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Guilherme d'Oliveira Martins
Maria Manuela Silva (1932-2019)

Se houve nas últimas décadas uma cristã militante social da maior relevância, exemplo do compromisso permanente e da defesa intransigente da dignidade da pessoa humana, em coerência plena com o espírito e a letra do Concílio Vaticano II e com todo o ancestral ensino social e económico da Igreja Católica – foi Manuela Silva. Tal ficou demonstrado em toda a sua ação, designadamente quando presidiu à Comissão Nacional de Justiça e Paz. A si se deve a coordenação de estudos científicos pioneiros sobre a pobreza, realizados nos anos 80, em ligação estreita com Alfredo Bruto da Costa, afirmando que a pobreza é uma grave violação dos direitos humanos, enquanto situação de privação por falta de recursos, correspondendo a privação em geral a não ter as necessidades básicas garantidas, por falta de meios ou outra razão. Para cada um dos casos as soluções são muito diferentes. Na pobreza é preciso ajudar as pessoas a ter meios, na privação é indispensável apoiá-las a fim de que a gestão dos recursos seja melhor assegurada. A pobreza apenas se resolve com autonomia. É uma das formas de exclusão social, mas não a única, há outras – como o isolamento dos idosos, que podem ter recursos materiais, a discriminação social de imigrantes ou deficientes etc.. A pobreza é um flagelo que exige políticas económicas – que corrijam a repartição dos bens e as desigualdades.

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Para pôr a pobreza no primeiro plano, nas suas formas mais complexas e difíceis, é necessário coordenar políticas económicas, controlar os mercados financeiros, não formalmente, mas em termos substanciais, e apostar corajosamente na educação e na formação. “A pobreza afeta os pobres, mas também a qualidade da democracia” – repetia insistentemente.

Como Secretária de Estado para o Planeamento no I Governo constitucional (1976-77), ao lado de António Sousa Gomes, deixou pensamento e ação, tendo integrado diversos grupos de peritos no Conselho da Europa, na OIT e nas Comunidades Europeias. Como economista pioneira e exemplar foi das primeiras pessoas a estudar no terreno o fenómeno da vida comunitária e da sua ligação às condições de desenvolvimento. O projeto de desenvolvimento comunitário da Benedita (Alcobaça), coordenado em 1963 pela jovem investigadora Maria Manuela Silva é hoje ainda um caso exemplar de um trabalho com consequências práticas em vários domínios no campo do desenvolvimento. Como afirmou então: «As técnicas clássicas de desenvolvimento não se mostraram eficientes para promover o crescimento de certas zonas, conhecidas por isso pela designação de «regiões-problema». A técnica de desenvolvimento comunitário, apresentando a vantagem de aproveitar dados da Economia e da Psicologia, procura vir ao encontro dessa dificuldade e baseia-se fundamentalmente na adesão das populações e sua participação efetiva em todas as fases do processo de desenvolvimento». Ao relermos hoje esse estudo e ao compará-lo com o que permitiu avançar e com o que foi esquecido, podemos dizer que o exemplo da então coordenadora deve ficar bem presente na nossa memória. De facto, o planeamento estratégico e a ligação à vida das comunidades constituem uma exigência atual, de resposta aos desafios com que nos defrontamos.

Sou testemunha direta de como, até aos últimos dias, Maria Manuela Silva manteve-se empenhada, atenta, desperta e esperançosa no tocante à necessidade de não baixar os braços no combate pelo desenvolvimento humano. Manuel Brandão Alves confirmou como a generosidade de Manuela Silva foi até aos limites – muitas vezes deixando momentaneamente os medicamentos para não perder tempo no que tinha ainda para fazer! Lendo e relendo as encíclicas “Caritas in Veritate” de Bento XVI e “Laudato Si” do Papa Francisco dizia, nos últimos dias, ser necessário encarar a sustentabilidade a sério, não como uma fórmula ou como um método burocrático, mas como uma exigência. Não bastaria falar em reduzir a pobreza, uma vez que o objetivo seria erradicar a pobreza, nas suas diversas formas; não bastaria falar de sustentabilidade financeira, uma vez que é sempre uma economia mais humana que deve estar em causa. Como afirmou em “Economia e Sociedade – Pensar o Futuro” (Gulbenkian, 2018): “Nem todo o crescimento económico é virtuoso. Só o será se der origem a maior bem-estar das pessoas e das suas comunidades e a mais elevado progresso social, isto é, melhor nível de educação, saúde, conhecimento, segurança, liberdade e participação; se os seus frutos forem equitativamente apropriados e repartidos por todos os cidadãos, estratos sociais e territórios e, ainda, se for sustentável, que do ponto de vista ambiental quer em termos de coesão social, ou seja, se obedecer a critérios de ecologia integral”. Leia-se e releia-se o seu pensamento! Siga-se o seu exemplo! As Bem-aventuranças eram o seu programa! Continuemos a usufruir da sua riquíssima experiência e do se exemplo. Foi a parábola dos talentos, no sentido espiritual e económico, que sempre a ocupou.

 

foto por Agência Ecclesia