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A história de um peditório que tinha tudo para correr mal…
O sermão mais difícil
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Foi há 80 anos. No dia 26 de Maio de 1940, os nazis cometem uma das maiores atrocidades de toda a II Guerra Mundial. Na localidade de Vinkt, na Bélgica, 86 civis foram executados pelas tropas alemãs, provocando um enorme sentimento de ódio. Dez anos mais tarde, um padre decide ir a essa vila pedir ajuda para os alemães, entretanto derrotados e que deambulavam como mendigos pela Europa. O que aconteceu foi incrível, foi quase um milagre…

 

A pequena localidade de Vinkt, situada perto da cidade de Gantes, na Bélgica, foi palco de um dos mais horríveis crimes em toda a II Guerra Mundial. As tropas alemãs, que procuravam avançar pela região, viram-se confrontadas com uma invulgar resistência e retaliaram contra as populações civis. Numa tarde, que ficou para a posteridade como um dia de infâmia, 86 civis foram executados a tiro pelos soldados nazis. Sem piedade. Foi no dia 27 de Maio de 1940. O fim do conflito, cinco anos mais tarde, não significou o fim do sofrimento para milhares de pessoas. Vencedores e vencidos partilhavam quase o mesmo infortúnio. Os alemães, derrotados nos campos de batalha, viviam então tempos particularmente duros. Todos eram, de alguma forma, o rosto do inimigo que tanto sofrimento tinha causado. Consequência da derrota militar, a própria Alemanha foi dividida e passou a simbolizar a fronteira entre dois mundos, numa guerra fria que, durante décadas, manteve o mundo suspenso do holocausto nuclear.

 

O início da AIS

Do lado de lá dessa fronteira que se chamou de ‘cortina de ferro’, ficaram milhões de cristãos, de católicos, que passaram a ser olhados como inimigos de um regime que pretendia edificar um mundo sem Deus. Essa realidade estaria na base do nascimento da Fundação AIS, chamando-se então ‘Ajuda aos Sacerdotes do Leste’. O Padre Werenfried van Straaten, o fundador da AIS, já revelava por esses dias a energia, dinamismo e coragem que iriam ser marcas de identidade de uma vida entregue à Igreja perseguida. Regressemos a Vickt. Logo após o fim da II Guerra Mundial, o Padre Werenfried van Straaten desdobrava-se em encontros, missas e palestras, sempre com o objectivo de reunir ajuda para a multidão de famintos, de pessoas sem eira nem beira que deambulavam pela Europa. Muitos eram alemães. O Padre Werenfried olhava para eles e condoía-se. Eram pessoas de mãos vazias, sem casa, sem futuro, sem nada. Eram ainda o inimigo. Para o Padre Werenfried, eram apenas pessoas.

 

Amor e reconciliação

Dez anos depois do massacre de Vickt, em que 86 civis foram executados pelas tropas nazis, o Padre Werenfried encontrou-se com o pároco local e disse-lhe que gostaria de falar à comunidade no final da Missa de domingo, precisamente para pedir ajuda para os alemães. O padre deitou as mãos à cabeça e tentou demovê-lo, garantindo que ninguém o iria escutar e só não seria escorraçado a murro e pontapés por ser um homem da Igreja. Nas suas memórias, o Padre Werenfried haveria de recordar este episódio. “Não era uma pessoa medrosa, mas naquele momento tive medo.” À sua frente, na igreja, estavam praticamente todas as pessoas de Vinkt. “Foi o sermão mais difícil da minha vida”, escreveu o fundador da AIS. Falou apenas em amor e reconciliação. Depois da bênção, no final da Missa, quando a igreja já estava completamente vazia, uma mulher aproximou-se timidamente do Padre Werenfried e, em silêncio, entregou-lhe um envelope com dinheiro. “E partiu, antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa”.

 

O gesto da viúva

O pároco de Vinkt assistiu a esse gesto e ficou de alguma forma perplexo. Aquela mulher era viúva. O seu marido, um filho e um irmão estiveram no pelotão de fuzilamento dos nazis em 1940. As palavras do Padre Werenfried tinham-na comovido a ponto de querer ajudar os alemães. “Ela foi a primeira”, escreveu o padre. Nessa noite, o Padre Werenfried voltou a falar. Dessa vez, com mais tempo. Já não era uma intervenção isolada no final da Missa. A sala estava cheia. Durante duas horas, o Padre Werenfried falou da situação desesperada em que se encontravam os sacerdotes que tinham ficado do lado de lá da ‘cortina de ferro’. A situação desses padres e das religiosas que enfrentavam agora a perseguição religiosa na Alemanha de Leste e nos outros países do mundo soviético era uma preocupação quotidiana do Padre Werenfried. A vida de cada um deles era demasiado preciosa para ser ignorada. Não havia tempo a perder.

 

Rezar em lágrimas

Era preciso agir. Mas, naquela noite, o Padre Werenfried pediu apenas as orações da comunidade católica de Vinkt. Apenas isso. “Eles rezaram com lágrimas nos olhos”, escreveu o sacerdote nas suas memórias. E o milagre aconteceu. “Naquela noite, por volta das 11h, quando estava escuro e ninguém os poderia reconhecer, eles vieram. Um depois do outro, até à casa paroquial, para entregar os seus envelopes… uns com 100 francos, outros com 500…” No dia seguinte, muito cedo ainda, quando se preparava para partir, ainda havia algumas pessoas a procurarem o Padre Werenfried para lhe darem do que tanta falta lhes fazia. “Recebi 17 envelopes com dinheiro.” Foi extraordinário. Mais tarde, os Cristãos de Vickt haveriam até a adoptar um padre alemão, assegurando a sua subsistência, sinal de que as palavras do Padre Werenfried tinham transformado aquela comunidade. Foram palavras ditas do fundo do coração e que ajudaram a fazer da Fundação AIS uma das mais importantes obras de misericórdia da Igreja Católica, sempre ao serviço dos Cristãos que sofrem, que são perseguidos, que vivem na mais absoluta pobreza. Um sermão difícil que esteve na origem de uma obra notável de solidariedade.

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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