Lisboa |
Cardeal-Patriarca, D. Manuel Clemente
Carta aos diocesanos de Lisboa
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Caríssimos: Volto a escrever-vos nesta Quaresma, para também assim manifestar a minha presença e companhia em tempos tão especiais como os que vivemos, com os nossos concidadãos e em todo o mundo já.

No modo de comunicar que os novos meios permitem, recebo muitas mensagens que dão conta de como pessoas e famílias vão vivendo e do muito que se vai fazendo, na vida pública e particular, para responder aos graves problemas de saúde, equilíbrio humano e sustento básico que se põem e continuarão a pôr. É muito o que se tem feito, das instâncias oficiais e sanitárias à solidariedade interpessoal e de vizinhança. Chegam-me notícias que confirmam a humanidade no seu melhor, como se demonstra no concreto do quotidiano de muitos, por vezes no limite das suas possibilidades.

No âmbito eclesial, são igualmente muitas as ações em curso, de paróquias, institutos religiosos e seculares e instituições socio-caritativas, para minorar e ultrapassar as dificuldades que surgem e a falta de meios, pessoais e materiais, para prosseguirem a sua ação. A nossa Cáritas Diocesana procura igualmente uma resposta coordenada com outras instâncias, para não dispersar as possibilidades que existam ou se reforcem.

 

Por tudo isto, sabemo-lo bem, passa algo muito maior do que nós e nos impulsiona, como a muitas outras pessoas de boa vontade. Refiro-me à ação divina, que, contando connosco, nos precede e ultrapassa em tudo o que seja bom e útil para todos. A fé bíblica apresenta-se assim, como a certeza de um “Deus connosco” que abre sempre caminho e neste nos apoia. Em Jesus Cristo, a confiança no Pai é toda a sua força, fazendo das impossibilidades imediatas outras tantas ocasiões de vida e vida em abundância.

Lembramos certamente a cura daquele jovem doente, quando jesus fez o que os discípulos não conseguiam. O pai do jovem pediu-lhe a cura do filho e Jesus disse-lhe que tudo é possível a quem crê. O pai respondeu, como nós havemos de responder: “Eu creio! Ajuda a minha pouca fé!”». O jovem foi efetivamente curado: «Tomando-o pela mão, Jesus levantou-o, e ele pôs-se de pé.» Depois disse aos discípulos: «Esta casta de espíritos só pode ser expulsa à custa de oração.» (cf Mc 9, 14-29).

A linguagem é a da época, mas a lição é para agora e na atual emergência. Para nós sacerdotes, tão limitados nos contactos habituais, mas não na preocupação pelo bem de todos. Para os nossos colaboradores – diáconos, consagrados e leigos – este trecho evangélico garante-nos que a oração forte e permanente como que abre a Deus a possibilidade de atuar neste mundo e reforça a ação de quem se dedica ao bem dos outros.

Em Jesus, a coincidência orante com o Pai fez dele uma permanente fonte de vida. Vão no mesmo sentido estas indicações que nos dá, entre muitas outras: «Pedi, e ser-vos-á dado; procurai, e encontrareis; batei e hão de abrir-vos. Pois, quem pede, recebe; e quem procura, encontra; e ao que bate, hão de abrir» (Mt 7, 7-8). E também: «Se dois de entre vós se unirem na terra, para pedir qualquer coisa, hão de obtê-la de meu Pai que está no Céu» (Mt 18, 19).

 

Este último trecho tem muita aplicação no que vai crescendo nestes dias como oração em família. Reaviva a dimensão doméstica da Igreja de Cristo, tão salientada pelo Papa Francisco na exortação apostólica pós-sinodal Amoris Laetitia: «A Igreja é família de famílias, constantemente enriquecida pela vida de todas as igrejas domésticas» (AL, 87).

Isto mesmo se realiza agora, apoiando pela oração, não só a vida familiar, mas também a vida de todos, em circunstâncias tão difíceis: «A oração em família é um meio privilegiado para exprimir e reforçar esta fé pascal. Podem encontrar-se alguns momentos cada dia para estar unidos na presença do Senhor vivo, dizer-Lhe as coisas que os preocupam, rezar pelas necessidades familiares, orar por alguém que está a atravessar um momento difícil, pedir-Lhe ajuda para amar, dar-Lhe graças pela vida e as coisas boas, suplicar à Virgem que os proteja com o seu manto de Mãe» (AL, 318).

Estas indicações papais ganham hoje uma conveniência acrescida, nos diversos âmbitos eclesiais, da “família doméstica” à “família de Deus”, que é a Igreja toda, acompanhada pelos seus pastores. Assim acontecerá amanhã, dia 25, Solenidade da Anunciação do Senhor, quando às 11 horas de Portugal (meio dia em Roma), rezarmos ecumenicamente com o Papa um convicto Pai Nosso; e depois seguirmos a partir de Fátima às 18.30, com o seu Bispo, unido aos Bispos de Portugal, de Espanha e de outras dioceses estrangeiras, a recitação do Rosário e a consagração aos Corações de Jesus e Maria.

Caríssimos irmãos sacerdotes, diáconos, consagrados e fiéis leigos: Família a família, comunidade a comunidade, persistamos em oração. Fisicamente resguardados e no cumprimento estrito das indicações sanitárias, alarguemos em Deus a solidariedade com todos. Muitos concidadãos nossos, que estão na primeira linha dos cuidados de saúde e do serviço público, social ou particular, contam com a nossa oração, que lhes garantirá a força para o que vão fazendo, com tanta generosidade e mérito.

 

Convosco, com oração e muita estima,

Lisboa, 24 de março de 2020

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