Lisboa |
Semana da Caridade da Vigararia de Alenquer
“Escutar é um ato de amor”
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Visitar os que estão mais sós e os doentes. É esta a periferia escolhida pela Vigararia de Alenquer para este ano pastoral dedicado à caridade. Cerca de uma centena de missionários da escuta, das 22 paróquias desta vigararia, iniciaram já esta missão, “para que os outros se sintam amados”.

 

Lurdes e João Carvalho, da Paróquia de Arruda, são dois dos missionários da escuta da Vigararia de Alenquer. “Queremos sobretudo escutar as pessoas. Mas queremos também que as pessoas nos escutem”, salienta este casal, ao Jornal VOZ DA VERDADE. Casados há 29 anos, Lurdes e João são pais de dois filhos, uma jovem, de 26 anos, e o irmão, que faleceu há dois anos, com 18 anos, vítima de cancro. “Sentimos também nós uma grande necessidade de nos escutarem, porque perdemos um filho e vimos que não há muita abertura, porque as pessoas não sabem o que nos dizer. Com o sofrimento, também nos aproximamos mais das outras pessoas”, frisa Lurdes. Esta leiga, “no passado”, lidou com “pessoas de mais idade” e recorda a história de uma conversa que teve, no posto médico. “Estava à espera e uma senhora começou a falar comigo, e estivemos na conversa uma meia hora. A senhora depois levantou-se e disse que já estava melhor e que se ia embora. Portanto, ela só queria desabafar”, conta, sublinhando que quer dar o seu “contributo” de ouvir as pessoas.

O marido, João, salienta também o “gosto em escutar as pessoas”. “É extremamente fácil escutar as conversas das pessoas mais velhas, porque aprendemos muito com eles e permite-nos olhar para o futuro com outros olhos”, observa. Para este leigo, o ‘segredo’ desta missão é “escutar de uma maneira simples, sem julgar”. “Basta estar ao lado deles, que não é sacrifício nenhum”, garante, sublinhando que “o isolamento dos idosos é um problema na Arruda”.

 

Escutar

Neste ano dedicado, no Patriarcado de Lisboa, à caridade, a Vigararia de Alenquer escolheu como periferia a visita aos que estão mais sós e aos doentes. Uma periferia escolhida na sequência do Dia da Solicitude, que decorreu em outubro, no Turcifal. “Alguns leigos, já por si, tinham esta inquietação de visitar as pessoas. Penso que a solidão é transversal, mas, nestas aldeias, isso nota-se mais”, frisa ao Jornal VOZ DA VERDADE o padre Daniel Almeida, que é vigário de Alenquer desde 2017. Escolhida a periferia, a vigararia organizou um encontro, com representantes das paróquias, para começar a trabalhar. “Primeiro, quisemos saber quem são as pessoas que estão sós, nas santas casas e nos centros sociais. Dei-me conta que há muitos que veem pela Segurança Social e não têm ninguém. Depois, também as conferências vicentinas e os ministros da comunhão sinalizaram alguns casos, sobretudo particulares, e o município de Arruda facultou quem está só”, explica. A 8 de dezembro, Solenidade da Imaculada Conceição, em cada uma das paróquias da vigararia, teve lugar a celebração de envio dos missionários da escuta. Nestes dois meses, segundo o vigário, “algumas paróquias já arrancaram nesta missão, outras estão a começar e outras ainda vão começando”, aponta.

O padre Daniel Almeida, de 36 anos, frisa ainda que o nome dado a estes leigos, ‘missionários da escuta’, se deve a um casal visitador. “Perguntei-lhes o porquê de eles quererem ir visitar os mais sós e os doentes, e eles responderam que queriam escutar. Depois, o Papa Francisco, no ‘Te Deum’ do último dia do ano, teve uma frase que nos tocou a todos: ‘Escutar é um ato de amor’”, conta.

 

Sair apressadamente

Pároco de Arruda dos Vinhos e Cardosas, este sacerdote destaca o trabalho feito nesta nova missão. “É engraçado, porque os meus paroquianos, nas primeiras visitas, pediam-me para eu os acompanhar, para fazer a ‘ponte’, e tem havido situações muito bonitas, inclusive de missionários que têm levado à Missa pessoas mais isoladas”, partilha.

Segundo o padre Daniel, os jovens de Arruda têm também participado neste ano dedicado à caridade, e testemunharam isso mesmo, ao Jornal VOZ DA VERDADE. “Jesus pede-nos sempre para irmos ao encontro do outro. O outro pode ser aquele que está ao nosso lado ou aquele que nos obriga a sair da zona de conforto, para podermos ser Evangelho vivo.  E, não é assim tão difícil quanto parece, basta termos o nosso coração aberto, como Maria”, refere um testemunho dos animadores do grupo de jovens, lembrando a importância de sair: “Se o nosso propósito é ir ao encontro dos mais idosos, dos mais pequenos, dos mais sozinhos, não podemos ficar sentados no sofá a fazer ‘zapping’. Somos convidados a sair apressadamente para irmos ao encontro do outro”.

António Sousa, da Paróquia de São Quintino, no Sobral de Monte Agraço, é também missionário da escuta. “Temos muitos idosos, e muitos deles estão abandonados”, aponta este leigo, ao Jornal VOZ DA VERDADE, sublinhando “a necessidade de ‘adotar’ alguém”. “A experiência que temos tido neste projeto é riquíssima, porque estabelecemos relações”, assegura António, lembrando palavras recentes do Papa Francisco, no congresso da Pastoral dos Idosos: “O Papa pediu às paróquias para irem ao encontro dos idosos, levando um sorriso na cara e a Palavra na mão. É um pouco isso que temos procurado fazer”.

 

Escuta genuína

Na manhã do passado dia 8 de fevereiro, a Vigararia de Alenquer viveu a sua Semana da Caridade, com uma ação de formação, na Santa Casa da Misericórdia de Aldeia Galega da Merceana, para cerca de uma centena de missionários da escuta, que teve como orador o padre Fernando Sampaio, capelão hospitalar há 34 anos. “Fiquei espantado com tanta gente a interessar-se por estas coisas e a querer desenvolver uma sociedade compassiva, que sai de si própria e vai ao encontro dos outros”, começa por referir, ao Jornal VOZ DA VERDADE, este sacerdote, que é diretor da Pastoral da Saúde do Patriarcado de Lisboa. “Nesta manhã de formação procurei transmitir que nós podemos expressar o amor, procurando ir ao encontro dos outros, escutando, para que eles se sintam amados. É numa escuta genuína que as pessoas saem da sua solidão e se sentem pertença da comunidade cristã”, garante.

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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