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Padre Fernando Sampaio
Pastoral da saúde: fazer nascer de novo

No mundo antigo muitos doentes eram considerados pecadores e por isso marginalizados[1]. Jesus mudou o paradigma: promoveu a saúde integral das pessoas saudáveis e dos doentes, acolheu e integrou os doentes. Os evangelhos dizem que Jesus “ungido por Deus com a força do Espírito Santo, passou fazendo o bem e curando a todos, porque Deus estava com Ele” (Act 10,38). Na verdade, o ministério terapêutico de Jesus foi de tal forma importante e impactante que um quinto dos evangelhos se refere a curas de uma grande variedade de doenças. Nenhuma, nem sequer os males psíquicos e espirituais, resistiam ao poder curador de Jesus.

Jesus tornou os discípulos continuadores da sua missão de curar e salvar. Ordenou-lhes que anunciassem a Boa Nova e curassem (cuidassem) os doentes (cf. Mt 10,6-8). E a Igreja deu continuidade ao mandato de Jesus, como nos dão conta os Actos dos Apóstolos em múltiplas passagens e os Padres da Igreja. No velho mundo pagão, a Igreja fez nascer um tempo novo, pequenas comunidades compassivas que organizaram o cuidado dos pobres e dos doentes.


Nos primeiros séculos, as pestes foram prova de fogo para a evangelização e para a caridade da Igreja. Dão-nos conta as crónicas dos historiadores e teólogos que, nas pestes, os pagãos arrastavam os seus familiares doentes para as ruas e depois os abandonavam, fugindo para se salvar.  Os cristãos, por sua vez, permaneciam nas aldeias e cidades e cuidavam dos doentes, correndo o risco de perder a própria vida[2].


Quando a liberdade religiosa foi permitida no império, na primeira parte do século IV, a Igreja começou a construir uma rede de hospitais, primeiro junto às Catedrais e nos Mosteiros, e depois espalhada pelo território conforme a inspiração e generosidade de religiosos e grupos de cristão leigos se foi manifestando. Ao cuidado dos doentes, geralmente pobres, estava associado também o cuidado dos pobres com a construção de albergarias. A ideia inédita, inspirada em Deus amor, universalizou a compaixão nos dois pulmões da caridade: cuidar dos enfermos e dos pobres. Não foi de forma nenhuma pequena a obre da Igreja nem o é hoje. A saúde foi preocupação da Igreja até ao século XIX, e continua a sê-lo hoje particularmente fora da Europa. À volta de 80% das instituições de saúde são da Igreja.


Com a Revolução Francesa, deu-se o início da nacionalização dos hospitais e da saúde pelo Estado. O paradigma da misericórdia deu lugar ao paradigma da solidariedade e do direito do cidadão e a saúde foi secularizada. O sistema de saúde que temos hoje é um bem e deve-se à nacionalização dos hospitais e à universalização da saúde como um direito de cidadania. Mas devemos reconhecer que é fruto da evangelização e da caridade que levedou nas sociedades europeias ao longo da Idade Médio e do Renascimento e fermentou o coração das instituições públicas modernas. A saúde, entre nós, foi nacionalizada em 1974. Aos cuidados da Igreja permanecem algumas franjas dos mais pobres, nomeadamente pessoas com doenças mentais. É-lhe dada a possibilidade também, apesar das dificuldades, de assistir espiritualmente os doentes nos hospitais públicos.


