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Pedro Vaz Patto
O vírus e a vida

De entre as muitas mensagens que recebi sobre a pandemia do Covid-19, uma reteve especialmente a minha atenção: a melhor forma de honrar as vítimas mortais desta pandemia é colher dela as melhores lições para a nossa vida futura. Isto não significa que tenhamos algo a agradecer a este vírus, como se ele fosse um bem. Mas tentar colher de um mal terrível algum bem. Na verdade, são várias e importantes as realidades que este mal nos faz redescobrir.

Uma delas é o do valor supremo da vida humana. Todas as mudanças do nosso quotidiano, todo o caos económico e social que se está a gerar, só têm justificação porque todos queremos salvar vidas humanas. Esperam-se danos económicos de valor incalculável, que não são apenas lucros de grandes empresas e de clubes de futebol, são salários e empregos de pessoas comuns. Mas acima desses danos está o valor da vida humana.

Esse valor é também o da vida de pessoas idosas, a maioria das vítimas mortais desta pandemia. O valor da vida não se mede pelo número de anos de “expectativa de vida com qualidade” ou pela sua “importância social” (por isso, não aceito que estes possam ser critérios de seleção das vidas a salvar). Esse valor é sempre o mesmo, para novos ou velhos.

Diante desta tragédia, vem também em particular evidência a importância do bem comum, isto é, do bem de todos e de cada um. É impossível negar essa importância diante deste caso, que justifica severíssimas limitações da autonomia individual. Nenhuma pessoa é uma ilha e todos dependemos de todos, para o bem e para o mal.

O que não significa que a limitação da liberdade individual que esta situação reclama se deva estender para além deste caso excecional. Se podemos colher alguma lição do modo como a China lidou com esta pandemia, tal não implica que o seu regime de controlo social que abrange todos os âmbitos da vida social (não muito longe da figura do Big Brother do livro 1984, de Orwell) tenha algo de positivo.

Só uma consciência ampla, nítida e forte do bem comum permitirá superar esta pandemia e todas as suas consequências. Um bem comum que tem uma dimensão nacional e universal.

Não partilho a ideia de que esta pandemia nos deve levar a travar a globalização (o comércio internacional, o turismo, as migrações), com o regresso das fronteiras que se foram abolindo. Poderão ser limitadas as viagens aéreas (com as vantagens ecológicas daí decorrentes), muitas das quais, com o recurso a reuniões por videoconferência, se revelam agora dispensáveis. Mas não podem perder-se as vantagens da globalização, que tem contribuído para a redução da pobreza e para a aproximação dos povos e culturas. Sempre houve pandemias, muitas bem mais mortíferas, antes desta era da globalização. Urgente é, como de há muito se diz sem que tal se concretize, implementar, para além da globalização económica, a globalização da solidariedade.

Há que conjugar esforços, mais do que erguer muros. A este respeito, veja-se a repulsa que causou a tentativa de Donald Trump de comprar o exclusivo dos direitos de exploração de uma eventual vacina, que o laboratório alemão em causa recusou, por a querer destinar a toda a humanidade.

Mas o que, mais do que tudo, esta tragédia nos faz redescobrir é a vulnerabilidade do ser humano diante da doença e da morte. Um minúsculo vírus põe de rastos todo um sistema económico e social. Que lição de humildade a aprender! Vem à memória a célebre frase de São João Crisóstomo: «Tudo é vaidade das vaidades

Diante desta experiência mais forte e evidente da precariedade da vida, temos uma ocasião propícia para redescobrir Deus, a quem devemos a vida e que nos chama à Vida eterna.