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Escola de Pais – IV
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Neste número, propomos dois textos importantes que falam dos frutos da proposta educativa. Num abraçamos esta alegria de partilhar a vida com um filho adulto que caminha grato pelo que lhe foi dado. Como diz a Madalena Fontoura: “A unidade de vida é uma herança pronta a ser entregue a um filho adulto.”

No outro, apresentam-se os riscos de uma educação que não procura o sentido profundo da vida, evitando o sofrimento que surge naturalmente no caminho. Neste texto o Pe. Pedro Quintela oferece-nos este vislumbre, fruto da sua experiência de acompanhar tantas pessoas que vivem da forma mais dura este drama.

 

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E quando os filhos já são grandes e senhores das suas escolhas?

Quando eram pequeninos e dependiam dos pais para tudo, parecia muito exigente, porque tudo girava à volta deles e não havia tempo nem cabeça para mais nada. Quando já andam, falam, percebem e vão à escola, uma primeira impressão de alívio transforma-se num novo desafio: o instinto de protegê-los, a tentação de achar que mais ninguém os compreende e que o mundo é hostil e ameaçador. A adolescência traz consigo uma robustez física e uma desenvoltura mental que poderiam dar uma trégua. Mas com ela vem a estranheza, um certo temor, a distância de idade, que parece um abismo precisamente na altura em que se queria estar mais próximo.

E quando os filhos já são grandes e senhores das suas escolhas? Diz o sábio ditado, “filhos criados, trabalhos dobrados”. Não há maior desafio do que ser companheiro de um filho adulto na estrada da vida. Sobretudo se for pedido aos pais enfrentarem maus passos dos filhos, fraquezas, rupturas, travessias solitárias. Aí, mais do que em qualquer dos momentos anteriores, é posta à prova a fé. Jesus contou a história do filho pródigo talvez a pensar nestes filhos. E nestes pais.

Ser pai e mãe de um filho adulto requer clareza sobre o destino e pés ao caminho. Um filho precisa de um lugar para o seu regresso. E o lugar mais hospitaleiro é um coração de peregrino. O filho volta e encontra um pai, uma mãe, que caminham. Essa é a juventude dos pais, que resiste às diferenças de idade. Uma humanidade que Cristo conquistou e venceu é um milagre de juventude.

A unidade de vida é uma herança pronta a ser entregue a um filho adulto. Não somos nós que damos sentido às coisas. A ligação que une tudo que existe e acontece é objetiva. A certeza de um desígnio, o desejo de conformar cada vez mais a vida ao significado último e de caminhar nesse significado dá aos pais uma fisionomia de homens e mulheres novos, que um filho adulto em algum momento surpreenderá e desejará.

A esperança, essa certeza na vitória do bem que caracteriza os que se reconhecem de Deus, permite que em tudo o positivo prevaleça, a centelha de bem seja valorizada e haja sempre um olhar limpo sobre um filho, vá por onde for. É preciso uma pobreza e uma simplicidade para conservar esta capacidade de ver o que há de bem no coração humano. Porque nos filhos, como nos pais, a salvação virá sempre através do humano. É na humanidade, mesmo que ferida, perdida ou distraída, que vibra a notalgia do bem. E esse é o começo do regresso.

texto por Madalena Fontoura


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Gente mal educada – despistes, riscos e (re)encontros!

Desde logo, há que nomear a gente mal-amada. Nesses que desde o começo da vida foram expostos ao mau tempo, infectados de desamor, desprotegidos e pouco “livrados do mal...”. E penso nos que foram vitimas da traição dos adultos (naturalmente muitos deles também peões das dis-torções herdadas das suas próprias circunstâncias pessoais). Há gente que nasceu e logo cresceu sozinha, sobrevivendo, ou pior, sob-vivendo. Sem que o pai regressasse a casa ao fim do dia senão para rebentar com tudo porque vinha bêbado, sempre. Sem que a “mãe” fosse sinónimo de “casa” porque estava por lá muito pouco, sabe-se lá porquê. Gente que só partilhou com os seus tristeza e silêncios. Muitos, também, os que viram mudar tantas vezes os “pilares, paredes e portas” dentro de casa, tantos foram os adultos que porta adentro viveram com a mãe ou com o pai sem serem a mãe ou o pai – devastando referencias, como se a vida estivesse sempre a ser despejada...; miudagem, ainda, arrasada pelas violências da gente grande, na idade e na maldade. Por exemplo, através de chocantes experiencias sexuais brutais e brutalizantes. E basta referir, como exemplo de degradação da relação educativa, o deixar os pequeninos expostos ao contágio malicioso das rimas de um qualquer cantor pimba. Acresce o que está à vista de todos: que as novíssimas gerações sofrem de como que de uma bulimia informática, expressando-se assim a falta de comunicação e comunhão com e na família. Donde ecrãs de ilusões inundando a vida com ondas de excitação e tédio, e não raro pânico, restando a gulosa espontaneidade como bússola para todas as experiencias da vida. Aliás conduzindo-as, não raro, até aos baixios de uma vida sem propósito outro se não o de “tá-se bem”. Gente que antes de se poder dizer que se despistou, melhor seria dizer que pouco frequentou de um ambiente que testemunhasse como viver.

