Missão |
Paula Sequeira
Ser família de acolhimento: missão de alma e coração
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Paula Sequeira nasceu em Lisboa, a 4 de novembro de 1974. É casada há 25 anos e tem dois filhos. Fez alguma formação, tal como o curso de Auxiliar Médica e o curso de Primeiros Socorros. Tem participado em várias ações de voluntariado e é atualmente uma família de acolhimento.

 

Ao longo da sua vida profissional, Paula sempre lidou com o público e diz que “talvez daí tenha nascido a necessidade de apoiar e ajudar os outros. Sempre tive muito gosto pela área da saúde”. Em 2013, surgiu-lhe a oportunidade de “fazer uma das coisas que mais realiza: ser voluntária”. “Comecei na Fundação Ronald McDonald, na sua casa de Lisboa que acolhe crianças em tratamento do Hospital Dona Estefânia e no próprio hospital, na ala pediátrica de queimados”. Em 2015, foi viver para Ribamar (concelho de Mafra) e começou a ser voluntária na CEBI onde permaneceu durante um ano. Em 2017, conheceu Maria Filomena, a coordenadora do setor de saúde da Fundação João XXIII que a “levou para uma grande aventura, a de ser família de acolhimento”. “Ser uma família de acolhimento, significa acolher na sua própria casa, as crianças que vêm da Guiné com problemas cardíacos, para serem operadas ao coração e posteriormente regressarem à sua terra natal, depois de curadas. Até hoje, recebi na minha casa, cinco crianças entre os dez meses e os dois anos”.

 

“É como fossem meus filhos de coração!”

