Lisboa |
Missas com a presença de fiéis
Regresso prudente e sereno, com forte mobilização dos leigos
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Alegria, medo, serenidade, surpresa foram alguns dos sentimentos que estiveram presentes em algumas paróquias do Patriarcado de Lisboa no fim-de-semana que marcou o retomar das celebrações comunitárias. A mobilização dos leigos para este “novo normal” foi sendo preparada há várias semanas e passou pelo uso das novas tecnologias, mas também das “mais antigas”, como o correio postal.

 

Na Paróquia de Óbidos, o pároco começou por ter uma “grande surpresa” ao ter as habituais seis Missas dominicais com muita gente (cerca de 320 pessoas), apesar de ter pensado que as pessoas “tivessem algum medo de regressar às celebrações”, começa por partilhar, ao Jornal VOZ DA VERDADE, o padre Ricardo Figueiredo. “Até ganhei gente mais jovem que se voltou a aproximar, através das transmissões pela internet, e, agora, algumas apareceram nas celebrações, onde antes não iam”, salienta. Nas paróquias que tem a seu cargo, o padre Ricardo sublinha que as pessoas mais idosas “perceberam a mensagem” e procuraram não estar presentes nas celebrações dominicais. “O balanço é muito positivo”, atesta.

Para que a mensagem chegasse a todos, mas, de forma mais particular ao grupo de risco, foi importante fazê-la chegar não apenas através dos meios digitais, tais como o Facebook e o grupo no WhatsApp da paróquia, mas também através da divulgação no jornal local. “Para os mais idosos, foi pedido para não decidirem só pela sua cabeça, sobre se iam ou não às celebrações, mas que dialogassem com os filhos sobre a pertinência e as condições. Penso que isso foi uma das razões que levou muitos idosos a não irem. Pelo telefone, também fomos passando a mensagem”, refere o sacerdote.

Para este regresso informado dos paroquianos de Óbidos, Gaeiras e A-dos-Negros às celebrações dominicais, o pároco salienta como muito importante a “Procissão de velas em casa”, que decorreu ao longo dos 15 dias anteriores. “As pessoas ficavam em casa e nós passávamos com a Imagem de Nossa Senhora. Isso ajudou muito a que as pessoas voltassem a falar umas com as outras, sobretudo por telefone, e fomos passando a mensagem de que o regresso às celebrações seria com todos os cuidados”, sublinha.

Para o padre Ricardo, de 30 anos, foi muito importante a mobilização de toda a comunidade na criação de equipas de acolhimento, que ajudavam com a desinfeção das mãos, verificavam o uso de máscara e apontavam os lugares. “Decorreu tudo com bastante normalidade, muita serenidade e as equipas de acolhimento foram exemplares e ajudaram muito nesta dimensão da evangelização pelo serviço e cuidarmos da saúde uns dos outros”, aponta.

 

Comunicação para todas as idades

Para o futuro, o pároco de Óbidos, na Vigararia de Caldas da Rainha-Peniche, afirma, “sem dúvida”, que os apoios dos meios de comunicação vieram “para ficar”, até porque “melhoraram a proximidade com as pessoas”, sobretudo através das celebrações transmitidas online. No entanto, a realidade envelhecida da população não foi motivo para descurar a vontade de estar próximo dos idosos, mas uma oportunidade para “lançar mão de outros meios, como as velhas cartas”. “Tomei a iniciativa de enviar, em massa, correspondência para as pessoas, desejando-lhes uma boa Páscoa e dei-lhes – aquilo a que eu chamei as amêndoas da Páscoa – um livrinho com orações. Foram 120 cartas enviadas. Depois, antes do início do mês de maio, voltei a escrever e enviei as orações que o Papa Francisco pediu que fossem rezadas com o Terço. Sei que chegou e ajudou muita gente a rezar e, assim, não estiveram longe. É um sinal positivo”, atesta.

Uma outra surpresa durante o confinamento, e que foi impulsionada pela tecnologia, foi a Catequese de Adultos, que ultrapassou as 300 inscrições e foi realizada através de videoconferência. “Durante as sete semanas do Tempo Pascal, refletimos sobre os sete dons do Espírito Santo. As pessoas pediram para continuar. Por isso, assumi agora que vamos começar um novo ciclo de catequeses em casa, via Zoom, e já estamos com o mesmo número de inscrições. Esta dimensão da formação ficou muito presente”, assegura o sacerdote.

