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Casa do Oeste
“Construída por muitos, para estar ao serviço de todos”
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A Casa do Oeste, em Ribamar, Lourinhã, é uma marca viva dos movimentos rurais que estiveram na origem da sua construção, há mais de 45 anos. Atualmente, está disponível para acolher grupos e movimentos, e continuar a ser fundamental para o associativismo católico na região. A história é contada, ao Jornal VOZ DA VERDADE, pelo sacerdote que chegou à paróquia na década de 70, padre Joaquim Batalha, e pelo vice-presidente da Fundação João XXIII – Casa do Oeste, Luís Gonzaga Nunes.

 

A Casa do Oeste, em Ribamar, Lourinhã, não é apenas um edifício destinado a acolher retiros ou outros encontros. É a marca do associativismo que, no mundo rural, distingue, desde a década de 70, a região Oeste do Patriarcado de Lisboa. Nos dias de hoje, os movimentos da Ação Católica que estiveram na origem da criação da Casa do Oeste ainda persistem e a sua história é contada, ao Jornal VOZ DA VERDADE, pelo presidente, padre Joaquim Batalha. Diz que pertence àquela região desde que nasceu, sobretudo pela educação que recebeu “na família e na Ação Católica”. Hoje, com 81 anos, recorda a “mobilização pela solidariedade” com que tudo começou. “Era prior de uma paróquia no Ribatejo, em Vila Chã de Ourique, perto do Cartaxo [à data, Patriarcado de Lisboa e, atualmente, pertencente à Diocese de Santarém]. Em 1971, o Cardeal Cerejeira nomeou-me assistente da Ação Católica e puseram-me a questão de um dinheiro que havia para construir a Casa do Oeste, que era também um sonho do padre Serrazina [natural da Benedita, e falecido em 2010]. Então, eu fiz uma pergunta: ‘Os motivos da construção da casa permanecem os mesmos?’. Disseram-me que sim. Então, se são iguais, disse: ‘Vamos começar!’”, conta. E assim começou a ganhar forma o edifício que pretendeu ser um espaço onde se pudessem “reunir os movimentos rurais, durante todo o ano”, uma vez que os espaços utilizados, como os seminários, só tinham disponibilidade durante o verão.

 

Aos poucos

Quando foi pensada a construção da Casa do Oeste, existiam dois projetos. “Um dos projetos era mais megalómano do que o outro, e nenhum era viável”, refere o padre Batalha, que não hesitou em apresentar, “com muita facilidade, uma solução”. “Em vez de construirmos logo uma casa, começaríamos por construir um acampamento para fazermos as atividades”. Mas, “com a conversa, isso não aconteceu e chegou-se a outra realidade”, conta. No início da década de 70, existia a “moda” das casas de madeira. “Fomos a Lisboa ver os modelos e valores e foi por aí que começámos. Com o dinheiro que tínhamos e mais uma mobilização de solidariedade – esta casa foi sempre construída com a solidariedade – começámos por comprar dois pavilhões pré-fabricados, cada um com sete quartos. Fizemos duas caves, onde concebemos uma camarata, uma cozinha e um refeitório. Assim vivemos durante alguns anos e, entretanto, começámos a construir dois novos pavilhões, sendo que um albergou, durante vários anos, o refeitório, a cozinha e as salas de trabalho. E assim se desenvolveu, a pouco e pouco, a Casa do Oeste, que foi fundada em 1974”, lembra o sacerdote, que destaca a capela como um dos espaços mais significativos da casa. “Os encontros que ali se realizam, criam uma solidez no coração das pessoas e marcam. Por isso, mesmo passados anos, muitos continuam a sublinhar a importância daquele espaço”, aponta.

 

Solidariedade, comunhão, bem-estar

Mais tarde, já em 1991, foi constituída a ‘Fundação João XXIII – Casa do Oeste’, numa referência ao Papa, autor da carta encíclica ‘Mater et Magister’ (‘’), “a carta magna da Ação Católica e que desenvolveu o sentido de solidariedade, de comunhão, de bem-estar que se vive nesta casa”, argumenta o padre Batalha. O motivo da criação da fundação era o de fazer face aos impedimentos que surgiam para “o funcionamento das coisas”. Assim, foi criada uma “pessoa jurídica” que tinha como missão a “gestão da casa” e a “promoção do desenvolvimento sustentável, à luz da mensagem cristã”, tal como atestam os estatutos da instituição que é constituída pelos movimentos da Ação Católica Rural (ACR), Juventude Agrária e Rural Católica (JARC) e Ação Católica dos Mais Novos (ACN).

Desde a criação da Casa do Oeste foram inúmeros os momentos que marcaram a vida desta instituição. Com a ressalva de ser impossível lembrar-se de todos, o padre Joaquim Batalha refere a preparação do encontro com agricultores portugueses com o Papa João Paulo II, durante a sua primeira visita a Portugal, em 1982. “O encontro do Papa com os agricultores foi em Vila Viçosa. Nós preparámos o encontro, com os grupos na diocese”, lembra. Outro, “talvez o mais significativo”, foi o “Congresso de Cristãos do Oeste”, em 1997, no Pavilhão Gimnodesportivo do Bombarral, e que juntou cerca de quatro mil pessoas.

