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P. Nuno Amador
Joker, para que o mal não se torne banal

Joker, de Todd Phillips, é um filme sublime e perturbador. Sublime na lentidão certa com que nos dá tempo para pensar, sublime na eclética escolha musical, sublime na cor crepuscular da fotografia. Sublime, sobretudo, na interpretação para óscar de Joaquin Phoenix, que oferece corpo e alma a uma representação de gigantesca exigência física e mental. Perturbador pela forma como nos desafia a pensar a loucura da insensibilidade diante do mal, como nos deixa suspensos na ambiguidade, como retrata de forma crua, e em certos momentos cruel, uma espiral de violência que deixa a vida interior pervertida e a cidade no caos.

Todos fazemos, exterior e interiormente, a experiência do mal e das suas consequências. Sabemos como em nós os desejos de bem, de vida e de felicidade convivem com sentimentos de inveja e de posse, de vingança e domínio. Somos tentados constantemente pelo privilégio de nós próprios, facilmente nos autojustificamos ou desresponsabilizamos. Experimentamos como o mal muitas vezes nos vai tentando agarrar de forma ambígua e matreira, como é próprio da sua natureza. São pequenas cedências, pequenos compromissos, pequenas mentiras, pequenas relativizações que, progressivamente, podem tornar-nos insensíveis e deixar-nos com uma lente demasiado larga, lassa, que deixa passar tudo, porque afinal o mal não é assim tão mau e, aparentemente, fazer o bem nem sempre é confortável e compensatório. Só aparentemente!

Experimentamos como o mal muitas vezes nos vai tentando agarrar de forma ambígua e matreira, como é próprio da sua natureza. São pequenas cedências, pequenos compromissos, pequenas mentiras, pequenas relativizações que, progressivamente, podem tornar-nos insensíveis e deixar-nos com uma lente demasiado larga, lassa, que deixa passar tudo, porque afinal o mal não é assim tão mau e, aparentemente, fazer o bem nem sempre é confortável e compensatório. Só aparentemente!

Experimentamos também como o mal de uns afeta a vida de todos. Se é verdade que “uma alma que se eleva, eleva o mundo inteiro”, também é verdade que o pecado de um tem consequências para a vida de todos. As nossas ações e omissões têm na vida dos outros, para o bem e para o mal, uma repercussão que de todo não dominamos. O mal tem uma eficácia histórica que nos ultrapassa e que, nas suas consequências diretamente visíveis ou na invisibilidade da interioridade, onde se origina a estruturação das relações, tem efeitos para o conjunto. O mal que fazemos (também é mal o bem que deixamos de fazer) por preguiça, medo, conivência ou conveniência tem inequivocamente uma dimensão social, e configura-se em “estruturas que são objetivação histórica da dimensão social do mal moral, como lugares da sua presença e da sua eficácia” (cf. João Paulo II, Sollicitudo rei socialis, 36).

Nas origens do vilão de Gotham City está um passado de rejeição e abandono, violência e abuso que vai explicando a fragilidade interior da personagem e o distúrbio visível em que se encontra, descompensado e sem reconhecimento. Alguns críticos vêem aqui uma certa desresponsabilização pessoal, um atenuar das fronteiras entre bem e mal, um olhar mais suave para o agressor, porque afinal percebemos que, no que sofreu e passou, também é vítima de um sistema corrompido que progressivamente o vai corrompendo.

Certamente existem casos em que fatores externos e internos podem deixar-nos menos livres e, consequentemente, menos responsáveis e culpados. Mas é “verdade de fé confirmada”, pela experiência e pela razão, que “a pessoa humana é livre” e “não podemos descarregar em realidades externas – as estruturas, os sistemas, os outros – o pecado de cada um e a responsabilidade pessoal”. “Podemos ser condicionados, pressionados, impelidos por numerosos e ponderosos fatores externos, como também podemos estar sujeitos a tendências, taras e hábitos relacionados com a nossa condição pessoal”, mantendo claro que “o pecado, no sentido próprio e verdadeiro, é sempre um ato da pessoa e não propriamente de um grupo ou de uma comunidade” e “as verdadeiras responsabilidades são das pessoas” (cf. João Paulo II, Reconciliatio et paenitentia, 16).

Não somos só a consequência de um sistema ou o fruto das circunstâncias da vida. É preciso acreditar que existe em nós um espaço de liberdade por onde começa a conversão, que a violência da vingança não tem a última palavra, que há uma voz interior que permanentemente nos chama a amar e fazer o bem e a evitar o mal. No final do filme fica a necessidade de fazer silêncio para amadurecer o que se viu, mas fica também o desejo de que Bruce Wayne (futuro Batman) venha depressa combater o mal sobretudo para nos ensinar como, depois de ver matar os pais, foi capaz de converter a vontade de vingança em desejo de bem e sentido de justiça.

Joker não é só uma chamada de atenção em relação ao mal e às suas consequências, como é um desafio a sermos responsáveis por uma cultura de bem e pelo cuidado do outro. É um desafio a levarmos a sério a responsabilidade dos nossos gestos quotidianos e do poder que têm na vida dos outros e do mundo.

Para não banalizarmos o mal e para não desistirmos de acreditar no bem.

 

Artigo publicado originalmente no portal dos jesuítas Ponto SJ (www.pontosj.pt)