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Conferência na Paróquia do Parque das Nações sobre o Sínodo para a Amazónia
“Viver a unidade na diversidade”
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O “grande desafio para a Igreja”, após o Sínodo dos Bispos para a Amazónia, que decorreu em outubro, no Vaticano, é o de “viver a unidade na diversidade, não na uniformidade”. A opinião é do padre Júlio Caldeira, missionário entre os indígenas que esteve em Lisboa, na Paróquia do Parque das Nações, para uma conferência.

 

A Igreja na Amazónia “não esperava um Sínodo dos Bispos para a Amazónia, convocado pela Igreja, convocado pelo próprio Papa Francisco”. O padre Júlio Caldeira, Missionário da Consolata que há dez anos vive na Amazónia, entre os indígenas, participou na comunicação do Sínodo, em Roma, e esteve depois em Lisboa, na conferência ‘O Sínodo para a Amazónia e a Missão’. “O Sínodo dos Bispos para a Amazónia ‘começou’ há 50 anos atrás, com a presença da Igreja, e teve um caminho”, explicou. No Vaticano, entre 6 e 27 de outubro, “a sala sinodal recebeu 283 participantes”. “Foi um processo onde se olharam os rostos, onde se partilhava. Nos pequenos círculos de trabalho, que são os que dão muito o rosto do Sínodo, havia indígenas, bispos, leigos, mulheres, a dona Maria, vinda da Amazónia, mas também professores. O Sínodo mostrou esse caminhar juntos”, apontou o sacerdote brasileiro, na noite do passado dia 30 de outubro, no centro pastoral da Paróquia do Parque das Nações, em Lisboa.

Antes, o padre Júlio tinha destacado a “fase de consulta, em vários territórios”, onde foram “recebidas respostas de 87 mil pessoas”. “Realizaram-se 274 eventos para escutar as pessoas e pensar em processos. Desde a dona Maria, que veio na sua canoinha, até um professor universitário que também colaborou, ou um sacerdote ou uma religiosa. Recebemos também muitas contribuições de pessoas de outras Igrejas, porque o trabalho ecuménico na Amazónia é muito forte”, revelou.

O Papa convocou o Sínodo a 15 de outubro de 2017 e “lançou fortemente o processo sinodal a 19 de janeiro de 2018, durante a visita à Amazónia peruana”. “Lá, alguns povos indígenas da grande Amazónia viajaram cinco dias para receber o Papa. Porque isto é importante? Porque vimos agora muitas imagens do Papa a receber, em Roma, esses povos. Porque eles disseram: ‘O Papa veio-nos visitar, agora ele convocou o Sínodo e nós devemos também ir visitá-lo’”, observou.

A primeira parte do Documento Final do Sínodo mostra “como a Amazónia se pode converter para fazer um novo caminho” e como “chegar aos novos caminhos de conversão em quatro âmbitos: pastoral – sobre as nossas práticas de Igreja na Amazónia –, cultural – reconhecendo o valor das culturas, para dialogar –, ecológica – como fazer esse processo de mudar a mentalidade da nossa relação com a natureza e a criação de Deus – e sinodal – não imposto por outras pessoas, mas fazendo caminho juntos”, resumiu o sacerdote brasileiro. “A nossa missão é caminhar juntos”, acrescentou.

Segue-se agora “uma das fases que é das mais importantes: a fase pós-sinodal”. “Ou seja, que ações vamos ter para dar seguimento e colocar em prática, inclusive algumas propostas audazes que deu o Sínodo, que devemos entender dentro da tradição da Igreja”. Ainda a propósito do Documento Final, que foi apresentado ao Papa Francisco, o padre Júlio Caldeira lembrou que o Sínodo “não é um parlamento, que toma decisões”, mas um órgão “consultivo”. “O que se discutiu e apresentou, o Papa agora vai pensar, vai refletir, vai rezar, como ele mesmo disse, e até final do ano ele prometeu entregar uma exortação”, referiu.

