Editorial |
P. Nuno Rosário Fernandes
O grande Irmão
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Recordo, há alguns anos atrás, ter assistido a um filme que mostrava o dia a dia de um personagem que, embora habitasse um mundo fictício e construído, estava convencido que aquela ficção era a sua vida. Vivia numa cidade, de onde nunca tinha saído. Nela cresceu, e era o seu espaço onde tudo era perfeito e devidamente programado e agendado. Truman era um cidadão especial que habitava num estúdio de televisão, onde todos eram atores e sabiam o seu papel e as suas entradas. Truman era o protagonista de uma história que ele desconhecia, com tempos certos para a publicidade do que usava, bebia ou fazia. Até que chega o dia em que Truman percebe que estava a ser manipulado e procura encontrar a sua liberdade. ‘The Truman Show’ é uma ficção, mas hoje há outros lugares assim, onde a realidade é construída em função de um momento de glória, de fama, de exibicionismo, na procura de qualquer coisa, sujeitando uma liberdade ao que outros determinam na busca de audiências. Há programas assim na televisão, e também já os há na internet, para reunir candidatos a influenciadores das redes sociais. Nele participam adolescentes, com a ânsia de conquistar visualizações transformadas em moeda de pagamento ou em bens trocados por publicidade. Se na TV procuram prémios chorudos e fama, nas redes procuram um futuro de não fazer nada, e viver das conversas fiadas que não edificam e dos exemplos que nada constroem.

Pensando nisto, esta semana estive num ‘big Brother’, ou ‘grande Irmão’. Entrei na casa grande acompanhado por outros concorrentes. Disputámos o prémio final e mesmo fora da casa continua essa disputa. É um prémio de valor infinito. Naquela casa, todos os movimentos são controlados. Mas afinal apercebo-me que fora dela também. Mas nem por isso sinto que tenha perdido a liberdade. Com horários regulados, tivemos tempo para dormir, mas durante o dia o exercício que a Voz comandava era árduo. No entanto, não me senti cansado. Pelo contrário, senti-me muito descansado e leve.

Fui capaz de me submeter às ordens da Voz, pelo menos nestes dias. Nos outros dias, são tantas as vozes, que temos maior dificuldade em distinguir a Voz. Mas esta semana foi especial. Às ordens da Voz, cheguei até a desnudar-me. Confesso que foi difícil, mas fiquei a conhecer-me melhor. Por vezes, precisamos de tirar tudo para nos conhecermos, já que a tendência é a de nos mascararmos, diante de nós próprios, para parecermos outros e diante da Voz. Mas, o desnudar deu-me uma sensação de liberdade. De verdade, e de liberdade. E seguir a Voz quando a conseguia ouvir atribuiu-me ainda maior responsabilidade. E mesmo agora, fora da casa, sinto esse peso porque, afinal, não queremos ficar mal diante da Voz. No entanto, ela compreende-me. Eu procuro dar o meu melhor e aperfeiçoar-me, mas nem sempre sou capaz. Não desisto de querer melhorar e, no encontro com este grande Irmão, apercebi-me que concorro a um prémio acessível a todos os que o desejam: o da Salvação. E o retiro quaresmal é sempre tempo para acertar a rota.

Editorial, pelo P. Nuno Rosário Fernandes, diretor

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