Sobre esta sua “grande aventura”, conta-nos na primeira pessoa: “No início de março de 2018, acolhi a primeira criança, o Fodé Sama, com um ano e 10 meses, tendo ficado connosco um mês e 15 dias. Durante este período, tivemos a oportunidade de celebrar os seus dois anos. Era um menino muito querido, a quem o meu filho mais novo tratava por Dudu. Foi uma intervenção fácil, uma vez que apenas foi necessário efetuar um cateterismo no Hospital Universitário de Coimbra. Como a experiência foi muito gratificante, eu e a minha família, achamos que estávamos prontos para receber mais uma criança. Foi em maio que recebemos a Jessimiela, uma menina com dois anos feitos recentemente. Era adorável. Esteve connosco durante dois meses e uma semana. Ficou connosco mais algum tempo porque fez uma operação que necessitou de um período de recuperação mais prolongado. Regressou à Guiné em finais de julho. Dois meses depois, em setembro, recebemos um menino, o Leonel, com um ano. O Leonel era uma criança muito especial que tinha vários problemas cognitivos, motores e visuais. Veio a Portugal com um problema cardíaco que, com um simples cateterismo, ficou resolvido. Ficou connosco durante um mês e uma semana. Depois destas crianças, o meu desejo de continuar a ajudar ficou ainda mais forte e continuei a acolher, desta vez, mais uma menina, a Olívia de 10 meses. Chegou a 24 de outubro de 2018. Neste caso, a sua história foi um pouco mais complicada. No dia em que chegou, vinha com febre e tive de ir quase de imediato para o Hospital Pediátrico de Coimbra, onde ficou internada durante oito dias com gripe A. Naturalmente, não consegui deixá-la e durante este período estive em permanência à sua cabeceira. Muitas pessoas me perguntam: e a Família? E o teu trabalho? Na verdade, o meu trabalho é este, o voluntariado. Deixei de trabalhar desde que me dedico a esta causa. Da minha família tenho todo o apoio, desde os meus filhos, ao meu marido. Sem este apoio não era possível realizar este meu sonho. Eles sabem que me entrego de alma e coração a este projeto. Quando acolho uma criança, é como fossem meus filhos de coração, durante o período em que estarão connosco. A Olívia já chegou bastante doente. Tinha problemas cardíacos e pulmonares. Em novembro fez um cateterismo que não foi suficiente, tendo-se de se avançar para uma operação. No entanto, estava constantemente doente com infeção respiratória, muito fragilizada com líquido no pulmão. Teve inclusive de ter tratamento com uma fisioterapeuta ao domicílio, para poder ajudar a nossa princesa a respirar melhor. Os nossos corações estavam permanentemente em alerta. A Olívia engasgava-se frequentemente e muitas vezes tinha de a socorrer ‘in extremis’, colocando-a de pernas para o ar. Passámos com ela o seu primeiro aniversário, a 13 de dezembro, assim como o seu primeiro Natal, onde fomos inclusivamente à Missa do Galo, no Convento de Mafra. A nossa casa estava cheia, com os meus pais, irmão, sobrinha e cunhada. Foi um Natal maravilhoso! No dia 26 de fevereiro de 2019, fomos para Coimbra para efetuar a cirurgia. Aparentemente, tudo parecia estar a correr pelo melhor, mas no dia 28, às 20h, a nossa pequena guerreira teve uma paragem cardíaca com pressão pulmonar. Conseguiram salvá-la, mas ficou com problemas cerebrais irreversíveis, uma vez que a paragem cardíaca foi de 20 minutos. Não há palavras para descrever a forma como senti este momento. Não foi fácil entender o que acontecera, por outro lado, também era difícil antever o que seria a sua vida daquele dia em diante. Em 100 crianças tratadas com sucesso, neste projeto da Fundação João XXIII, este foi caso único. Foi uma etapa muito complicada, mas com a ajuda de Deus e da família, com muito amor, tudo se ultrapassa. Fiquei com a Olívia de 26 de fevereiro a 21 de março, no Hospital Pediátrico de Coimbra. Durante este período, a minha família ia-me visitar, mas em outras ocasiões ia eu a casa. Tive muito apoio dos meus filhos, marido e amigos. Foi um processo longo, pelo que acabei por pedir transferência da Olívia para um hospital mais perto da minha área de residência. Por esta altura, toda a parte cardíaca já estava resolvida, necessitando de ser acompanhada devido à questão neurológica. Durante este período, eu e Maria Filomena decidimos que faríamos tudo o que estivesse ao nosso alcance para dar a melhor qualidade de vida possível a esta criança. Contactámos vários especialistas, mas todos nos disseram que pouco mais havia a fazer, uma vez que a parte cerebral estava muito afetada. Nestes casos, a única coisa a fazer é assegurar os cuidados essenciais, muito amor e carinho. Esteve no Hospital Beatriz Ângelo de 21 de março a 3 de junho. A partir desta data, foi possível admiti-la na Casa da Palmeira, onde recebeu os cuidados de enfermagem e assistência necessários. Para mim, esta instituição era o Porto de Abrigo que a Olívia precisava. Tanto no hospital, como aqui, estive com ela diariamente, uma vez que sentia que a minha missão não estava ainda cumprida. Por vezes, também a acolhia de novo em nossa casa, mas por períodos mais curtos. A Olívia esteve na Casa da Palmeira até 31 de outubro. No final desse verão, decidimos que teria de regressar ao seu país, para estar junto da família. Conseguimos que fosse acolhida na Casa Bambaran, uma instituição de Bissau que acolhe crianças com casos semelhantes. No final de outubro, fomos em missão à Guiné-Bissau e levámos a Olívia para a sua nova casa. No regresso, trouxe mais um menino, o Alfusene, de 20 meses, que está atualmente em nossa casa. Gostaria de terminar, acrescentando, que as crianças que acolhi integraram a Missão-Saúde da Fundação João XXIII, a que agora pertenço, na parceria que tem com a Associação AIDA que presta cuidados de saúde no Hospital Simão Mendes, em Bissau, coordenando com a nossa Fundação este projeto ‘Famílias de Acolhimento em Portugal’, ao abrigo do protocolo entre os Ministérios da Saúde de Portugal e da Guiné. São já mais de 100 as crianças a usufruir deste projeto”.

texto por Catarina António, FEC | Fundação Fé e Cooperação
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