 

Com receio

Mais a sul, em Alverca, na Vigararia de Vila Franca de Xira-Azambuja, o regresso dos fiéis às celebrações deu-se com algum receio. Já com a nova configuração da igreja, “ainda sobraram lugares”, aponta ao Jornal VOZ DA VERDADE o pároco, padre Marcelo Boita. “As pessoas ainda estão a tentar perceber como as coisas são e nós também dissemos a muitos dos que pertencem a grupos de risco para não virem”, refere. Na conhecida Igreja dos Pastorinhos, com capacidade habitual para 600 pessoas, apenas ficaram disponíveis 200 lugares, e, no total das três Missas celebradas naquele templo, participaram cerca de 300 pessoas.

Chegado à paróquia de Alverca, Calhandriz e Sobralinho no início do passado mês de março – dias antes da suspensão das celebrações –, o padre Marcelo revela que nas duas semanas como pároco deu para conhecer, mais de perto, alguns paroquianos e reunir o conselho pastoral, onde estão representados diversos grupos. Foi providencial e o ponto de partida para manter a ligação com a comunidade, durante o tempo que se seguiu. “Criámos uma página da paróquia no Facebook, para tentarmos comunicar com as pessoas. Foi bom, porque muitas pessoas gostaram da página e foram acompanhando as Missas, em direto. Todas as semanas rezávamos o Terço”, conta.

Durante o tempo de confinamento, as novas tecnologias foram a ferramenta ideal para ter “reuniões com os escuteiros, palestras, conversas ou reuniões de catequistas”, explica o sacerdote. No caso da catequese, sobretudo com os mais pequenos, “ia-se mantendo o contacto com os pais, e os catequistas foram sempre enviando, semanalmente, uma oração e alguns desafios, sobretudo no tempo da Quaresma e da Páscoa”. “Tem corrido bem”, sublinha. Através do uso da plataforma Zoom, também foi possível chegar a mais gente. “Fizemos uma Via Sacra, uma Via Lucis e a oração do Terço com os jovens. E ainda, através da plataforma, celebrámos os 50 anos das primeiras promessas do agrupamento, com uma Missa”, revela.

 

Valorizar o estar em comunidade

Face às orientações da Conferência Episcopal Portuguesa e da Direção-Geral da Saúde para a celebração das Missas com fiéis, o padre Marcelo Boita destaca a importância das equipas de voluntários que garantem que tudo corra bem. “Sem as equipas de acolhimento, seria mais difícil! Para além de uma equipa ter ajudado na preparação dos locais de culto para este fim-de-semana, pedi também aos catequistas e a vários grupos da paróquia que se disponibilizassem e já temos algumas equipas feitas para os próximos fins-de-semana e para cada uma das cinco Missas dominicais. A mobilização até foi simples e correu bem”, assegura o pároco, destacando o clima de “obediência” que se verificou por parte dos fiéis.

Ao olhar para a novidade que a pandemia trouxe à vida da Igreja, o padre Marcelo aponta que esta realidade vai, certamente, “deixar um maior desejo de estarmos em comunidade, de forma presencial”. “Percebi, pelas pessoas, que houve muito o desejo de estar, muita saudade e muita alegria por podermos estar juntos e valorizar o estarmos em comunidade, o irmos à igreja”, partilha o sacerdote, sublinhando a importância da utilização dos meios digitais. “Também ganhámos com este tempo de confinamento. Foi um tempo para nos reinventarmos e acho que também vai ser bom para nós, Igreja, para irmos reinventando algumas coisas, algumas práticas, algumas ações. Claro que foi difícil, mas, por outro lado, houve coisas bonitas a acontecer, houve experiências belas. Temos que aprender, dar importância quando estamos juntos e valorizar estes momentos em que não podemos estar juntos fisicamente, mas podemos estar juntos de outras formas”, destacou o sacerdote.

