Lisboa |
Pastoral Social da Paróquia de São Pedro do Prior Velho
Uma outra face da caridade
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Combater a solidão. É esta a principal preocupação da Pastoral Social da Paróquia do Prior Velho, um grupo constituído por sete membros que realiza a caridade “de forma diferente do habitual”, segundo a responsável, promovendo encontros sobre diversas temáticas, as ‘Matinés com sentido’ e os rastreios de saúde.

 

“Atualmente, não se nota tanto a falta de alimentos, muitas vezes associada à questão social. Mais importante é a solidão, a carência que existe, hoje em dia, de as pessoas estarem muito isoladas, muito sozinhas. Essa tem sido a preocupação do grupo da Pastoral Social da Paróquia de São Pedro do Prior Velho, que procura estar atento às dificuldades das famílias, não só na parte social, mas na totalidade”. As palavras são de Filomena Sanches, responsável pelo grupo da Pastoral Social da Paróquia do Prior Velho, ao apresentar ao Jornal VOZ DA VERDADE o grupo a que pertence desde 2017. “Somos um grupo que realiza a caridade de uma forma diferente do que fazem habitualmente os grupos sociocaritativos. No Prior Velho, as pessoas estão isoladas e sentem falta de um espaço onde se possam encontrar e falar, e nós procuramos preencher essa lacuna”, acrescenta esta leiga, de 49 anos, que pertence a esta paróquia da Vigararia de Sacavém há cerca de 15 anos.

 

Conferências e matinés

A Pastoral Social do Prior Velho foi criada no tempo do padre Valentim Gonçalves, sacerdote verbita que esteve nesta paróquia até 2013, e procura combater a solidão de diversas formas. Desde logo, promovendo encontros sobre diversas temáticas. “No início de 2017, tivemos uma palestra sobre o acolhimento de refugiados. Na altura, convidámos duas pessoas, o João Delicado e a Rita Sacramento Monteiro, para virem dar testemunho, porque eles foram voluntários em dois campos de refugiados, na Grécia e em Itália. Foi numa altura em que havia – e ainda há – alguma resistência das pessoas ao tema, e foi das conferências que mais me marcou. Toda a gente sentiu, nesse dia, que pode fazer a diferença… tem é que querer fazer a diferença”, salienta Filomena, que profissionalmente trabalha na gestão de fundos de investimento.

Esta responsável recorda ainda a “palestra sobre bioética, por causa dos desafios da ideologia de género, da eutanásia e da dádiva de órgãos”, que foi promovida pelo ‘seu’ grupo. “Esteve cá o Dr. João Paulo Malta e foi uma forma de possibilitarmos à comunidade o poder aprender, através de pessoas que realmente sabem, e assim acabarem muitos mitos que existem, para poderem decidir com base em informações corretas. Estarmos bem formados e bem informados permite-nos viver de uma maneira mais livre”, frisa.

De forma mais regular, no caso, mensalmente, este grupo de Pastoral Social paroquial organiza também as ‘Matinés com sentido’. Uma atividade que visa a criação de relação. “As ‘Matinés com sentido’ consistem em passar um filme, com um convidado que, no final, faz uma reflexão entre o filme e a vida. Já passámos vários filmes, como ‘Dos homens e dos Deuses’, ‘A Família Bélier’, ‘O Caminho’, ‘Amigos Improváveis’… São várias as pessoas que vêm falar, já tivemos padres, leigos, e, além de ser um momento de cultura, o objetivo é que as pessoas não se sintam tão isoladas. No final, há um lanche, o que permite que as pessoas fiquem a conversar e criem relação. Apesar da internet, hoje em dia as pessoas sentem-se muito isoladas e têm muita falta de afeto”, lembra esta leiga, casada e mãe de uma filha de 20 anos, destacando igualmente “os muitos filmes para jovens e para crianças que são passados, para chamar as famílias à Igreja”.

