Artigos |
Pedro Vaz Patto
Arriscar a vida por um ideal

A última assembleia das comissões Justiça e Paz europeias decorreu na Eslováquia. Como habitualmente, a assembleia foi precedida de umas jornadas de estudo dedicadas a um tema com um relevo particular para o país anfitrião. O tema deste ano estava, por isso, ligado à memória da perseguição religiosa nesse país durante o período comunista, no ano em que se comemoram trinta anos da queda da “cortina de ferro”. Também como habitualmente, à reflexão e aos testemunhos juntou-se uma ação simbólica evocativa desse tema.

Nessa ação simbólica foi recordada a ação do padre salesiano Titos Zeman, que foi beatificado há dois anos. Esse padre ajudou muitos candidatos ao seminário a fugir da Eslováquia para a Áustria e daí para Itália, onde puderam receber a necessária formação. Por essa ação, veio a ser condenado a vinte e cinco anos de prisão (o procurador havia solicitado, no seu julgamento, a sua condenação na pena de morte), de que cumpriu treze. Veio a falecer em consequência das torturas que sofreu na prisão, pelo que foi declarado mártir.

A ação simbólica decorreu durante uma travessia de barco no Danúbio, precisamente onde muitas pessoas fugiam para a Áustria, correndo perigo de vida (cerca de quatrocentas vieram a falecer devido a essa travessia). Cada um dos representantes das comissões Justiça e Paz presentes foi convidado a refletir sobre que valores nos levariam hoje a correr riscos como os que correu o padre Zeman e as pessoas que atravessaram esta fronteira (que hoje se atravessa na maior das tranquilidades), sobre que valores queremos transmitir às novas gerações, que as levem a sair das suas zonas de conforto, a nadar contra a corrente e a não temer humilhações, incompreensões e perseguições.

As respostas salientaram, antes de tudo, o valor da liberdade de consciência e de religião (precisamente o que motivou o padre Zeman e os jovens que ele ajudou a atravessar aquela fronteira). Um valor precioso, que hoje é ameaçado de várias formas conforme os locais do globo. Outras salientaram o valor da fraternidade universal, numa altura em que parecem surgir novas fronteiras como “cortinas de ferro” a substituir esta que foi derrubada há trinta anos.

Não deixei de pensar que hoje parecem escondidos ideais pelos quais as pessoas estejam dispostas a dar a sua vida, ou sequer sacrificar o seu conforto. Daí a importância de transmitir às novas gerações esses ideais. 

E também me fez refletir o seguinte fenómeno. A todos, vindos de variados países europeus, surpreendeu o número de jovens que frequentam o serviço da pastoral universitária de Bratislava e as missas aí celebradas (em contraste com o que, mais ou menos intensamente, se verifica nesses outros países europeus). Um número que - de acordo com o que me disseram - não é muito diferente do que se verifica nas igrejas da Eslováquia em geral. Afirmei a um amigo eslovaco a minha surpresa por tal se verificar apesar da perseguição sofrida pelos católicos durante o período comunista. Ele disse-me que essa perseguição veio a fortalecer a fé de muitos. Na verdade, já na Antiguidade se dizia que «o sangue dos mártires é semente de cristãos». Os vários tipos de perseguição, e também as várias dificuldades por que passa hoje a Igreja, nunca devem levar-nos a perder a esperança.