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DOMINGO II QUARESMA Ano A

“Este é o meu Filho muito amado,

no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O.”

Mt 17, 5

Ao ver o filme “Especiais” (“Hors normes,” de Olivier Nakache e Éric Toledano) que estreou a passada semana, senti a necessidade de ligá-lo ao apelo do Pai aos discípulos, no monte em que Jesus se transfigurou: “Escutai-O”. O que escutaram aqueles dois homens, um judeu (Bruno) e um muçulmano (Malik) para se dedicarem de corpo e alma, há mais de duas décadas, a reintegrar crianças e adolescentes com vários graus de autismo? Nenhum chamamento divino é referido, mas o sofrimento de familiares e a incapacidade de serviços médicos e sociais cuidarem daqueles que “ninguém quer” foi suficiente. E quem foram escolher para “treinar” o cuidado de cada “especial” que acolhem? Jovens-adultos em várias situações de exclusão social, com problemáticas de integração, num processo de aprendizagem e profissionalização. Últimos a cuidar de últimos. E sem nenhum monte luminoso (mas com montes de problemas para resolver), é na planície violenta e agreste duma Paris sem glamour nem turismo que a transfiguração também se manifesta.


Todos começamos por ouvir antes de começarmos a ver. No seio das nossas mães, os ruídos, as vibrações, as vozes são das primeiras sensações que registamos. Que impressões guardamos desses primeiros sons? Sabemos como as vozes, as palavras, as melodias vão sendo importantes por toda a vida graças ao admirável dom de escutar e de ouvir. E havemos sempre de procurar entender o que ouvimos, pois até as histórias de amor começam por “dar ouvidos” a alguém, como dizia um amigo meu! Mas o que fazer com quem tem dolorosas dificuldades de se exprimir? Como nos tornamos “surdos voluntários” a apelos difíceis e incómodos? 


Sentiram-se, certamente, especiais Pedro, Tiago e João por Jesus escolhê-los para aquele momento tão luminoso. Foram representantes nossos, testemunhas para garantirem a veracidade e o apelo que é para todos. E até no desejo de ficarem “aqui”, revelaram o nosso íntimo. A estabilidade e a segurança são anseios universais, mas podem ser prisões. A vida é dinamismo, e a Abraão é dito: “Vai”. E isso implica deixar um conjunto de ideias, rotinas, grilhões que nos prendem. Assim Jesus disse o mesmo a todos os pecadores e miraculados. E é essa a sua última palavra nos evangelhos: “Ide” As palavras que mais nos fazem crescer não são aquelas que abrem caminhos, que nos empurram para a frente e vencem o medo da surpresa e do desconhecido? Ao descer do monte, os discípulos trazem luz e cruz dentro deles. Essa é a especialidade dos que queremos escutar Jesus.


Sair com Cristo ao encontro de todas as periferias” é um programa imenso. Convoca-nos também para a descoberta dos “especiais” (“hors normes”, que a dureza do título francês não oculta) que não se fazem ouvir. Mais próximos do que imaginamos, vizinhos até, familiares, quem sabe? Não basta ver, é preciso escutar. Pois não somos todos “especiais” para quem nos ama? Sair das tendas do nosso acomodamento, descalçar os preconceitos e ter a persistência de quem acompanha e cuida. É um caminho de cruz, ou melhor, de páscoa, de passagem pela morte para mais vida. E não é isso que é tão especial quando escutamos como Deus nos pede?

P. Vítor Gonçalves
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