 

Cuidar da saúde e do espírito

Filomena, que antes de assumir o grupo da Pastoral Social do Prior Velho pertenceu, durante três anos, ao grupo da Pastoral da Família da paróquia, destaca ainda a organização das ‘Tardes da Saúde’. “Temos um acordo com a ACA - Associação Conversa Amiga, em que eles vêm cá e fazemos vários rastreios. Vêm também médicos falar sobre diferentes temáticas, como seja a alimentação saudável, os cuidados com o frio, a atenção à depressão, as questões da idade…”, refere. Antigamente, este grupo ia também “visitar as pessoas” que estavam sozinhas, mas “o facto de ser uma comunidade pequena, fechada, acaba por levar a que as pessoas tenham receio pela invasão de privacidade”, aponta esta responsável.

Em termos pastorais, o grupo de Pastoral Social da Paróquia do Prior Velho é também responsável pela organização anual de uma Via Sacra, “com o objetivo de se abrir à comunidade”. “Queremos que todas as famílias estejam presentes”, assinala Filomena.

 

Não duplicar ajudas

No Prior Velho, a entrega de alimentos aos carenciados passa pela junta de freguesia local, o que faz com que a Pastoral Social da paróquia não promova esta valência. “Não fazemos nada por exemplo a nível de banco alimentar, porque já existe. O nosso objetivo não é duplicar serviços ou competências, porque quem faz, faz bem, e não temos sequer bases de dados para sabermos quem precisa mesmo de ajuda”, explica a responsável.

Em termos de ajudas económicas, a paróquia por vezes procura ajudar, mas “nem sempre corre bem”, assume Filomena, dando um exemplo concreto. “Já aconteceu ajudarmos uma pessoa que chegou com a fatura da eletricidade e pagou-se, mas ligaram-nos a dizer que a pessoa já estava com um crédito de três ou quatro faturas. Por isso é que digo que, para estas questões, é preciso ter uma estrutura bem montada”, sublinha.

O grupo da Pastoral Social da Paróquia de São Pedro do Prior Velho é constituído atualmente por sete membros e, segundo a responsável, “todos são responsáveis”. “Não podemos ter irresponsáveis. Eu, quanto muito, procuro dar ânimo ao projeto”, graceja Filomena. “Somos sete, um número muito simpático, mas no final acabamos por ser cerca de 30, e entre maridos e filhos temos uma equipa muito unida”, garante esta leiga, que integra também o grupo de leitores da paróquia.

 

Mais criatividade

A responsável pelo grupo da Pastoral Social do Prior Velho saúda também o tema do ano pastoral no Patriarcado de Lisboa, ligado à caridade – ‘Sair com Cristo ao encontro de todas as periferias’ (CSL, n.º 53). “É importante termos este ano, porque a caridade é a base de tudo”, assinala Filomena. Em várias ocasiões, o Cardeal-Patriarca tem insistido com as comunidades cristãs para “escolherem uma periferia e trazeram-na para o centro”. O mesmo é dizer, selecionarem uma área de intervenção na Pastoral Social e dedicar-lhe, neste ano pastoral, “toda a atenção”, segundo D. Manuel Clemente. Questionada sobre se a Paróquia do Prior Velho já escolheu a ‘sua’ periferia, Filomena Sanches refere que esta é uma temática que “tem de ser decidida por toda a paróquia”.

Para o futuro, a responsável da Pastoral Social do Prior Velho quer “chamar à Igreja as muitas famílias jovens que vivem na paróquia”. “Temos abordado a forma como podemos cativar os jovens, porque, se não, temos uma Igreja que está a morrer. Os grupos têm de ser mais criativos, saírem um pouco das atitudes mais conservadoras e estando atentos às novas formas de comunicação”, deseja esta leiga.

