitas vezes, os discípulos de Jesus mostrem “não sentir compaixão”, uma atitude “comum” nos seres humanos, “mesmo em pessoas religiosas ou até ligadas ao culto”. “A função que desempenhamos não basta para nos fazer compassivos”, advertiu. “Peçamos hoje, por intercessão do apóstolo Pedro, a graça dum coração compassivo, para sermos testemunhas daquele que nos olhou com misericórdia, escolheu, consagrou e enviou para levar a todos o seu Evangelho de salvação”, concluiu o Papa.

 

Missão da Igreja

No final do consistório, o cardeal D. José Tolentino de Mendonça confidenciou, aos jornalistas, a conversa que teve com o Papa Francisco. “Quando chegou à sacristia, o Santo Padre cumprimentou cada um dos que iria criar cardeal. E, quando ele se abeirou de mim, eu disse-lhe: ‘Santo Padre, o que é que me fez?’. Ele riu-se e disse-me: ‘A ti, eu digo aquilo que um poeta disse – tu és a poesia’.” D. José Tolentino garante que vai guardar estas palavras “no coração”, e interpreta-as como uma forma de o Papa dizer “uma coisa essencial: que a Igreja conta com uma determinada sensibilidade, uma atenção a um determinado campo humano, que é o campo da cultura, das artes, da estética”. “O Santo Padre considera que esse campo é também importante para a missão da Igreja e para aquilo que ela é chamada a ser no mundo contemporâneo”, reforçou.

Já no dia seguinte, na celebração eucarística, na Basílica de São Pedro, em que concelebraram os mais recentes cardeais, incluindo D. José Tolentino, e que marcou também o início do Sínodo dos Bispos para a Amazónia, o Papa Francisco defendeu que a Igreja está “sempre a caminho, sempre em saída, nunca fechada em si própria”. “Se tudo continua igual, se os nossos dias são pautados pelo ‘sempre se fez assim’, então o dom desaparece, sufocado pelas cinzas dos medos e pela preocupação de defender o status quo”. Depois de dizer que viver a fé e anunciar o Evangelho “é amar até ao martírio”, o Papa deu “graças a Deus porque no Colégio Cardinalício há alguns irmãos cardeais mártires”.

 

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Cardeal-Patriarca destaca o contributo do novo cardeal para a “vertente estética” da evangelização

No consistório para a criação de novos cardeais, o Cardeal-Patriarca de Lisboa referiu que o novo cardeal D. José Tolentino de Mendonça é uma referência para desenvolver a “vertente estética” da evangelização. “Temos de ser criativos, não basta fazer apenas como fazíamos, nem basta irmos a locais longínquos, onde o Evangelho nunca foi anunciado, porque nos nossos próximos territórios, falando em nós, Portugal, há muita gente para quem a fé já não é uma coisa viva”, referiu D. Manuel Clemente, à Agência Ecclesia, no Vaticano, onde participou no consistório, no sábado e na Missa de abertura do Sínodo especial para a Amazónia.

O Cardeal-Patriarca disse ainda que o novo cardeal português será uma figura inspiradora também para a Jornada Mundial da Juventude 2022, em Lisboa, que vai ter “uma vertente estética muito forte”. “A beleza abre os corações”, defendeu D. Manuel Clemente, elogiando o trabalho do arquivista e bibliotecário da Santa Sé, que tem conseguido fazer destas instituições “uma realidade viva, porque os livros estão cheios de futuro”.

 

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“Envio ao novo cardeal um cumprimento caloroso e amigo e os desejos de que continue a ser uma referência para tantos, católicos ou não, que lhe reconhecem o valor cultural e humano de quem é, como o próprio se definiu, ‘um facilitador de encontros’.”

Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República

 

“O cardeal Tolentino Mendonça não é apenas um católico, não é apenas um religioso, é alguém que pensa, é um pensador e é um construtor de pontes, quer do ponto de vista ecuménico, quer do ponto de vista do diálogo inter-religioso.”

Francisca Van Dunen, Ministra da Justiça

 

“É um momento de grande alegria, grande regozijo, para a Igreja em Portugal e para o país, porque é uma pessoa de referência, singular, quer ao nível cultural, pelo seu diálogo com a cultura, pela sua inserção no âmbito da literatura em Portugal.”

Cardeal D. António Marto, Bispo de Leiria-Fátima

 

“É um homem de Deus, reconhecido por todas as áreas da nossa sociedade, ultrapassa fronteiras, ultrapassa linhas vermelhas, é um homem do diálogo, do conhecimento, da academia, dos símbolos, e por isso é um homem todo o terreno.”

D. Américo Aguiar, Bispo Auxiliar de Lisboa

 

“Ele aproveita tudo de bom e de mau que as pessoas têm para as fazer crescer. Toda a gente sentiu nele um amigo. O padre Tolentino é um homem de uma fé inabalável, de oração, que, com muita simplicidade e humildade, toca no coração das pessoas, sejam crentes ou não.”

Diácono José Alberto Costa, da Capela do Rato

 

“Ele faz acima de tudo uma grande ponte: antes de poder vir a ser Papa, ele é antes de tudo um grande pontífice. Constrói pontes e as pontes que ele constrói são caminhos abertos, caminhos multilaterais.”

Laurinda Alves, jornalista

texto por Filipe Teixeira com Ecclesia; fotos por Arlindo Homem/Agência Ecclesia
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