Entrevistas |
Frei Jorge Marques, reitor da Igreja de Santo António de Lisboa
Uma “maneira diferente” de celebrar as Festas de Santo António
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A pandemia trocou os planos das Festas de Santo António e das comemorações dos 800 anos como franciscano. Neste ano de 2020, o andor não sai à rua, mas fica à porta para “acolher os seus amigos, peregrinos, devotos”. Numa entrevista realizada à porta da Igreja de Santo António de Lisboa – onde “agora, até é possível ouvir os pássaros” –, o reitor frei Jorge Marques conta, ao Jornal VOZ DA VERDADE, o que ainda está pensado para assinalar o ano jubilar e aguarda, “com esperança”, pelo “recomeço” das visitas dos peregrinos de todo o mundo.

 

Devido à pandemia, as Festas de Santo António deste ano obrigaram a algumas alterações de planos na organização – sobretudo com a não realização da habitual procissão no dia 13 de junho. O que é que a organização procurou valorizar nas comemorações deste ano?

Procurámos valorizar a Festa de Santo António não apenas num só dia, mas em 15 dias. Desde o dia 30 de maio – dia em que se comemora a canonização de Santo António [em 1232] – até ao dia 13 de junho. Fazemo-lo com as nossas Missas, aqui na Igreja de Santo António, até com uma figura a que nós chamamos de ‘padrinhos ou madrinhas de Santo António’ – são pessoas amigas, benfeitores, devotos que nos acompanham, em cada dia, em cada Missa, na celebração em honra de Santo António. Depois, fizemos um gesto ‘alternativo’ que foi colocar o andor de Santo António à porta da igreja. Como o santo não pode sair, vem até à porta acolher os seus amigos, peregrinos, devotos... Foi um gesto simples, diferente, com que nós procuramos assinalar estas festas.

 

Durante o tempo de confinamento, a Igreja de Santo António manteve-se aberta, pronta para atender as necessidades de quem mais precisava. Que necessidades foram garantidas? Sentiu um aumento da procura?

Conseguimos manter aquilo que já realizamos aqui, há muitos anos, que é o ‘Pão de Santo António’. Consiste em algumas carcaças de pão, leite e algumas mercearias. Para algumas pessoas que têm dificuldades em cozinhar, há pessoas que nos oferecem doses individuais de sopa, já feita, e que nós também distribuímos. Mesmo durante o tempo de confinamento, conseguimos manter esse apoio. No princípio notou-se alguma diferença, mas como foi sendo reforçada a oferta, com alimentação, aqui no centro da cidade, a procura estabilizou. Somos procurados por cerca de 120 pessoas. Este pão dos pobres não é apenas dar os alimentos. Existe também uma proximidade, porque sabemos os nomes de quem nos procura. Não são um número. Costumamos perguntar se está tudo bem e fazemos, semanalmente, o ponto de situação. Há um afeto, uma proximidade, estamos juntos uns com os outros. Isso também é interessante.

 

Ao pretenderem assinalar os 800 anos de Santo António como franciscano, o que procuraram destacar?

Tomaram-se várias iniciativas, em várias cidades, tais como Pádua, Coimbra ou Lisboa, e ainda estão a decorrer, embora com algumas interrupções por causa da pandemia. Evocamos esta passagem que é uma viragem na vida de Santo António. Posso dizer que é o fim do confinamento de Santo António, no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, para uma abertura ao mundo. Santo António percebeu que isso, na sua vida, só podia acontecer através daqueles frades franciscanos que ele conheceu e daqueles primeiros cinco que foram martirizados, em Marrocos. Ele pediu para entrar na Ordem Franciscana, pedindo para mudar o nome de Fernando para António, mas já pediu com uma ‘condição’ ou ‘cláusula’: deixarem-no ir como missionário para Marrocos. Depois, sabemos o que aconteceu, mas esta vocação franciscana é eminentemente missionária. E é natural que, depois de tantos anos de reflexão da Palavra de Deus, com o coração cheio, tivesse que transbordar, de alguma maneira...

 

Também o plano inicial das comemorações deverá sofrer alterações, devido à pandemia. No entanto, o que ainda será possível aproveitar até ao final de janeiro de 2021?

Aqui, em Lisboa, em colaboração com o Núcleo de Santo António do Museu de Lisboa, está organizado um itinerário antoniano, na cidade. Também com a colaboração do Turismo do Patriarcado, organizámos o itinerário antoniano que sai desta igreja e vai até à capela do Vale de Santo António – uma capela que pouca gente conhece e pouca gente sabe que existe, perto de Santa Apolónia. Passando pela Sé, por Alfama, por São Vicente de Fora e chegando até essa capela, tem toda uma história, uma espiritualidade, uma mensagem que podemos acolher. Depois, há outras iniciativas. Vamos também fazer uma conferência sobre Santo António, em ligação com o Brasil, uma exposição, na Igreja da Conceição Velha, e estamos a valorizar, como alternativa, as redes sociais. Em cada dia, há uma mensagem alusiva e tem tido muita adesão. E, no dia 13 de junho, dia da Festa de Santo António, teremos aqui diversas Missas, condicionadas ao limite da igreja. A Missa da Festa será presidida por D. Joaquim Mendes, Bispo Auxiliar de Lisboa. No final, faremos a bênção à cidade e ao mundo, com a relíquia de Santo António. É a nossa maneira de, neste ano, podermos celebrar as Festas de Santo António.

 

Considera que a figura e a devoção a Santo António, tão enraizadas na cidade de Lisboa, podem ser um exemplo a imitar – tal como pediu, recentemente, o Papa Francisco, numa carta dirigida aos religiosos e devotos franciscanos?

Essa carta motiva-nos para seguir o testemunho missionário de Santo António, o seu serviço aos mais desfavorecidos, até identificando o naufrágio de Santo António na Sicília, com tantos outros naufrágios de irmãos nossos no Mediterrâneo. Faz uma atualização e chama a atenção de todos. O amor à Palavra de Deus, o apelo aos jovens para seguirem com generosidade o Evangelho e Jesus Cristo... São breves, mas incisivos apelos e convites para todos nós.

 

É reitor da Igreja de Santo António de Lisboa desde julho de 2019. Qual o primeiro balanço desta sua missão?

É um balanço muito positivo, até 13 de março. Antes, com muitos peregrinos... Nesta igreja costumamos viver uma experiência de fé, em diferentes línguas, com diferentes povos. Só em grupos, recebemos uma média de mais de 100 mil pessoas por ano. Uma grande percentagem vem de Itália, depois da Polónia, Espanha e outros países da Europa. Mas há também muitos do Brasil, da América Latina, da América do Norte e da Ásia.

Durante o tempo de confinamento, os grupos cancelaram as visitas, tudo parou. Temos esperança que, qualquer dia, possamos recomeçar e eles possam vir de novo. Esta igreja vive mais de peregrinos estrangeiros do que nacionais ou até mesmo de Lisboa. Habitualmente, durante o ano, são os grupos de estrangeiros que mais nos visitam, mas, nos dias 13 de junho são os de Lisboa e do resto de Portugal.

texto e fotos por Filipe Teixeira
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