 

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Uma paróquia, duas realidades

Natural da Polónia, o padre Andrzej Fecko, de 67 anos, é pároco do Prior Velho há três anos. “Sou novo aqui”, avisa desde logo, ao Jornal VOZ DA VERDADE, o sacerdote do Verbo Divino, que entre a comunidade é conhecido simplesmente por padre André. Chegado ao nosso país em 2014, o padre Andrzej fala a língua de Camões de uma forma fluente. A justificação? Os mais de 30 anos que esteve em Angola, como responsável pelas missões verbitas. “Fui para África em 1981 e estive lá durante 32 anos, dos quais 22 em guerra”, recorda. “O Prior Velho é uma realidade bem diferente. Vim para Portugal e estive, durante um ano e meio, nas nossas novas comunidades na Diocese de Aveiro, nas paróquias do Baixo Vouga, e depois chamaram-me para Lisboa. É difícil passar de uma realidade para outra”, assume o padre André, que durante três triénios, em África, foi vice-provincial da congregação.

Sobre a presença numa paróquia da periferia da cidade de Lisboa, o sacerdote polaco assume que estes três primeiros anos foram sobretudo de escuta. “Começo agora a entender, a compreender, a conhecer o Prior Velho. Como me disseram os anteriores missionários que aqui estiveram, temos que olhar, escutar e não falar muito”, refere. A Paróquia de São Pedro do Prior Velho é constituída por duas comunidades “bem distintas” uma da outra. “Temos a do Prior Velho, propriamente dita, e a comunidade de Terraços da Ponte, onde está a comunidade africana. É como se fossem duas paróquias, porque têm duas realidades diferentes numa só paróquia”, explica.

Lembrando que em Angola esteve muito ligado à ação social, às escolas e aos refugiados, o padre Andrzej Fecko salienta que “têm também sido feitas algumas coisas no Prior Velho”. “Além dos eventos em que convidamos as pessoas para apresentarem temas importantes, fazemos, uma ou outra vez por ano, ações de Pastoral da Saúde, em que chamamos enfermeiros e médicos e fazemos rastreios. Coisas simples, como medir a tensão ou o nível da glicémia, que por vezes as pessoas não fazem porque não têm meios”, aponta o pároco.

Questionado sobre o que mais o desafia no Prior Velho, o padre André sorri. “Desafio? É tudo, praticamente! Aquilo que podemos fazer, estamos a fazer, na organização da paróquia, dos grupos e dos conselhos. Estamos agora a renovar um pouco o grupo dos catequistas, e criámos também um novo grupo de ministros da comunhão, que vão assumir mais de perto os irmãos que não podem vir à igreja. Não se pode fazer tudo, fazemos tudo o que podemos fazer”, garante o padre Andrzej Fecko, missionário verbita da Polónia que está em Lisboa, em missão.

 

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“Caridade pertence à natureza da Igreja”

O diretor do Secretariado Nacional da Pastoral Social lembrou que, “para a Igreja, a caridade não é uma espécie de atividade de assistência social”. “A caridade pertence à sua natureza e é expressão irrenunciável da sua própria essência”, apontou o padre José Manuel Pereira de Almeida, de 66 anos, no encontro ‘Como viver a caridade no Aqui e Agora’, que decorreu na Paróquia de São Pedro do Prior Velho, na noite do passado dia 8 de novembro. “A Igreja, também enquanto comunidade, deve praticar o amor. Consequência disto é que o amor também tem necessidade de organização, enquanto pressuposto para um serviço comunitário ordenado”, acrescentou ainda o sacerdote, que teve no Prior Velho a sua primeira missão após a ordenação, em 1986.

 

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Provincial verbita destaca missão da Pastoral Social do Prior Velho

O provincial dos Missionários do Verbo Divino enalteceu o trabalho do grupo da Pastoral Social da Paróquia de São Pedro do Prior Velho. “Tiro o chapéu a este grupo de Pastoral Social. Quem nos dera que em todas as comunidades houvesse um grupo de Pastoral Social que refletisse sobre a realidade que refletimos hoje, sobre esta questão fundamental de quem nos queremos aproximar, quem é que precisa da nossa proximidade. A caridade tem de estar em primeiro lugar, porque é por aí que passa, de facto, toda a Palavra de Deus. Onde há caridade, aí está Deus”, referiu o padre José Maria Cardoso, ao encerrar o encontro ‘Como viver a caridade no Aqui e Agora’.

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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