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Síria. Sete anos depois do início da guerra, Lina e Elias voltam a Homs
O primeiro Natal
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Estava a guerra ainda no começo quando os combates chegaram ao bairro onde viviam, à casa onde moravam. Foi em 2012. A família Ghattas, assim como a maior parte da população de Homs, foi forçada a fugir. A derrota dos jihadistas abriu, entretanto, as portas ao regresso, e Elias e Lina celebraram finalmente o Natal num lugar a que chamam casa. No entanto, é ainda uma felicidade provisória…

 

Não há forma de esquecer o dia em que regressaram a Homs depois de a cidade ter sido libertada do jugo dos jihadistas do Daesh, o auto-proclamado Estado Islâmico. Foram sete penosos anos que pareceram uma eternidade. Para trás ficaram dias de horror quando, no já longínquo ano de 2012, a cidade sucumbiu à violência dos terroristas. O que se passou em Homs repetiu-se até à exaustão em grande parte do território da Síria. As cidades e vilas transformaram-se em prisões a céu aberto. As igrejas foram ocupadas e destruídas. Os Cristãos foram forçados a fugir. Não há forma também de Lina e Elias conseguirem esquecer o dia em que, já com a cidade a ser palco de uma violenta batalha, tiveram de deixar tudo para trás para salvarem a própria vida. Partiram, como milhares de outros cristãos, para um exílio no próprio país.

 

Lágrimas de desalento

Foi um exílio que só terminou quando o exército sírio, apoiado por forças de outros países, conseguiu expulsar os jihadistas de praticamente todos os lugares que ocupavam no país. Começou aí um tempo de esperança. Um nervoso tempo de esperança que quase sucumbiu no dia em que o casal regressou a Homs, ao bairro ainda esfacelado pelos sinais da guerra e defrontou-se com o que restava da sua casa. Como esconder as lágrimas de desalento perante as paredes em ruínas, as marcas dos buracos de balas, o lixo acumulado? Não havia sequer portas nem janelas. Nada. O interior estava esventrado. Os fios de electricidade tinham sido arrancados. Lina e Elias regressaram e ficaram outra vez na rua, sem casa, sem tecto, sem nada.

 

Ausência de futuro

Os anos de guerra não destruíram apenas as cidades e as vilas e aldeias. A própria economia do país ficou de rastos. O desemprego é brutal. Não há família que não sinta, no dia-a-dia, a violência do custo de vida, a falta de alimentos ou de medicamentos, a ausência de futuro. Sem casa onde pernoitar, Lina e Elias tiveram de arrendar um quarto na cidade. Foi ainda mais doloroso. Tão perto do lugar onde sempre viveram, mas tão longe, afinal, de um espaço a que pudessem chamar casa. O próprio quarto revelou-se um problema. Os arrendamentos tornaram-se também proibitivos. Com o fim dos combates, muitas famílias regressaram a Homs e também se depararam com as suas casas em ruínas. A falta de quartos disponíveis fez disparar o preço dos arrendamentos. Lina e Elias começaram então uma quase via-sacra. Sem dinheiro, sem trabalho regular, tudo passou a ser demasiado caro, demasiado dispendioso para a pobreza da família. Resolveram pedir ajuda.

 

O regresso do filho

Graças a um fundo de emergência da Fundação AIS, muitas famílias sírias têm conseguido alugar casa retomando um quotidiano tão normal quanto possível, apesar dos inúmeros sinais de guerra que ainda persistem no país. Lina e Elias souberam da existência desta campanha de apoio ao regresso dos Cristãos e conseguiram, finalmente, ajuda para o aluguer de uma pequena habitação até reunirem as condições para iniciarem as obras de reabilitação da própria casa. Foi uma verdadeira revolução. Ao fim de sete anos, voltaram a ter um espaço para a família. Foi uma grande prenda de Natal, é verdade. Mas falta ainda o resto: as obras em casa e o regresso do filho mais velho.

 

Rumores de guerra

Convocado para o serviço militar em 2011, quando a guerra começou, o filho mais velho de Lina e Elias ainda está ao serviço do exército e ninguém sabe quando será desmobilizado. Habituados a lidar com o infortúnio, os pais agradecem, no entanto, o essencial: o dom da vida. Estar vivo é a boa notícia! O outro filho, mais novo, nunca mais se libertará da sombra da guerra e da violência, pois ficou cego de um olho por causa da explosão de um morteiro.

 

Felicidade provisória

Sobreviver passou a ser como uma palavra de ordem. Graças à ajuda da Fundação AIS, a família Ghattas passou finalmente um Natal num lugar a que pode chamar casa. Falta quase tudo, mas não a esperança. “Para mim, voltar para casa é como renascer”, disse-nos Lina. “Não consigo descrever a alegria que senti. Depois de tanto sofrimento e incerteza, sinto-me novamente em segurança. Estou cheia de esperança para uma vida melhor.” Graças à generosidade dos benfeitores da Fundação AIS, Elias e Lina Ghattas celebraram o Natal em casa pela primeira vez desde 2012. É ainda uma casa emprestada. É ainda uma felicidade provisória. Mas é um recomeço!

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