 

Cooperativismo

Luís Gonzaga Nunes é natural da Benedita, Alcobaça, fez a sua escolaridade, depois da primária, no Colégio dos Salesianos, no Porto. Regressado à sua terra, para trabalhar na pecuária, ouviu falar, em 1977, da Casa do Oeste. É, então, com 22 anos, desafiado a entrar para a JARC e ajudar a dinamizar o ‘Congresso dos Jovens Agricultores’, em Coimbra. Atualmente com 65 anos, e morando em Óbidos, Luís é vice-presidente da Fundação João XXIII – Casa do Oeste e recorda que foi a partir da militância na JARC que se dedicou à agricultura. “Foi a partir desse seminário que tive muitos conhecimentos de agricultura. O movimento da Ação Católica na diocese desenvolve todo um trabalho de formação – mesmo formação técnica – com agricultores, em colaboração com o Ministério da Agricultura, aqui no Oeste. Criámos vários grupos de agricultores, nesta região. A divulgação do cooperativismo, da mensagem do Papa João XXIII sobre a agricultura, levou-nos a criar uma cooperativa agrícola para pôr em prática o que andávamos a receber, a aprender e a divulgar”, conta Luís Gonzaga, ao Jornal VOZ DA VERDADE. Contudo, em 1985, depois de casar, com a educação dos filhos pequenos e com as dificuldades económicas do país, Luís faz um “interregno”, voltando depois ao movimento da Ação Católica como dirigente, acompanhando o início da fundação e, mais tarde, fazendo parte do seu Conselho de Administração.

 

“Ao serviço de todos”

A missão da Fundação João XXIII – Casa do Oeste “continua a ser a mesma”, refere o vice-presidente. “Esta missão tem duas vertentes. Uma, é a gestão da casa, esta casa que foi – como diz o lema – ‘construída por muitos, para estar ao serviço de todos’. É um espaço onde muita gente, movimentos, grupos podem vir, fazer reflexões, retiros, passar momentos de férias, estudo”, garante este responsável, sublinhando o esforço do Conselho de Administração para garantir que cada estadia custe “o mínimo possível”. Pretendemos que os jovens, e não só os jovens, possam vir cá, dormir, ter uma refeição, por 20¤ por dia. Como é que se consegue? Com uma gestão muito eficaz da casa, com muitos apoios de voluntários que fazem a manutenção, com um grupo de amigos da fundação (cerca de 300) que contribui ao longo do ano”, especifica Luís Gonzaga Nunes.

Outra missão da fundação é a da “solidariedade e a formação para o desenvolvimento”. “Continuamos a fazer reuniões com agricultores da região, fizemos um encontro, há dois anos, que levou à criação de um caderno de encargos que foi entregue ao Ministério da Agricultura, ao Ministério da Segurança Social e ao próprio D. Manuel Clemente, que presidiu a esse encontro, no Bombarral. Continuamos a promover outros encontros de formação e temos também um grupo – que começou por ser um autónomo, mas que, hoje, está inserido na fundação – de solidariedade com a Guiné. Apoiamos diretamente projetos no país, enviamos ajuda de vários materiais e servimos de ponte para o apoio a crianças que vêm a Portugal para serem operadas”, refere Luís Gonzaga.

 

Rejuvenescimento

Para o futuro, os desafios para a Casa do Oeste “são muitos”, assume o vice-presidente, alertando para as “mudanças muito rápidas” que tem constatado. “Hoje, os agricultores do Oeste têm uma formação – até ao nível da faculdade – que não existia há alguns anos. Estamos a constatar uma nova realidade muito diferente, que no Alentejo já existe muito, mas que aqui está a chegar. São os emigrantes do Paquistão, do Nepal..., que trabalham na agricultura. Deixámos de ter uma agricultura familiar para termos uma agricultura quase industrializada”, refere Luís, que mantém também a esperança de conseguir “trazer gente nova” à fundação. “A Casa do Oeste tem um espírito próprio. E os grupos que aqui vêm sabem disso e passam a mensagem. Acredito que vamos conseguir uma renovação, com gente mais nova”, declara.

 

Empenho

Sobre a visão que a Igreja tem sobre o mundo rural, o padre Joaquim Batalha diz reconhecer a existência de “um descrédito” sobre esta realidade, mas evidencia a importância destes movimentos rurais para o “empenhamento na vida” das pessoas. “É o único movimento, que eu conheço, que, mesmo com as suas limitações, desenvolve isto”, aponta o sacerdote, pároco de Ribamar, pedindo uma “maior atenção da Igreja para o mundo rural”. “Se queremos cristãos de verdade, as pessoas têm que se empenhar na vida concreta. E a vida concreta faz-se de justiça, de verdade, de entreajuda, de cooperação”, aponta.

  

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A Casa do Oeste localiza-se em Ribamar, na Lourinhã, e está disponível para ser utilizada por grupos e movimentos que pretendam. Tem 73 camas, entre quartos e camarata, várias salas de trabalho, sala de refeições, cozinha, capela, centro de recursos/biblioteca e outros espaços.

Mais informações: www.casadooeste.pt | geral@casadooeste.pt | 261422790 | 915779037 | 964966971

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