Ainda assim, parece-me poder-se dizer com justeza, que as pessoas capazes de grande violência não são as que viram muita violência (veja-se a santidade que, por vezes, os cenários de guerra manifestam) mas, isso sim, que a máxima perversão consiste em ter-se atrás de si o nada e o vazio. Creio que os “muito perigosos” não tem origem nos bairros problemáticos ou nas etnias minoritárias. Não creio que o que os descreve seja terem crescido por entre berros e ameaças. Nesses ambientes ainda há, e tantas, relações de vizinhança e família. Antes, são as pessoas que não tiverem família, nem comunidade, aquelas nas quais a biologia de dois progenitores produziu uma criatura, a quem a sociedade oferece aparelhagem institucional para crescer (hospitais, escolas, dinheiro, subsídios e guetos...) que transportam dentro de si o inspirador e perigoso frio que só gera ataque e caos. Veja-se a origem geográfica de alguns dos mais perigosos serial-killers desta parte do mundo a que chamamos Ocidente: Noruega, Alemanha...

Mas avanço: parece-me que no excesso de intenção começam, não raro, os riscos paradoxais da má educação. No desejo de produzir filhos-felizes, filhos protegidos por todo o afecto do mundo, filhos-eficazes, filhos top, filhos que “não hão de sofrer o que eu sofri”... Lembro-me, a propósito, da mãe da Ana e do Carlos, doméstica da sua própria casa e que, nas horas vagas, muitas, se especava do lado de fora da rede da escola primária, nos intervalos das aulas, a ver ambos os filhos a brincar, não fosse acontecer-lhes alguma coisa. E, de facto, aconteceu: mais tarde, já grandes, saltaram a vedação com que a mãe sempre os tentara domesticar... queriam ser livres, mas ambos se tornaram “dependentes”. É que não aprenderam, pelo menos não integraram, a diferença entre fazer o que apetece e fazer o que se quer. Na verdade, incapazes de consultar o que era mais autêntico nos seus corações em fuga, entregaram-se ao que parecia ser o mais abreviado atalho para a vida “gira”. De facto, rapidamente a alcançaram, mas apenas porque a vida não parara de “girar” em torno dos seus obsessivos e esmagadores vazios.

Nota relevante para o tema do sofrimento: grande, o dos pais, quando, obviamente por razões generosas, sofrem ansiosamente, tentando evitar que os filhos sofram nos cruzamentos da vida. Por vezes, tantas vezes, até os pais católicos, aqueles mesmos que ensinaram os seus filhos a fazerem o sinal da cruz desde a mais tenra idade, sonham que o seu filho se torne adulto sem conhecer a dor da cruz. E lembro-me de um rapaz muito valente, inteligente, atlético que pelos 20 anos ingressou nos paraquedistas. Capaz, muito capaz, de enfrentar o medo (físico), grande lutador nas arenas desportivas, mas completamente indefeso face à frustração, à angústia e ao sofrimento moral, e à solidão.

De facto, pergunto, que outra coisa mais relevante na educação senão preparar para “morrer”? Ou melhor, e dito pela positiva, que outra coisa permite a boa-educação senão encontrar, com os outros, antes demais a própria família, porque viver e a quem, e porquê, dar a vida?... Na verdade, que outra coisa fez Jesus, se não dar e ensinar a dar – a vida. Não a dar a vida provisoriamente, ou em regime de voluntariado, ou enquanto o casamento for feliz, ou quando os “votos religiosos” trouxerem admiração face ao extraordinário da própria vida. Parece-me, na verdade, que a única maneira de o sofrimento não se tornar lugar de fechamento, desespero e tortura é vivê-lo como com-paixão. Desse modo, “já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” – também a minha dor, oferecendo-me nela comunhão e esperança.

Creio que há gente que arriscou muito, demais, não na grande aventura de navegar mas antes na arriscadíssima desventura de fugir: da busca de sentido e de verdade, de uma vida com sentido e porquê. Daí sobrar tantas vezes as agruras de uma omnipresente insegurança, ou mesmo pânico, tentando mascar-se de frivolidade como se se tratasse apenas de curtir mais um festival de verão. 

Ora, as pessoas que arriscaram e resistiram muito na vida (não serão estas atitudes cara e coroa da mesma atitude face à existência?) tinham muita certeza na vida, no seu sentido. Também por isso, bendito seja Deus pelos que, educados por Cristo, na Igreja de Cristo, sabem dizer não ao império dos homologadas narcisismos da cultura dominante, sempre em favor do sim ao (re)encontro com a casa onde aqueles que se descobrem bem-amados e bem educado sempre quererão habitar.

texto pelo Pe. Pedro Quintela

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