Livre dos territórios hospitalares e de tudo o que isso hoje significa, devendo apenas servir espiritualmente os doentes e os profissionais através das capelanias, a Igreja tem hoje mãos livres e a força do Espírito para desenvolver e recriar a compaixão e a misericórdia no meio do mundo, lugar onde estão as comunidades cristãs, as paróquias. Nelas se faz muito e bem, sobretudo aos pobres e idosos. É muito o trabalho e numerosos as instituições edificadas. Centros de dia, lares, apoio domiciliário, refeições, caritas, etc. Mas não se pode dizer o mesmo em relação ao cuidado dos doentes, situação que é inversa ao que vemos espelhado nos evangelhos. Jesus não fundou uma Caritas nem construiu centros de dia ou lares, embora tivesse recorrido uma ou duas vezes a um inédito banco alimentar. (Numa só vez alimentou cinco mil pessoas (cf. Lc 9,14). Existe trabalho pastoral com doentes, mas não teve o mesmo desenvolvimento que a Pastoral Social. Parece que a Igreja ficou sem grande criatividade depois da perda dos Hospitais no século XIX e da pastoral centrada na Extrema-Unção desde a baixa Idade Média até ao século XX. O cuidado pastoral com os doentes aparece geralmente envolto em grande timidez e cheio de grandes ambiguidades que é necessário ultrapassar para fazer brilhar a Boa Nova da saúde e da salvação.

À semelhança de Jesus que acolhia e curava e da Igreja que, ao contrário do mundo pagão, não abandonava os doentes durante as pestes e foi capaz de construiu uma rede hospitalar, somos desafiados, hoje, a construir comunidades compassivas e misericordiosas nestes tempos de individualismo e de descarte dos inúteis e pesados à economia. Somos desafiados a construir caminhos de caridade e a desbravar sentidos novos para as doenças e sofrimentos do nosso tempo; somos desafias a evangelizar retornando ao Evangelhos, isto é, a tornar presente a pessoa de Jesus, o Médico Divino, junto dos doentes, suas famílias e cuidadores. E isso pode ser feito usando os meios pobres que Jesus usou e que são apelativos para o homem de hoje: o testemunho, a compaixão, a gratuidade, o acolhimento caloroso, a escuta, a proximidade às necessidades, a oferta de sentido da vida e de reconciliação, a atitude de bênção, a solicitude e a comunhão dos irmãos no Senhor. Muito disso já é feito, mas para ser mais eficaz, visível e motivador, e decididamente evangelizador, é necessário que a solicitude pelos doentes seja uma acção de comunidade e que esta seja centrada nas pessoas e suas necessidades -doentes, suas famílias e cuidadores - através de uma pastoral organizada, integrada, articulada, perceptivel, de presença e proximidade, isto é, de uma nova pastoral da saúde que recoloque os doentes no coração da comunidade, lugar onde sempre devem estar.

 

 


 

[1] Hoje temos os doentes covid-19 que segregamos, até no funeral.

[2] Dando conta da fuga da população aquando de uma peste por volta do ano 260, Dionísio de Alexandria afirma: «Logo no início da manifestação de doença expulsaram os doentes seus familiares do meio deles e depois fugiram, abandonando-os e arrastando-os para os caminhos antes de falecerem e tratando os corpos não sepultados como lixo, esperando assim evitar a propagação e o contágio da fatal enfermidade». In C. VIDAL. El legado del cristianismo en la cultura occidental. Madrid: Espasa-Calpe, 2000, 92.

Cipriano de Cartago, dando conta da presença dos cristãos junto dos enfermos, diz: «Os que estão bem cuidam dos doentes, os parentes atendem amorosamente os seus familiares como é devido, os amos mostram compaixão pelos seus escravos enfermos, os médicos não abandonam os seus doentes … estamos aprendendo a não ter medo da morte». In C. VIDAL. El legado del cristianismo en la cultura occidental, 93.

«A maioria dos nossos irmãos cristãos mostraram um amor e uma lealdade sem limites, sem lastimar-se e pensando nos outros. Sem temer o perigo, tomaram a seu cargo os doentes, atendendo a todas as suas necessidades e servindo-os em Cristo. E com eles partiram desta vida serenamente felizes porque se viram infectados pela peste … Os melhores dos nossos irmãos perderam a vida desta maneira, um bom número de presbíteros, diáconos e leigos chegaram à conclusão de que a morte desta maneira, como resultado de uma grande piedade e de uma fé forte, se parece em tudo semelhante ao martírio». In EUSEBIO - História Eclesiástica, 7, 22.