Entrevistas |
João César das Neves, autor do livro ‘Natal todo o ano’
Uma obra “para lembrar que o Natal é o ano todo”
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No livro ‘Natal todo o ano’, o autor pretende “espalhar” a festa cristã “mais celebrada em todo o mundo” ao longo das grandes festas do ano litúrgico, através da reunião de vários textos inéditos e reescritos. Em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, o também economista João César das Neves alerta para a desconfiança que existe face à “economia” e apela, nesse campo, a uma maior “presença cristã”.

 

No prefácio do seu livro escreve que “o Natal é uma festa todo o ano”. Quais os principais sinais que podem ajudar a não limitar cronologicamente o verdadeiro significado do Natal?

O livro pretende abordar um dos problemas mais complicados da pastoral atual que é o facto de as pessoas se lembrarem de Nosso Senhor em certos momentos e esquecerem-se d’Ele no resto do tempo. Há uma percentagem grande de católicos portugueses, mas a maior denominação religiosa, em Portugal, é de católicos não praticantes, que só se lembram que são católicos em certos momentos. O esforço é pegar num desses momentos – e o Natal é um desses momentos – e tentar espalhá-lo ao longo do ano. Este é o esforço do livro. O livro tem o propósito de lembrar que há muitas mais festas ao longo do ano e, por isso, está estruturado segundo as festas do ano litúrgico. Evidentemente que isto, em termos teológicos, é uma violência, porque o Natal tem uma especificidade própria que não está no resto do ano e porque cada uma dessas datas tem a sua especificidade. De facto, o livro é sobre o ano litúrgico e não sobre o Natal. E é exatamente para acompanhar esse ciclo que a Igreja nos recomenda irmos entranhando a presença de Cristo na nossa vida.

O Natal é a festa cristã que é mais celebrada no planeta inteiro, mas muitas vezes sem nenhuma referência ao presépio, ao nascimento de Jesus... O livro é um esforço para lembrar que o Natal é o ano todo. É o ano todo na presença de Cristo que começou naquele momento.

 

É fácil, por exemplo, fazer a festa do Natal em tempo de Páscoa, onde se fala de morte e ressurreição?

Essa é a questão mais desafiante. O tempo atual é um tempo que percebe muito bem o nascimento do Menino Jesus – e que gosta muito destas palhinhas e dessas coisas muito humildes –, mas sente-se chocado pelo choque da Páscoa. Primeiro, é compreensível, todas as épocas foi assim, mas, talvez no tempo atual, em que nós nos sentimos ‘super-homens’, em que achamos que a Ciência vai conquistar tudo, o fenómeno da morte e, ainda por cima, o fenómeno da morte envolvida na injustiça, para não falar do facto de a própria divindade estar sujeita à morte –  que é um mistério incompreensível –, são fenómenos que não são, de todo, aceites. A Páscoa que é, de longe, a mais importante das festas cristãs, desaparece. Agora, há um esforço para a pegar com a festa da primavera, até porque, comercialmente, dava imenso jeito ter outro natal mais cedo, para termos dois natais no ano e as pessoas gastarem mais dinheiro. Certamente não vai pegar como o Natal pegou.

 

Como surgiu a ideia de publicar este livro?

Costumo dizer que os livros acontecem-me. Eu não os planeio e quando dou por ela, tropeço neles. Este livro vem na sequência de outras coletâneas. Eu tinha uma coluna num jornal e escrevia regularmente sobre temas religiosos, além de económicos, políticos, entre outros. Apenas nos temas religiosos – aos outros nunca fiz, curiosamente – lembrei-me de fazer estas coletâneas temáticas e já foram publicados com muitos nomes. Entretanto, a coluna acabou, porque o jornal já não tem capacidade para a manter, ao fim de 26 anos, e eu tinha alguns textos lá e pensei que, se calhar, poderia ainda fazer mais uma coletânea no estilo anterior. E quando isso aparece, é um fenómeno muito engraçado que costumo compará-lo com o fazer uma árvore de Natal. Eu tenho alguns textos soltos e escritos em situações muito estranhas, mas sempre achei mal pô-los numa coletânea, onde uns se seguissem aos outros, numa ordem cronológica. Sempre quis dar algum valor acrescentado. Além de se lerem muitos textos novos, é preciso haver uma lógica dentro do livro e, desta vez, a mais ousada dessas lógicas foi a de fazer um ano litúrgico. Quando o decidi fazer, constatei primeiro que a árvore era o mais importante, ou seja, que o ano litúrgico é mais importante que as peças individuais, e que depois faltavam imensas peças e, por isso, há uma grande percentagem de textos que, de facto, são inéditos. E dos que já foram publicados, todos eles levaram uma volta, nenhum deles está igual ao que foi publicado no jornal.

 

Nas histórias publicadas no livro, existe sempre um tom humorístico muito vincado, mesmo em temas relacionados com o sofrimento. Essa é a melhor maneira de levar a vida a sério?