 

Cristo conta na Amazónia

No início da sua intervenção na Paróquia do Parque das Nações, em Lisboa, o padre Júlio Caldeira apresentou a Amazónia, a maior floresta tropical do mundo, recordando duas frases do Papa Paulo VI, proferidas nos anos 70 do século passado: “‘Cristo está a contar para a Amazónia. Olhemos com o olhar de Cristo a necessidade desse povo’, disse São Paulo VI. Nós já caminhamos na Amazónia há pelo menos 40 anos. Fez-se um caminho, um processo, que culminou agora com o Sínodo, convocado pelo Papa”, observou. Este caminho, segundo o padre Júlio, “serviu para pensar a conversão e a educação ecológica integral” que a encíclica “Laudato si’ proporcionou”.

A Pan-Amazónia é um território “com 7,8 milhões de quilómetros quadrados”. “Praticamente, 80 vezes Portugal e 74% do continente europeu”, apontou. A Amazónia está então distribuída por nove países: Bolívia (6,2%), Perú (10,1%), Equador (1,5%), Colômbia (6,2%), Venezuela (5,8%), a Guiana, o Suriname e a Guiana Francesa, e finalmente o Brasil, que “tem praticamente cerca de dois terços do território amazónico”. “É um povo que mantém firme a esperança. É importante não perdermos as nossas raízes, de onde viemos, de onde somos. Porque isso dá sentido à nossa vida e à nossa identidade”, observou o sacerdote da Consolata, sublinhando que a proposta da Igreja na Amazónia é “procurar corazonar”. “É uma expressão muito usada, que significa ter coração – a fonte de vida –, sentir e raciocinar. Portanto, corazonar: pensar, mas também sentir”, explicou.

A Amazónia “é considerada um dos pulmões do mundo, o maior”, e “cerca de um terço da biodiversidade do planeta” vem deste território da América do Sul. “A Amazónia tem 300 espécies de mamíferos, 1300 de pássaros, 1500 de peixes conhecidos”, revelou, destacando igualmente a importância “do Rio Amazonas, um grande rio com mais de 1500 afluentes e que representa 20% da água doce do planeta”. “Isto mostra a importância que a Amazónia tem para a vida do planeta”, frisou o padre Júlio Caldeira.

 

Unidade na diversidade

Apresentando a Amazónia como “o lugar da diversidade dos povos e de culturas”, este sacerdote apontou, no Parque das Nações, o que considera o principal desafio para esta zona: “O primeiro grande desafio para a sociedade e para a nossa vida de fé é o desafio de viver a unidade na diversidade, não na uniformidade em que tudo tem de ser igual. É um grande desafio que temos, como Igreja e como sociedade: não querer que os outros sejam como eu, ou como eu penso, mas reconhecer os valores que vêm da outra pessoa”.

Sobre a população na Amazónia, este sacerdote referiu que ronda “os 33 milhões”, sendo que “70% é urbana, e vive nas grandes cidades, e 30% é uma população rural”. “Os indígenas são mais ou menos 10% [3 milhões] neste momento, representando 385 povos indígenas, que falam 240 idiomas diferentes e 49 famílias linguísticas”, salientou. “No mundo, existem 150 grupos de aborígenes que não querem contacto com a nossa sociedade. Destes, 130 estão na Pan-Amazónia”, acrescentou.

Deixando o convite a “um processo de conversão e compromisso profético”, o padre Júlio Caldeira citou a frase de um indígena, proferida durante o processo de consulta para o Sínodo: “Um deles, disse: ‘Dizem que nós não somos nem cristãos nem civilizados. Porém, se isso é ser cristão e civilizado, nós não queremos ser assim’. Entendem a lógica? Por vezes, queremos impor ao outro o que ele deve ser e crer, mas damos contratestemunho. Está aqui a grande dificuldade”, alertou, destacando “o exemplo de muitos indígenas que foram martirizados”. “Como diz a própria tradição da Igreja, o sangue dos mártires é semente de novos cristãos”, sublinhou o missionário brasileiro.