 

Regresso sereno

Na Vigararia de Cascais, o vigário paroquial da Parede, padre Miguel Rodrigues, destaca a “serenidade” que se registou no recomeço das celebrações comunitárias. “Íamos para este reinício com poucas expectativas, muito no sentido de ver o que ia acontecer. Era difícil fazer uma estimativa sobre o número de pessoas, qual a reação a estas novas adaptações, mas procurámos ser muito prudentes na aplicação das orientações da CEP e das autoridades de saúde. Tínhamos as equipas bem preparadas para isso”, assegura, ao Jornal VOZ DA VERDADE, o sacerdote.

Apesar de todo o cuidado na preparação dos espaços celebrativos, “notou-se uma assiduidade reduzida”, com a participação de cerca de 300 paroquianos. Para o padre Miguel, que, juntamente com o pároco, padre Octávio Morgadinho, presidem às seis celebrações dominicais, este fator “permite uma adaptação gradual a estas novas normas”.

Os grupos etários que participaram nas celebrações foram variados. Por exemplo, na comunidade do Murtal, “maioritariamente mais idosa do que a comunidade da Parede”, o sacerdote reconhece que há pessoas que “não prescindem da ‘sua’ Missa dominical, apesar da idade avançada”. Sem descurar a comunicação das orientações, o padre Miguel Rodrigues assegura que procura “ter todos os cuidados para proteger aqueles que, mesmo sabendo das orientações, continuam a fazer-se presentes na Eucaristia”. Na Paróquia da Parede, existe também quem tenha “receio” por se deslocar à igreja, há quem opte pelas celebrações nos dias de semana e há ainda quem prefira estar em casa. Para esses, a paróquia vai procurando “ter uma oferta grande de serviços, que passam até por levar a comunhão a casa, para que as pessoas sintam isso como uma opção concreta”, sublinha.

 

Leigos mobilizados

Ter “gente envolvida” na vida da paróquia, fruto de um trabalho que vem sendo feito, “há anos, pelo pároco, padre Morgadinho” e, desde 2019, pelo padre Miguel Rodrigues, contribuiu para a mobilização dos leigos nesta nova fase, assegura o vigário paroquial. “Fomos procurando uma responsabilização grande das pessoas, por vários grupos. Procurámos chamá-las e envolvê-las nestas equipas que eram preciso formar. Todos foram muito pró-ativos. Houve uma divisão grande das tarefas, uma generosidade grande dos membros e isso refletiu-se na forma serena como as coisas correram e como cada um estava interessado em que isso acontecesse, para o bem de todos”, descreve o padre Miguel.

Durante os quase três meses que durou a suspensão das celebrações com a presença de fiéis, houve alguma dificuldade em chegar a todos os paroquianos – causada pelo facto de não existir “uma lista de contactos com as pessoas da paróquia” –, sobretudo a quem não tem acesso aos meios digitais. “Claro que temos grupos com pessoas mais envolvidas, mas há todo o ‘outro mundo’ de paroquianos que só vão às Eucaristias ou que têm as crianças na catequese... Falta aqui um acervo de contactos e isso impediu o acompanhamento de mais pessoas”, reconhece, manifestando o desejo de “chegar a todos”.

 

Uma questão de relação

Para o padre Miguel Rodrigues, a preocupação com a comunicação é essencial, sobretudo nas oportunidades que ofereceu, durante os últimos meses, a quem procura maior proximidade com a paróquia e com os seus pastores. “Já tínhamos um grupo de leigos responsável pela parte da comunicação e essa já tinha sido uma aposta da paróquia. Penso que este tempo tenha servido para desenvolver ainda mais essa comunicação em meios digitais, mas aquilo que vou sentido é que a nossa ação enquanto Igreja, enquanto paróquia, a nível comunitário, nunca vai deixar de ser uma questão de relação. Não há Igreja que funcione sem contacto. Penso que vamos sempre olhar para este tipo de iniciativas de forma supletiva”, observou o padre Miguel Rodrigues, reforçando que “a fé não pode ser vivida só a partir destes meios”.

 

fotos por paróquias de Alverca, Parede e Óbidos e João Fonseca

texto por Filipe Teixeira
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