Eu acho que sim, que é a única maneira. Temos que ter um desprendimento que não pode cair no sarcasmo, na piada pela piada, mas este sentido de humor, esta distância em relação ao nosso próprio projeto faz parte da abordagem cristã. Temos que ter a capacidade de nos divertirmos com nós próprios. Cairmos no nosso ridículo e percebermos o nosso ridículo.

 

Os seus ex-alunos que apresentaram o livro testemunharam isso mesmo...

Fui posto diante de uma turma, pela primeira vez, há quase 40 anos e nunca aprendi, desembrulhei-me assim. E tive das turmas mais exigentes, que são as do primeiro ano... ou captamos a atenção ou perdemo-las...

 

Dedica o livro ao Cardeal-Patriarca D. Manuel Clemente, “o Simão de Cirene que o Senhor escolheu para nos ajudar a levar a cruz este ano” – como refere. Qual o significado desta escolha?

Tem a ver diretamente com o ano litúrgico. Pensando no ano litúrgico, era evidente que o livro devia ser dedicado a alguém. Pensei logo no senhor Patriarca. Já não é o primeiro livro que lhe dedico, mas, neste caso, sendo um esforço para fazer uma reflexão sobre o ano litúrgico, seria a pessoa mais adequada.

 

É um homem da economia que também se dedica a escrever sobre a fé. Como é que se podem aproximar estes dois pontos quando, muitas vezes, a economia é vista com tanta descrença?

Essa é uma questão existencial para mim. Desde o princípio, quando descobri que Nosso Senhor queria que fosse economista, as coisas andaram turbulentas, na altura em que andava a escolher os cursos. Foi no 25 de abril, um período conturbado. Não é possível um economista ser católico e não se confrontar com esta questão. Há, em boa parte da Igreja, uma desconfiança muito grande, se não mesmo uma hostilidade, perante a economia. Portanto, tem sido um esforço de uma vida. Os livros que tenho escrito têm ido nesse sentido e, ultimamente, com a presença do Papa Francisco e com os desafios ‘violentos’ que levanta à economia, isso tem sido ainda mais visível.  A maneira como reagi foi escrever um livro de 500 páginas sobre a economia de Francisco. E tenho escrito outros sobre esse assunto, para confrontar. No fundo, a questão é perceber que grande parte da posição que nós temos relativamente à economia é, realmente, preconceituosa. O problema de ser um católico na economia não é diferente de ser um católico no hospital, no exército ou no trânsito. É sempre difícil. Aliás, de alguma maneira, todos nós somos católicos na economia porque somos trabalhadores, consumidores, vivemos na economia. A economia somos nós, não é mais nada. Temos sempre a sensação de que há outra coisa para além da economia e não há. É o que nós vemos à nossa volta. Por vezes, a economia leva a muita confusão técnica, mas também leva a uma maior necessidade de uma presença cristã. Nós temos aquela atitude que o Senhor teve perante a economia do seu tempo, a atitude que teve para com Zaqueu, que teve para com São Mateus? É essa atitude que, hoje, nós temos muita dificuldade em cumprir. Se olharmos para aqueles que consideramos os ‘causadores disto tudo’, e olharmos para eles como Nosso Senhor olhou para Zaqueu ou São Mateus, que eram os publicanos, os ‘maus da altura’, e percebermos isso mesmo, damos um salto importante.

 

E qual tem sido o papel do Papa Francisco neste campo?

O papel do Papa tem sido o do desafio. Ele não é um cientista como era, por exemplo, o Papa Bento XVI, ele não é um teólogo, é um pastor, um homem que está preocupado com as suas ovelhas. E as suas ovelhas, os pobres, sofrem. Ele não apresenta soluções, mas lança desafios e provoca as pessoas para fazerem coisas.

A novidade no Papa Francisco é este estilo argentino, talvez até mesmo Bergogliano, que tem esta maneira de fazer à forma dele e todos nós vemos o sucesso que está a ter. Agora, para os economistas, isto levanta desafios, até porque há alguns interesses ideológicos que estão a capturar o Papa Francisco para o seu lado. Isso é muito grave e é um aproveitamento da posição do Papa que, não tendo um cuidado analítico e ponderado dos anteriores, é muito mais fácil de ser manipulado, mas que, aliás, tem sempre recusado. É esse o ponto. Há um equívoco que é preciso clarificar. Este é um tema muito importante e é simplesmente o episódio mais recente de um longo esforço das relações entre a Igreja e a Economia.

 

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Perfil

João Luís César das Neves tem 62 anos, é casado e pai de quatro filhos. É professor catedrático da Universidade Católica Portuguesa (UCP), doutorado e licenciado em Economia, pela UCP, mestre em Economia, pela Universidade Nova de Lisboa e mestre em Investigação Operacional e Engenharia de Sistemas, pela Universidade Técnica de Lisboa.

 

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O auditório da igreja de Santa Joana, Princesa, em Lisboa, recebeu, no final da tarde do passado dia 12 de dezembro, a apresentação do livro ‘O Natal todo o ano’. A apresentação esteve a cargo de dois antigos alunos de João César das Neves: Catarina Holstein e José Maria Moutinho.


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‘Natal todo o ano’

João César das Neves

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