 

Cuidar

Lembrando ainda que “as gentes da Amazónia estão muito agradecidas ao Papa Francisco pela encíclica Laudato si’”, que “deu fundamento a muitas das coisas que estamos a viver nesse território”, o padre Júlio apontou a missão de “cuidar da Casa Comum”. “É uma proposta que vem do Papa, da ecologia integral. Estamos descuidando e destruindo o nosso planeta. E estes povos ajudam-nos a pensar nessa missão que temos, que não é uma missão somente de quem está lá, mas de cada um de nós, com as nossas ações, com pequenas coisas que podemos fazer que diminuam todo esse impacto”, alertou. A outra missão, observou o sacerdote da Consolata, é “cuidar do bem comum”. “O que disse Jesus no Evangelho: ‘Eu vim para que todos tenham vida, em abundância e plenitude’. Essa é a proposta dos povos, esse bem viver, esse bem conviver com as demais pessoas”, explicou. “Devemos aprender a cuidar. A nossa insistência é essa”, reforçou.

O padre Júlio deixou ainda a garantia de que a Amazónia é responsabilidade de todos. “A Amazónia era considerada um fundo de quintal, onde as pessoas só iam quando precisavam de algo, para passar a ser a praça central, para onde todos estão a caminhar. Porquê? Porque há muitos interesses na Amazónia, e por isso ela está a ser cobiçada e disputada. Muitas pessoas estão a dar a vida. A Amazónia é uma responsabilidade de todos nós. Porque, o que fazemos lá tem consequências aqui; e o que fazem aqui, tem consequências lá. Uma ‘selva’ sem a outra, não tem solução”, reforçou o missionário brasileiro, há dez anos na Amazónia.

 

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“O Papa é um ‘velhinho danado’, como dizem na Amazónia. É bonito ver como os povos amazónicos sentem o Papa como esse avô. Para o povo amazónico, as pessoas idosas têm muita importância porque são a fonte da sabedoria, da orientação que dá equilíbrio. Hoje em dia, eles dizem: ‘Os avós da Amazónia dizem agora que o Papa Francisco está pensando e sentindo como nós. Agora, temos um aliado. A Igreja está do nosso lado e quer caminhar connosco’”, referiu o padre Júlio Caldeira, na Paróquia do Parque das Nações.

 

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Ordenação de homens casados?

A falta de ministros ordenados na Amazónia, e a possibilidade de ordenação de homens casados, foram questões debatidas no Sínodo e foram também tema da primeira pergunta feita ao padre Júlio Caldeira na conferência no Parque das Nações: “No final do Sínodo, o Papa pediu aos jornalistas para não terem um olhar pequeno, mas para olharem todo o conjunto para terem as respostas a essas questões. É preciso partir da necessidade de ministérios que há na Amazónia. Dentro de um ‘rito amazónico’, nasceu essa proposta da possibilidade de os diáconos permanentes, dessas pessoas que são reconhecidas pela comunidade, serem também ordenados sacerdotes, conforme diz o documento, no número 111. É uma proposta, que foi apresentada ao Papa, e agora esperamos uma resposta”.

 

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REPAM: Unir forças da Igreja na Amazónia

A Igreja, na Amazónia, tem 103 jurisdições eclesiásticas, entre dioceses, arquidioceses, vicariatos e prelazias. Há cinco anos, em setembro de 2014, foi fundada a REPAM – Rede Eclesial Pan-Amazónica, que pretende unir todas estas jurisdições. “A REPAM é um organismo que nasceu fruto do trabalho da Igreja no território, para unir estas forças. O que acontecia antes é que ninguém sabia o que cada um fazia do outro lado… e muitas vezes passavam pelos mesmos problemas e dificuldades. O objetivo foi então unir e fazer como uma rede, que nos ajuda a articular”, resumiu o padre Júlio Caldeira, que esteve na fundação da REPAM.

Informações: http://repam.org.br

 

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Perfil

Missionário da Consolata na fronteira amazónica da Colômbia, Equador e Peru, entre os indígenas kichwas, o padre Júlio Caldeira participou na cobertura de imprensa do Sínodo dos Bispos para a Amazónia, entre 6 e 27 de outubro, no Vaticano, e nas atividades do evento que decorreu em simultâneo, intitulado ‘Amazónia: Casa Comum’. Mestre em Comunicação, Desenvolvimento e Mudança Social, o sacerdote brasileiro é membro da equipa de coordenação das comunicações da REPAM – Rede Eclesial Pan-Amazónica e diretor da revista ‘Dimensión Misionera’, na Colômbia.

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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